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Terça-feira, Outubro 19, 2021

António Sarmento: “Bastou um ser microscópico, que desaparece com uma gota de álcool, para colocar em pânico toda a Humanidade”

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António Sarmento é Diretor de Serviço de Doenças Infeciosas do Hospital de S. João com especialidade em doenças infeciosas e cuidados intensivos. O médico é também professor da Faculdade de Medicina do Porto de doenças infeciosas. O VivaCidade conversou com este profissional sobre a atual situação pandémica.

O que é que mudou no profissional de saúde depois de março de 2020?

Mudaram muitas coisas, para melhor. À medida que se foi conhecendo a doença, que ainda está longe de ser totalmente conhecida, fui aprendendo muita coisa que antes não sabia. Portanto, acho que temos hoje muito mais conhecimento da doença e das melhores formas de tratar estes doentes. Acima de tudo as pessoas sentem-se muito mais seguras e com menos medo em relação ao contágio, sabem como é que têm de se proteger e que se o fizerem estarão seguras. Eu ando o dia todo no meio dos doentes Covid e chego a casa tranquilo.

E no homem, o que mudou?

Eu acho que vai mudar muita coisa depois disto, ou antes, espero que mude e para melhor. É evidente que isto tem sido muito pesado e acarretou muito sofrimento em muita gente, mas estas coisas não têm só aspetos negativos. Acho que as pessoas deviam pensar na sua pequenez face à Natureza e ao cosmos. Bastou um ser microscópico, que desaparece com uma gota de álcool, para colocar em pânico toda a Humanidade. As pessoas com isto espero que assumam uma atitude de humildade em relação ao universo e à Natureza, sabendo que somos apenas uma parte, muito frágil e muito pequena. Essa humildade pode levar-nos a muita coisa boa, desde logo a respeitar mais a Natureza, o Meio Ambiente e acima de tudo a respeitar mais uns aos outros, porque ao assumirmos esta posição de maior humildade também nos tornamos mais humildes uns para com os outros. É pena ter que haver tanto sofrimento para aprendermos coisas que são tão básicas, mas temos que as aprender, temos que ver que realmente somos frágeis. Agora foi um vírus, daqui a uns tempos pode ser um meteorito ou uma tempestade eletromagnética de proporções muito grandes no sol que emita raios gama a esterilize a vida na Terra. Tudo isto pode acontecer. Temos que saber que não somos omnipotentes e não podemos assumir a sobranceria que dominamos tudo. Andamos com as inteligências artificiais, as sondas em Marte, etc e achamos que somos fantásticos, no entanto, um ser microscópico poderia acabar connosco. Não vai ser este mas pode haver no futuro outras pandemias por agentes mais contagiantes, mais contagiosos, mais patogénicos e mais agressivos. Nós temos que ter essa posição de humildade.

Acha que isso é uma possibilidade?

Sim, claro. Esta pandemia estou perfeitamente convencido que se vai resolver, até agora nenhuma durou para sempre. Ela vai-se resolver, mas se nós não mudarmos de vida, de estilo de vida e de atitude, vão acontecer outras, de certeza absoluta. Desde o início do ano 2000 já houve quatro pandemias, com uma frequência crescente. Nós temos que pensar muito bem que tipo de vida que queremos fazer. Até a própria economia baseada num crescimento constante pode levar à exaustão de recursos naturais, de água potável, oxigénio, de tudo isso. Nós vivemos em conjunto com microrganismos, com vírus, bactérias, fungos… que existem muito antes do Ser Humano e continuarão a existir, possivelmente com mais potencialidades de resistirem do que nós. Temos que estar mais preparados para isso, para que se as coisas acontecerem estarmos organizados. Acho que devíamos inclusivamente fazer formação ao nível da sociedade civil, regular, de formas de comportamento perante pandemias que poderão aparecer no futuro, tal como os suíços fazem que até aos 50 anos, toda a população anualmente tem uma semana de treino militar, caso aconteça algo eles estão preparados.

Houve alguma situação em que, por manifesta falta de meios (ventiladores por exemplo), ou por falta de profissionais, não conseguiu salvar uma vida?

