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Sábado, Outubro 16, 2021

Fátima Lopes: “Tudo aquilo que se banaliza perde valor e deixa de ter magia”

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Se tivesse que escolher as suas origens, e pudesse fazê-lo, seria na mesma o Barreiro? Porquê?

Mantinha, claro que sim. Porque nós nunca devemos renegar a terra onde nascemos e onde aprendemos a ser as pessoas que somos. Portanto, eu sou filha do Barreiro. Foi aquela cidade onde nasci, que vivi 20 anos da minha vida e foi nela que me fiz gente. Nunca escolheria outro sítio, pois somos fruto das nossas origens.

Antes da televisão passou pela Imprensa e pelo marketing, em experiências distintas. Sentiu grandes diferenças e melhorias nessa transição?

É uma diferença muito grande passar do jornal para a televisão, até porque estamos a falar de meios de comunicação muito diferentes. Na imprensa escrita eu era uma jornalista anónima atrás da minha coluna: ninguém sabia quem eu era. A partir que começo na televisão é um aumento de exposição: toda a gente nos fica a ver, a acompanhar o nosso trabalho, a avaliar e a formar uma opinião. Passa a haver um rosto. A vida leva uma volta de 180 graus. A entrada na televisão é isso mesmo! Pouco tem a ver com a imprensa. São dois estilos distintos que eu gosto bastante. Até porque a escrita, como se nota, nunca ficou esquecida na minha vida (risos).

Aliás, essas opiniões e comentários que foi ouvindo do seu trabalho moldaram a sua forma de ser e de estar, ou foi sempre firme às suas convicções?

Eu sou uma pessoa de opiniões formadas. Ou seja, não sou uma “Maria-vai-com-as-outras”. Gosto de pensar com a minha própria cabeças. É óbvio que as críticas construtivas que foram sendo feitas ao longo do meu caminho, quando eram feitas por pessoas que sabiam da “poda”, eram tidas em consideração. Porque é assim que deve de ser. Agora, quando há pessoas que não têm conhecimento na matéria e dizem meia-dúzia de chalaças só porque sim, muitas vezes eu não lhes presto atenção porque não sabem da nossa área nem da nossa arte. Uma coisa é ouvir uma opinião dum Júlio Isidro, que tem muita experiência, de colegas que trabalham há anos em televisão. Como também o José Eduardo Moniz. Pessoas que sabem muito mais do que nós e que devem ser tidas em conta, porque vamos seguramente aprender com elas.

Esses dois nomes que referiu são referências para si, entre outras, que a ajudaram no seu percurso?

São duas referências. Eu diria que, no meu caminho, a pessoa que foi a minha maior referência foi aquela que me lançou: o Emídio Rangel. Ele era um visionário. Ele via aquilo que ninguém viu. O que sou na televisão devo-lhe a ele. Depois, fui-me cruzando com pessoas muito sábias e experientes, como o Carlos Cruz – não se pode esquecer o nome dele – que nos ensinou muito a todos. Como também já referi, o Júlio Isidro. Ele é um apaixonadíssimo pela televisão: as conversas com ele não têm fim. Ele é um mundo numa pessoa! Todas essas pessoas, daquela geração, ensinaram-nos mesmo muito e acrescentam-nos verdadeiramente. Há muitos nomes na praça que ainda continuam a trabalhar e que gosto imenso deles.

Foi ganhando experiência e currículo em apresentação de programas televisivos, de entretenimento ou não. Qual aquele que lhe foi mais difícil de realizar, que exigiu mais de si, até pela sua maneira de ser?

Não consigo apontar um programa que tenha sido o mais difícil de fazer. Apenas procurei aceitar sempre projetos com os quais me identificava. Se calhar há um ou outro que eu fiz e que não tenho nada a ver com eles. Fiz porque tinha de os fazer, enfim, mas não vou dizer quais. Em geral, fiz aqueles programas que se relacionavam comigo. A dificuldade estava em fazê-los bem por respeito às pessoas que participavam neles. Programas de daytime ou de histórias de vida são extremamente difíceis, porque as vidas que temos à frente são reais. E as pessoas têm de ser tratadas com muito respeito. Esse é o grande desafio, que não apenas a grande dificuldade. E tratar com o mesmo cuidado a pessoa que vem contar uma história alegre, bem-disposta e com brincadeira, tal como a pessoa que vem contar uma história dura. Conseguir que ambas se sintam em casa é um desafio enorme. Se um apresentador de daytime não percebe que tem de acolher ali as pessoas como sendo a segunda casa delas, é importante que aprenda!

E foram precisamente essas histórias reais de vidas pessoais que deu a conhecer, que a inspiraram para escrever os seus livros. Assim sendo, porque são praticamente ficção?

