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Sábado, Outubro 16, 2021

Paulo Pires: “Quando o poder faz parecer tudo perder o sentido!”

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Foste dos modelos mais internacionais e mais conhecidos de sempre, enquanto lusitano. Com esse sucesso todo que alcançaste, o que te fez abandonar essa carreira?

Não é que tenha sido um acidente, mas até acontecer não é que fosse um desejo nem objetivo meu. Foi algo que me arranjaram, na altura, para fazer e consegui ganhar algum dinheiro e viajar com isso. Tive imenso prazer enquanto trabalhei nesse meio. Foi um projeto que teve o seu tempo. Eu já me interessava mais nas áreas das artes plásticas, porque estava em «Arte e Design» e até pensava fazer escultura. Nem pensei que fosse funcionar como modelo, mas as coisas aconteceram rapidamente.

Foi algo, portanto, natural, não te custando muito deixar de ser manequim e te dedicares apenas à apresentação e representação?

Não custou nada. Quando surgiu a minha primeira oportunidade de fazer cinema, em 1994, já foi o espreitar para um universo que me interessava mais. Depois, quando mais tarde (1995/6) fui novamente desafiado para cinema e também teatro, não tive qualquer dúvida – se é que alguma vez a tive – de que era aquela área que queria. E defini então que sempre que surgissem trabalhos em simultâneo nas duas áreas, não iria pela que desse mais dinheiro mas por aquela que gostava mais: a de ator. Deixei de ser manequim até mais cedo do que se imaginava, embora hoje em dia ainda faça um ou outro trabalho, ligado à publicidade.

E nesse teu “bichinho” que referiste, ligado às artes plásticas, chegaste a realizar algo a nível de escultura ou de design?

Não propriamente. Fui sempre fazendo as minhas coisas, a nível pessoal, fazendo projetos mas adiando constantemente. Houve um gosto maior que ganhei, na altura em que era modelo, pela fotografia. Deixei de fotografar com a regularidade com que o fazia, até porque hoje em dia banalizou-se um pouco a fotografia com as redes sociais e com as câmaras em qualquer telemóvel.

Olhando para a tua longa carreira de ator, com vários papéis desempenhados, houve algum ou alguma situação em que, porventura, aprendeste mais sobre ti próprio e que, até, te surpreendeste?

>DR

Uma das coisas incríveis que o ser ator implica é uma grande análise sobre nós próprios e sobre os outros, a uma permanente dissecação dos sentimentos e a observar. Houve trabalhos que tive de explorar mais quem eu sou e de procurar zonas mais negras de mim próprio. Aquelas personagens mais duras, mais violentas, mais negativas – chamadas de ‘vilões’ – obrigam-nos a uma viagem interior mais perturbadora, porque vamos mexer com sentimentos que, inclusive, não sabemos que temos. É uma zona muito complexa. Ou aquelas mais sentimentais que todos nós, atores, gostamos.

Seja pela tua maneira de ser, pensar e estar na vida, seja no teu espetro profissional, o que mais te sensibiliza – em concreto – e te impressiona pela positiva?

Uma das coisas que sempre me estimulou foi a Psicologia, a análise do ser humano, as nossas relações. Essa simplicidade e, ao mesmo tempo, essa complexidade. Nós andamos no mundo, mais ou menos, pela mesma razão; queremos, mais ou menos, as mesmas coisas, embora sejamos iguais e, ao mesmo tempo, tão diferentes! O que me move mais é a sensibilidade às coisas simples, o apreço pela simplicidade das coisas – algo que esta pandemia nos ajudou a valorizar. É o gosto pela nossa essência sem grandes artifícios e sem estarmos reféns do dinheiro.

E, por outro lado, o que mais te aborrece em cada uma dessas situações, o que te incomoda realmente e te afeta negativamente?