Felizmente não tivemos essa situação. O Hospital de S. João é um dos dois a nível nacional de referência para este tipo de situações, portanto já temos uma vocação para enfrentar a fase inicial destas situações. Ainda não se falava em nenhum caso na China e nós já tínhamos conseguido que o Conselho de Administração aprovasse a criação de uma unidade ligada ao serviço chamada Unidade de Infeções Emergentes, já com uma estrutura, com pessoas vocacionadas para isso, portanto, os treinos de equipamentos e circuitos a usar estavam já oleados, até porque já tinha havido o SARS, o MERS, a gripe aviária, a ameaça do ébola… havia já o treino.
Também muito rapidamente, logo no início de janeiro, começamos a perceber que aquilo não ia ficar na China e que rapidamente estaria no mundo todo, por isso começamos logo a estabelecer um Plano de Contingência por fases.
Essas fases tinham vários níveis, de zero a quatro, e íamos subindo de nível à medida em que aumentava a taxa de transmissão na comunidade. Não fomos apanhados de surpresa, quando apareceram mais 20, 30, 40 doentes, nós tínhamos tudo preparado. O SNS já estava muito esticado antes do Covid, já tínhamos poucas camas, poucos meios e recursos humanos, tal como acontece por toda a Europa. O que teve que se fazer foi que na primeira fase foi necessário cancelar as atividades programadas, não dava para tudo e nós tínhamos que encontrar novos espaços dentro do hospital. Essas atividades programadas que foram canceladas não tinham problema nenhum, não eram urgentes, contudo, se continuassem por resolver durante quatro ou cinco meses, poderiam passar a ser urgentes. O que estávamos a tentar fazer antes do aparecimento desta segunda vaga era recuperar o que tinha ficado para trás, as tais atividade programadas adiadas. Agora, apesar de tudo, conseguimos manter-nos no nível três, não subir ao quatro, o que implica uma redução na atividade programada inferior a 20%. Conseguimos, com grande esforço e um trabalho muitíssimo intenso todos os dias, que os doentes Covid que entram de novo são em número inferior aos que têm alta, estando num planalto, continuando a manter as restantes atividades.

O que nos diz é que não houve nenhuma doença não Covid que tenha deixado de ser tratada por causa da pandemia.

Exatamente. Houve algumas urgentes que foram prejudicadas mas são aquelas em que a própria pessoa, por sua iniciativa, teve medo de ir ao hospital. Antes do Covid as pessoas tinham uma dor no peito, que podia ser um enfarte, e iam ao hospital. Nesta fase houve muita gente que deixou passar coisas graves, teve medo de ir ao hospital e portanto teve evolução de coisas, com um desfecho pior, porque tiveram medo de procurar cuidados nos hospitais. Mas isto não foi por insuficiência do hospital, foi por receio do próprio paciente.

No início desta pandemia, numa entrevista que deu, afirmava que o coronavírus estava a assustar mais as pessoas que a Sida. Mantém essa afirmação?

Mantenho. A Sida matou muito mais gente que o coronavírus, contudo, com a Sida rapidamente percebemos como ela se contagiava e como é que se impedia esse contágio, com comportamentos que são opcionais, portanto as pessoas sabiam que não corriam risco em comer na mesma mesa, sem máscara, ir a uma festa, ir no autocarro, etc. Eu podia viver em casa 30 anos com uma pessoas com Sida sem nunca apanhar a doença. No caso deste vírus nunca sabemos se a pessoa que está à nossa frente nos vai contagiar.

Em agosto, numa outra entrevista a um canal televisivo, dizia que era preciso preparar o país para uma segunda vaga. Essa preparação foi feita?

Eu não gosto nada de olhar para trás e ver o que se fez ou o que deveria ter sido feito, como dizia o outro, “prognósticos só no fim do jogo”. É sempre muito fácil depois de ver o que aconteceu dizer o que deveria ter sido feito, mas antes não se sabia. O que aconteceu cá aconteceu na Alemanha, o país mais rico e com o sistema de saúde mais desenvolvido da Europa, aconteceu em Inglaterra, em França, Itália, Espanha, etc. Não acredito que todos fossem incompetentes, se nós tivéssemos sido incompetentes haveria resultados diferentes dos nossos e apesar de tudo os nossos são bons. Não considero que tenhamos sido incompetentes. Acertamos em tudo? Não, ninguém acerta em tudo, ninguém é infalível, muito menos numa doença nova que não se conhece. Agora a pessoa olha para trás e podemos dizer que podíamos ter feito isto ou aquilo de diferente, mas na altura não sabíamos o que ia acontecer. O que é evidente é que as pessoas deviam estar preparadas para o pior, mas com esperança que isso não aconteça, devemos estar preparados para isso.

Ouvimos o Primeiro-Ministro dizer que a segunda vaga chegou mais cedo que o previsto, isto pode ter influenciado, de alguma forma, esta preparação?

Ninguém conseguia prever. Desde logo não havia certeza de uma segunda vaga, nem isso.

Isso não era, mais ou menos, factual?

