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Sexta-feira, Outubro 15, 2021

Sável e Lampreia com pouca procura

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Em época de pesca do Sável e da Lampreia, fomos falar com os pescadores que pescam na Ribeira do Abade, para saber como decorreu o último ano de pandemia.

Pescador Fernando Silva- Valbom

A última temporada de pesca estava a correr normalmente, só que veio a pandemia e tudo acabou. Nós temos noção do prejuízo que tivemos. Nós nem temos direito aos apoios, porque foi nos dito que é necessário fazermos não sei quantas marés e nós para fazermos aquelas marés tínhamos de fazer aqueles quatro meses, trinta dias seguidos. E não podemos trabalhar esses dias seguidos de janeiro a abril, isso é que era bom! Isto está cada vez pior. E não há entidades que se preocupem minimamente com o que se passa aqui, especialmente neste rio. Desde março do ano passado que não pescamos nada e já vamos a meio de fevereiro e ainda nem começamos a pescar. Nós não podemos pescar aqui, mas lá em cima na barragem pescam. Eles lá em cima continuam a andar “tranquilinhos” a fazer as pescarias deles, sendo que é uma zona proibida. Depois há outra questão que é a quantidade de sável na ribeira. Aqui é como achar uma agulha num palheiro. Lá em cima na barragem, aparece com mais abundância. Não há controlo. Aqui chegamos a abril e arrumamos as coisas, entretanto lá em cima continua-se a pescar. Era necessário que alguma entidade desse mais atenção a esta zona dos rios e dos pescadores, porque depois vem a APDL e coloca bóias em tudo o que é sitio e depois como trabalhamos com redes de deriva, temos que ir acompanhando a rede, mas quando vamos ver, descuidámo-nos e a rede fica presa na bóia. Automaticamente, o nosso dia fica estragado, perdido. Está tudo muito bom para o turismo e nós é que ficamos de parte. Em Gondomar, esta prática não é valorizada.

Pescador Silvestre Soares- Valbom

Nós nunca tivemos nada aqui. Uma pessoa vai trabalhar e se ganhar ganhou, se não ganhar não ganha. E com a pandemia isto piorou. Estamos completamente esquecidos. Esquecidos e abandonados. No ano passado ainda ganhamos em fevereiro, no entanto este ano com o rio cheio a água corre muito e não podemos pescar. Se uma pessoa vivesse disto, morria de fome. Antes da barragem, havia muitos mais peixes. Agora, a barragem funciona como uma parede e os peixes não conseguem desovar, porque antes de chegar lá eles apanham tudo. No ano passado, apanhamos apenas oito sáveis, no ano anterior a esse apanhamos onze. Antigamente, há 50 anos eram lançadas redes de cerco, cada lanço 500, 600, 700, de cada vez E tudo sacava. Tínhamos pelo menos 30, 40, 50, 60 barcos. E hoje tem 3 barcos a contar com o meu. Isto vai chegar a um ponto em que vai acabar.

Pescador José Soares-Valbom

Comparando 2019 e 2020. Em janeiro de 2019, apareceu mais sável. Este ano, que eu saiba, por aqui, ainda não sei se alguém apanhou algum. Na barragem também não sei, mas já ouvi dizer que apareceram lá dois ou três. Em relação ao ano passado, já tinha apanhado uns três ou quatro e lá em cima também tinham aparecido alguns. Acredito que esta diminuição se deve ao facto de não estarem a deixar o peixe desovar junto à barragem. Mas também a tendência, pelo que vejo, é de haver cada vez menos. Antigamente, cada rede conseguia arrastar para a terra 300 a 400 sáveis. Depois da barragem do Carrapatelo, a coisa começou sempre a ‘mingar’ e pelo que vejo continuará até quase a extinção do sável. Mas acredito mais que isto vá acabar pelas entidades. Eles exigem muita coisa aos pescadores e nós não ganhamos para ter esse dinheiro para pagar as suas licenças, e ter tudo em condições como eles querem. Agora também estamos proibidos de pescar porque, não sei se é a APDL, se é a capitania, se quem é. São entidades que podem e que mandam. Disseram-me que já abriu a navegação no rio Douro. Mas até ontem só havia navegação no rio Douro desde a entrada da Barra até a ponte da Arrábida. Agora disseram-me que já abriu aqui também, não sei se é verdade, ou se é mentira. Depois, há aqui outro problema, os restaurantes estão fechados e não ficam com o pescado.

Pescador e comerciante Nuno Cristóvão- Valbom

O ano de 2019 até foi um ano razoável. As vendas estavam-me a correr bem, porque o comércio em geral estava aberto, a restauração estava aberta. Depois apareceu o confinamento. Foi um ano de prejuízo atrás de prejuízo, nós não ganhamos para o que gastamos, para as licenças, para os seguros. Nós somos o parente pobre dos pescadores. Os pescadores do rio Douro, principalmente os que não têm licenças de mar, porque a maior parte dos pescadores daqui só têm licença para pescar no rio. Os pescadores que só pescam no rio Douro são os pescadores pobres do país, porque temos pouco espaço para pescar, temos poucas artes que podemos trabalhar, a barragem faz descargas que nós não sabemos porquê, a qualquer hora, sem avisos, tudo isso é contra os pescadores que só vivem do rio. Tirando o problema das barragens é o problema da navegação, por causa do turismo meteram aí as bóias, nós não temos quase onde pescar. Só em certos pontos do rio é que podemos pescar legalmente, porque se entrarmos meia dúzia de metros no canal a GNR ou a Polícia Marítima, que já são mais que os pescadores, estão constantemente a autuar toda a gente. Isto é tudo para o turismo. Vocês estão a ver este espaço aqui, isto foi criado para os pescadores, tanto que se chama Praça dos Pescadores. Isto há cem anos atrás, os ‘poveiros’ vinham aqui descarregar o peixe. Entretanto havia uma comunidade que vivia aqui que foi viver para os bairros da Câmara, e fizeram este espaço para os pescadores. Vocês se virem, está ali um contador, este espaço aqui devia ser só de apoio aos pescadores, aquele contador é o que está a fornecer água para aquela obra ali, que pelos vistos nem legal está. Para além disso nós precisávamos de ter acesso à água e à luz, agora é uma empresa qualquer que está aí a tomar conta disto, não nos deixam usar nem a água e nem a luz. Ali em cima foi colocado um meco a pedido dos pescadores para não entrar toda a gente para aqui, estamos há três ou quatro meses para receber os comandos para conseguirmos descer. Nós aqui não temos voz ativa. A Câmara Municipal de Gondomar nunca nos apoiou em nada. O Festival do Sável e da Lampreia é feito para meia dúzia de amigos, nunca na vida foi nenhum pescador tido nem achado para o assunto. A Câmara nunca fez, nem nunca tentou promover os pontos de pesca de Gondomar. A Direção Geral das Pescas ficou de nos dar um subsídio por causa da Covid aos pescadores, mas como nós não atingimos as 120 marés não o podemos receber. Assim, não há ajudas, não há muita procura e ainda nem conseguimos pescar.

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