Incomoda-me, de facto, a arrogância das pessoas. Mas há algo que me espanta ainda mais: o quanto o ser humano gosta do poder! O quanto o poder – e o dinheiro, lá está – faz parecer tudo perder o sentido. Espanta-me como muita gente se move aí, em vez de se reconhecer o legado, as boas-obras, que as pessoas deixam. Parece que isso já não interessa… Todos gostamos de poder, mas ele é muito perigoso: pode nos consumir e ofuscar. Outro aspeto que me choca é o racismo, de que tanto se tem falado. Surpreende-me como é que no séc. XXI as pessoas ainda não tenham resolvido esta questão! Acho mesmo estranho, porque estamos apenas a falar de cores de pele distintas consoante o local onde se nasce.

Nesta questão do racismo, qual a resposta para a pergunta que deixaste no ar numa entrevista que deste em março: “Por que não se veem cidadãos de origem africana na polícia”?

Essa é uma pergunta que me surgiu durante essa entrevista. E é curioso que dias depois estava a abastecer o meu carro num posto de combustível e vi um agente da GNR de origem africana, o que é raro entre nós. Na polícia nacional nunca vi. Para mim faria sentido eles estarem, não percebo porque não estão na PSP, por exemplo. Isso revela que, afinal, existe racismo em Portugal.

Decorreu o mês passado uma campanha da EAPN, alertando que “o discurso de ódio não é argumento”. A que se deve, no teu entender, o aumento deste tipo de discurso e porquê? As redes sociais ajudam ou desajudam?

Absolutamente. As redes sociais são, muitas vezes, uma forma muito cobarde de as pessoas comentarem situações e de disseminarem sentimentos de ódio. Elas são uma excelente ferramenta de trabalho e de divulgação, como são todas as ferramentas criativas. Contudo, tal como o martelo, também serve para ferir. E as redes sociais estão cheias de pessoas que se escondem num perfil falso ou que não está ao alcance dos outros. Por isso, é fácil espalhar ódio por aí. Esse é um caminho que as pessoas escolhem e que não é o certo: o de raiva, de desdém, de crítica. Indo por outro caminho seriam mais felizes!

Aliás, há quase um ano, tu próprio foste pirateado e chantageado numa das tuas redes. O problema ficou já totalmente resolvido? Que conselhos dás aos jovens para evitarem esses perigos e que mecanismos têm à disposição para solucioná-los?

Eu não sou entendido nestas questões e tive alguém que me ajudou na altura. O conselho que eu dou é não se clicar em nenhum link / hiperligação que não se saiba o que é. Foi o que me aconteceu e foi uma situação chata, porque outra pessoa entrou no meu perfil, havendo o risco de publicar coisas que não são aquilo que sinto. Felizmente isso não aconteceu. Foi rapidamente resolvido e reposto. Eu participei de imediato na Polícia Judiciária: é outra coisa que também aconselho, embora considere não haver uma resposta muito célere. É preciso muito cuidado e evitar essa curiosidade com o desconhecido. Sobretudo os mais jovens, não só por usarem mais as redes sociais, como estão mais indefesos relativamente à vida.

>DR

Tem igualmente a ver com a Educação. E tu tens duas filhas: uma ainda criança e outra já jovenzita. O que priorizas mais no Ensino que lhes prestas e no crescimento de ambas?

Os valores que eu tento passar são o do respeito pelos outros e o respeito por elas. Pois para se respeitar o outro, a pessoa tem de começar por se respeitar a si própria. E o de fazer escolhas. Mesmo que não seja a correta, deve voltar-se atrás. Temos que saber que tudo aquilo que vamos decidindo vai determinar o nosso futuro. Tento guiá-las e não sei muito mais do que elas: elas são adolescentes pela 1.a vez, são filhas pela 1.a vez e eu sou pai duma adolescente pela 1.a vez (enquanto duma criança pela 2.a vez). Ou seja, os pais também cometem erros: importa crescermos todos juntos. Passo-lhes o sentimento de que os pais não sabem tudo, mas já viveram mais situações nas quais poderão ajudar. Portanto, é passar-lhes amor, respeito e disciplina.