Não. Por exemplo, o SARS-Cov que é um vírus parecidíssimo com este fez uns milhares de vítimas no início e depois desapareceu, ninguém sabe porquê nem para onde e a este podia ter acontecido a mesma coisa. Os vírus são seres vivos e vão mudando. Eu não sou um especialista em Saúde Pública. Nós médicos pensamos sempre na saúde dos nossos doentes, mas um decisor político tem que integrar muito mais coisas, a saúde, a população e a economia. Sem economia não há saúde porque não há dinheiro para os hospitais ou para medicamentos. Um país pobre é um país que não tem saúde. Qualquer um de nós preferia, de certeza, ser tratado na Alemanha por médicos normais do que na Etiópia pelos melhores médicos do mundo. O que ia acontecer ninguém sabia. Aquilo que eu acho é que aquilo que temos de pensar é mais do que aquilo que falhou, é pensar no futuro. Temos de pensar a sério como é que queremos organizar a sociedade e onde queremos gastar o dinheiro. Se preferimos um sistema de saúde mais robusto e nível de vida mais baixo ou se preferimos descurar a saúde e termos mais dinheiro para outras coisas. São opções. O que me parece, e isso sim, é uma crítica que faço, quando ouço dizer que se vão investir 1500 milhões de euros na TAP, que é uma empresa falida em que se ela não existir outra empresa fará esse trabalho, com esse dinheiro era possível construir três excelentes hospitais para doentes Covid, perfeitamente. Até pode existir uma razão válida para essa opção, mas nós temos o direito de ser informados sobre isso, quem nos governa tem que saber que o dinheiro é de nós todos e portanto eles têm que nos dar contas das opções que fazem, concordemos ou discordemos delas. Temos de pensar também o porquê desta doença estar na China e passados uns dias estar espalhada por todo o mundo, por causa das viagens de avião. A China é o maior centro comercial do mundo, todo o mundo viaja para a China e de lá viaja-se para todo o mundo. Eu acho que nós temos que limitar isso, as pessoas entraram num consumismo de viagens completamente disparatado, uma coisa é a pessoa viajar por uma necessidade absoluta, outra é por um turismo perfeitamente consumista. Há muitos portugueses que nunca foram ao Castelo de Guimarães e já estiveram na Muralha da China. Se olharmos para o Canadá, em relação à pandemia, eles estão numa posição muito boa, mas é preciso ver que eles fecharam as suas fronteiras, desde março até ao dia 21 de janeiro do próximo ano. Na Europa os números dispararam a partir de junho quando voltamos a abrir fronteiras e a realizar voos. Temos que repensar toda esta situação.

Em Portugal o turismo tem um peso muito grande na economia, com essa limitação nós não iríamos sofrer com essa mudança?
Por isso é que digo que estou a ver a coisa só por um ponto, mas ela tem que ser vista num sentido mais amplo, este é o meu ponto de vista porque esta é a minha área, mas depois tem que haver alguém com maior abrangência para encontrar opções. Há uma coisa que eu não tenho dúvidas, se não houvesse contacto entre as pessoas não havia contágio, mas nós não podemos viver assim. Reduzindo isto ao absurdo é assim. Acho que deve haver um meio termo e temos também que olhar para fora e ver o que outros países que estão melhor que nós, estão a fazer.

Com a aproximação do Natal aumenta a preocupação de como será vivida esta data, que recomendações deixaria aos portugueses?

Esperança. As pessoas podem sentir-se cansadas e preocupadas, mas não deixem de ter esperança. No nosso dia a dia, quando estamos a tratar dos doentes temos que manter o ânimo e isso não depende só da coragem, implica esperança e a pessoa saber que isto irá passar. As pessoas têm que saber que há imensa gente a trabalhar para isto, gente muito competente e esforçada, portanto vamos dar a volta e isto não vai durar para sempre.

Gondomar é um dos concelhos na lista de “risco extremamente elevado”, à imagem do que acontece em muitos concelhos do Grande Porto. É uma situação preocupante?

Claro que sim. Por isso é que falava atrás da formação da sociedade, não há sistema que consiga fiscalizar tudo, nem pensar, tem que partir das próprias pessoas. As pessoas têm que se mentalizar de uma coisa, o grande perigo é o contacto respiratório portanto, quanto mais confinadas estiverem, em espaços fechados, em contacto com outras pessoas, mais riscos correm. Afastem-se voluntariamente umas das outras, não é afastarem-se socialmente, pelo contrário, em situações de crise é fundamental haver uma proximidade social muito forte, é o distanciamento físico, espacial.

Esse é o principal foco de contágio?

Sim, é. Depois há muita gente nos concelhos limítrofes do Porto que depende do seu trabalho no dia a dia para sobreviver, portanto têm que se deslocar das suas residências para o Porto e outros locais onde trabalham e se há pessoas que até andam de carro, muita gente viaja nos transportes públicos e essas têm mesmo que sobreviver. O que se deve evitar são as festas, os aglomerados, as pessoas enfiarem-se todas num café, andar tudo a monte num centro comercial… mas isso parte do civismo de cada um. A pessoa até pode ser analfabeta ou só ter a 4a classe, mas muitas dessas pessoas não são desprovidas de inteligência, por isso é possível fazer-lhes chegar a mensagem e elas assumirem isso como uma tarefa da sua própria convicção.

O Hospital Fernando Pessoa é um dos hospitais de retaguarda para o Covid-19, é importante esta entrada dos privados na ajuda aos hospitais públicos?

Claro. Tudo é importante e aqui não pode haver preconceitos de público e privado. Fiz toda a minha carreira no serviço público, mas mais do que isso tudo interessa a saúde das pessoas, mais do que quem as trata propriamente, isso é um preconceito ideológico ou político. O que interessa saber é se as pessoas são bem tratadas ou não, tanto interessa se seja A, B ou C. Se houver ajudas de privados, dentro daquilo que é razoável e daquilo que o estado pode depois pagar, então não vejo problema. Se nós no público temos que fazer sacrifícios então os privados também têm que os fazer, obviamente que sem sacrifício da sua atividade normal. Obviamente que têm de ter lucro, senão não se conseguem manter, mas neste caso a finalidade não pode ser o lucro, é o sobreviver e a ajuda. É a tal consciencialização de todos.

 

Houve alguma relutância na aproximação dos privados, caso ela tivesse acontecido mais cedo acha que teria havido melhores resultados?

Sinceramente não sei. Não sei mesmo. Até porque não sei qual é a capacidade deles, não é muito grande, não sei se seria assim tão decisivo. Se me dissessem que para ajudar a tudo isto me iam meter 20 pessoas em casa eu recusava (risos), por mais altruísta que fosse, e os privados podem dizer o mesmo até porque têm o resto dos doentes. Têm que ser soluções pontuais caso a caso. Se o S. João, por exemplo, tem 2 ou 3 hospitais privados na vizinhança entra em contacto com eles e arranja-se uma solução favorável para todas as partes, sem complexo, sem preconceito. Aqui o único objetivo é que as pessoas sejam tratadas o melhor possível e com todos os meios que podemos dispor.

Alguns profissionais de saúde têm falado em exaustão física e rutura do sistema. Qual é o panorama atual no hospital de São João?

O panorama é que as pessoas estão cansadas, como é evidente, mas não estão em rutura nem perderam a esperança. As pessoas sabem que isto mais dia menos dias irá começar a melhorar.

Há exaustão mas não há rotura do sistema, é isso?

Eu não lhe chamava exaustão, chamaria cansaço. A exaustão é qualquer coisa que já não tem remédio em que a pessoa já colapsou e não, as pessoas não colapsaram, estão cansadas, como é evidente mas não vão desistir, disso não tenho dúvida nenhuma.

Apesar de todas as evidências científicas são vá- rias as pessoas que negam a perigosidade desta pandemia, algumas delas são mesmo profissionais de saúde. Se estivesse frente a frente com uma destas pessoas, o que lhe diria?

A evidência é tão grande que nem vale a pena argumentar, não vale a pena.

Algumas pessoas afirmam que os assintomáticos não transmitem o vírus. Como analisa esta afirmação?
Não se pode dizer isso. Temos visto que há pessoas que estão infetadas e não desenvolveram sintomas, apesar de terem o vírus. Assim como há assintomáticas que contagiam outras. Há aqui um período muito importante que são os dois dias que antecedem o início dos sintomas e os dois primeiros de sintomas, são os de maior contágio. Portanto, uma pessoa pode estar assintomática e ser altamente contagiante, até por não saber que está infetada.

Com a experiência que tem, quando acha que poderão começar a ser vacinados os primeiros portugueses? E qual será o efeito da vacina?
Eu tenho imensa esperança na vacina, mas certeza absoluta não tenho, tal como ninguém tem. Há estudos que têm de ser feitos de segurança e eficácia que demoram tempo, e mesmo assim estes foram muito rápidos, apesar de tudo. Em circunstâncias normais isto teria demorado mais um ano. Contudo os estudos têm sido bem feitos e até à data as principais vacinas parecem ser eficazes e seguras. Mas isso é a única coisa que posso dizer, parecem. Até posso dizer mais, muito provavelmente são eficazes e seguras, mas afirmar com toda a certeza não o posso fazer até porque há efeitos adversos que se podem manifestar ao final de vários meses ou anos. Uma mensagem de sensibilização para as pessoas que neste momento estão em casa confinadas ou nos hospitais com problemas de saúde. O que está a acontecer a essas pessoas está a acontecer a centenas de milhares no mundo inteiro, não estão sozinhas. Não é uma fatalidade que lhes aconteceu, aconteceu no mundo inteiro a muitos milhões de pessoas. Depois que há um imenso esforço e imensa gente a trabalhar nisto por eles, por essas pessoas, por- tanto só não se fará o que não for possível fazer. Para finalizar, isto não vai durar sempre, como qualquer outra pandemia. ▪

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