Dás contigo a pensar no futuro delas, como será, e olhando ao alargamento de expressões e ideais extremistas na nossa Sociedade, seja mais à Esquerda ou mais à Direita, isso suscita-te maior preocupação?

Sim, o mundo onde nós vivemos e em que elas estão a crescer suscita preocupação. Eu não gosto de pensar que as coisas estão tão mal, porque o ser humano já viveu momentos péssimos. Vamos atravessando novos momentos e vamo-nos preparando para eles. No mundo tem havido, como dizes, esses movimentos e aqueles mais à Direita têm-me preocupado mais, por serem mais radicais, estimulando o ódio e a agressividade entre as pessoas.

Sendo a tua esposa austríaca, e conhecendo tu a Áustria, isso faz-te almejar que os Portugueses devessem ser melhores e rigorosos em alguns aspetos cívicos e culturais, ao nível dos Austríacos?

Devemos todos aprender uns com os outros: nós com eles e eles connosco. Acho que devíamos aproximar-nos mais nesses aspetos à Áustria. É um país que conheço todo bem, mas mais Viena onde passei mais tempo e conheci a minha esposa. É uma cidade muito bem organizada. E há uma diferença com o povo latino: temos a preocupação de proteger a família e num círculo posterior – ou muito próximo da família – estão os amigos. E para lá disso é como se não interessasse. Há quase um sentimento de que não vale a pena dar à Sociedade porque ela não nos vai devolver aquilo que lhe vamos dar. E num país como a Áustria acredita-se mais na Sociedade e as famílias não são tão fechadas nem dependentes como as nossas. Lá, há uma necessidade e uma disciplina de que devemos dar e que receberemos em troca. Enquanto aqui vivemos numa bolha, em que pagamos tudo e mais alguma coisa. Já nesses países como a Áustria não é assim. Até podem pagar mais impostos, mas sabes que depois tens tudo: um bom SNS, boas escolas sem teres de ir para as particulares, não pagas autoestradas (apenas uma vinheta anual).

Há, portanto, mais equidade e menos desigualdades sociais…

Sem dúvida. Há uma Sociedade bem montada como deve de ser. Nesse aspeto, gostaria que fossemos mais assim. Mas não nos podemos desvirtuar, somos como somos. E é uma característica latina, que não só nossa. Culturalmente somos também mais pobres: a Cultura e a Educação são a base para a vida das pessoas. Embora não conheça os países escandinavos, há uma forma de estar na vida que me agrada muito. Mas a Áustria é um país que admiro muito e tenho muitos amigos lá. Não esqueçamos que Viena já ganhou, várias vezes, o prémio de cidade com melhor qualidade de vida do mundo. Só é mesmo pena não ter mar.

Já agora, invertendo a questão e dado que somos bons em muita coisa, em que é que achas que os austríacos ou outros europeus poderiam ser melhores olhando para os portugueses?

Nós somos uns incríveis hospitaleiros. Apesar de na Áustria me receberem e tratarem bem, não têm esta alegria em acolher como nós temos. Talvez pelo facto de o meio determinar o Homem, dos países mais frios e dos países mais quentes. E isso faz a diferença na socialização. Depois, temos uma capacidade de trabalho enorme – mas isso, também eles têm – até pela própria necessidade. Se não for muita, acabamos por nos acomodar. Portanto, destaco essa grande característica de sermos cuidadores.

Uma das tuas preocupações, nesta pandemia e não só, é o termos de cuidar de nós e dos outros. Como é que esse cuidado deve ser empregue? Temos condições gerais suficientes para prestar esses cuidados e afetos?

Temos. Não devemos nunca descuidarmo-nos nesse sentido. Tem de haver respeito mútuo. Até pelo simples facto de termos de usar máscara nesta pandemia, para proteger os outros que não só nós mesmos. Aqui se vê também esse cuidado: cuidado connosco e, também, com os demais. Há sempre algo que nos afeta, mesmo que não nos infete diretamente a cada um de nós.

Encontras-te a gravar uma nova telenovela, que ainda não foi para o ar, e que se intitula: «Para sempre». Afinal, o que é que pode ser para sempre, que não falhe, já que a pandemia nos interrompeu tantos projetos?

Nada é para sempre. Nem nós somos e nem sabemos se a raça humana será para sempre. Esta pandemia veio trazer resposta ao que julgávamos não ser possível: “Ai, eu não posso deixar de fazer isto” ou “eu não posso deixar de ir ali”, etc.. Não, como vimos, tudo pode parar! Podemos, porque quando tem de ser tudo para. O mundo não pensava assim. Tudo isto veio reforçar que, de facto, o valor mais alto e mais importante que temos é a saúde. Acho que “para sempre” ficará este vírus: espero é que não fique para sempre na forma como é e como existe no mundo. Oxalá ganhemos a resistência necessária para o superarmos.

Ainda neste “para sempre”, imaginas-te a contracenar e viver dos palcos durante o resto da tua vida ou tens no horizonte outros projetos profissionais aos quais te queiras dedicar e que nos possas revelar?

Não, não tenho. Nunca fui muito de fazer projetos a longo prazo. Até porque acho que não funcionem. A concretizá-los tem de ser a curto e médio prazo. Gosto de ir apontando direções e criar objetivos: é fundamental nunca perdê-los. Vejo-me a fazer o que faço e espero continuar a ter saúde por muitos anos para realizá-lo com qualidade e com qualidade de vida. Passa-me pela cabeça de, um dia, realizar um filme. Espero ter essa experiência.

E já pensaste que tipo de enredo será: algo baseado em factos verídicos ou apenas fictício?

Ainda não sei. Estás a dar-me vontade de pensar nisto mais a sério. (risos) Interessa-me mais um exercício quase filosófico sobre qualquer coisa da vida, do que contar uma história que tenha acontecido.

Não sei se conheces a cidade de Gondomar, limítrofe ao Porto, mas pedia-te que possas destacar aquilo que mais aprecias nesta área e nos seus munícipes…

Não sei bem se já estive em Gondomar, ou se pelo menos de rápida passagem. Mas olhando às gentes do Porto, cidade que conheço bem, acredito que as pessoas de Gondomar também sejam muito hospitaleiras – como falámos há pouco –, e aí se come muito bem. É sempre um prazer ir ao Norte, de que gosto muito.

Posso dizer-te, por exemplo, que nas freguesias gondomarenses existem grupos de teatro amador. No teu entender, o que é essencial para eles prevalecerem e se revitalizarem?

Não tenho a fórmula mágica para aconselhar. Mas há uns anos houve um trabalho muito interessante do nosso Ministério da Cultura, com a construção e restauração de muitos teatros do país. Depois houve um forte desinvestimento, mesmo fora deste tempo de pandemia. É essencial irmos ao teatro e ao cinema. É preciso que haja um maior apoio governamental para que essas companhias se revitalizem. E, também, que as pessoas acreditem nos projetos e que percam aquele estigma de achar que “o teatro é uma coisa chata”. Não tem de ser!

O que consideras importante deixar como mensagem final?

Muitos de nós nunca atravessámos uma pandemia como esta, a nível mundial. Por isso, é necessário estarmos mais unidos do que nunca! Importa agarrarmo-nos ao que é essencial e a este respeito pelos outros. Acredito que, com as vacinas, estamos perto duma mudança; e espero que venha a haver um tratamento. Sejamos comedidos no que tenhamos de ser, para não haver mais novos recuos. Assim, quando a imunidade de grupo se criar, poderemos voltar a usufruir da nossa vida. ■



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