Os meus livros não são todos de ficção. Este mais recente é o oitavo e dos oito livros dois não são de todo ficção: um, é de pensamentos e, outro, é sobre a minha experiência enquanto peregrina a Fátima. E, ainda, o «Mãe e Filha com história» é um romance histórico. Pondo esses três à parte, os restantes são romances. O romance é uma oportunidade de criarmos vidas. E nós criamos vidas como nós queremos, damos-lhes o rumo que nós entendemos. Os meus livros tiveram sempre o propósito de passar determinadas mensagens. Então tenho de criar histórias onde consiga passá-las. Por exemplo, este livro «Encontrei o amor onde menos esperava» está cheio de mensagens positivas, de mensagens de força, esperança, nascimento e recomeço. Por que é que isso é importante? Porque nós vimos e atravessámos uma pandemia. Eu preciso que as pessoas acreditem e que não mandem a toalha ao chão! Quero sentir que posso fazer alguma coisa – nem que seja zero vírgula zero, zero, zero, zero, um por cento – e que toque a vida de quem me lê, de quem me dá oportunidade de ler, e que essa pessoa sinta uma imensa esperança. Mesmo que tenha 50 ou 60 anos de idade, que possa pensar: eu ainda posso fazer alguma coisa, ainda posso recomeçar e experimentar, ainda tenho vida. É isto que quero que as pessoas sintam. E só é possível seu eu criar histórias de raízes, porque vou colocar lá os ingredientes todos que são necessários para tocar a vida das pessoas. Caso contrário, não consigo.

Boa parte deles – senão mesmo todos e cada um à sua maneira – versa sobre o tema do “amor”. Para si, como proceder para que ele não seja, como tantas vezes, tão banalizado?

O amor é algo muito sério. Muito difícil de explicar, muito difícil de falar. A ideia de não banalizar é porque tudo aquilo que se banaliza perde valor e deixa de ter magia. Daí que, sendo o amor tão sério não devemos banalizá-lo. Por isso, cada um dos meus livros aborda o amor de maneira diferente, porque ele é muito rico. Acho que não há palavras suficientes para descrever o que é o amor na sua plenitude. Eu diria que cada um dos meus livros tem uma visão distinta do amor, talvez porque eu não consiga contar duma vez só tudo o que é o amor (risos).

Mas ao ser sério implica ou complica o humor no amor?

Não. As pessoas ao lerem os meus livros vão entender que quando digo que o amor é um assunto sério é no sentido de merecer respeito, não no sentido de ser sisudo, fechado e sem sorrisos. Até porque isso é a antítese do amor. O amor é brilho, é alegria, é felicidade. O contrário é outra coisa qualquer.

Além de o ter encontrado onde menos esperava, encontra sempre o amor onde espera encontrar? E de que modos ele se revela mais autêntico, genuíno?

Considero que o título deste livro está mesmo bem conseguido porque, em verdade, não encontramos o amor onde menos esperamos. Pois o amor não é só aquele da experiência amorosa, mas pode ser entre pessoas que são amigas e que são familiares. Eu digo muitas vezes às minhas amigas e amigos que os amo profundamente. Mas digo isto verbalmente e por escrito! Eu despeço-me, muitas vezes, das amizades com um abraço e com um “amo-te tanto”: são formas de amor. Depois, posso cruzar-me com alguém na rua que não conheça, com quem possa falar e estabelecer até uma relação e ficar como uma das pessoas mais importantes da minha vida. Portanto, o amor encontra-se onde não se esperava. Esta imprevisibilidade é que faz a magia, sem que o ser humano tenha de controlar este sentimento que pensa dominar. Esqueça! Ganhe humildade, ele é que nos controla a nós.

E isso acontece – de encontrar em todo o lado o amor – porque está recetiva a tal. Facilita o processo, caso contrário…

Exato. Acontece porque sou uma pessoa aberta e que me encanto com as pessoas. E isso é bom! Eu gosto de ter a alegria de saber que ao cruzar-me com uma pessoa, ela provavelmente não só me vai fazer melhor pessoa, como também me poderá fazer viver umas das experiências mais intensas da minha vida. Há pessoas que não conhecemos e que com o pouco que digam podem fazer tanto sentido. Essa é a imprevisibilidade da vida a surpreender-nos. Daí não a controlarmos, tal como o amor: deixamos acontecer. É nisto que sou uma eterna criança: quando alguém me apresenta uma pessoa nova eu parto do princípio que há algo para viver com essa pessoa. Essa curiosidade de conhecer algo ou alguém faz-nos viver coisas bonitas e intensas. O pôr um rótulo de imediato diante da pessoa que não se conhece – tipo “parece ser pouca informada” ou “tem ar de ser insegura” – é boicotar por completo a experiência do conhecimento. Temos de ter o espírito do “aí vou eu”, que dá uma leveza incrível à vida!

Já encontrei, em séries e filmes, a visão e expressão de que “o amor não é tudo, que só amor não chega para segurar uma relação”. Concorda? O que lhe parece?

Concordo, porque além do amor tem de haver respeito, amizade, generosidade e vontade de fazer o outro feliz.

Neste seu livro «Encontrei o amor onde menos esperava», já na 4.a edição, reforça a sua paixão pelo Alentejo, de que é Embaixadora. Antes já tinha sido investida Embaixadora do «Portugal Sou Eu». Que balanço faz deste projeto do Governo com quase 10 anos?

Mantenho-me como Embaixadora e afirmo que precisamos de fazer muito mais pelo projeto «Portugal Sou Eu». Ou seja, é um trabalho que não tem fim. Enquanto existir alguma coisa para fazer, para podermos defender e valorizar – como as boas empresas portuguesas, os produtos de excelência que nós temos, o orgulho do “isto é made in Portugal” – este trabalho não está terminado. Apesar de serem já 10 anos e de se terem feito algumas coisas, é necessário fazer ainda mais! Até porque, e antes da pandemia já estava consciente em toda a gente, Portugal estava a viver uma fase em que o país em si sentia finalmente o orgulho de ser Português. Mesmo que sejamos pequeninos, podemos ser diferenciadores em muita coisa. Não digo que somos melhores do que os outros povos, mas somos diferentes em muitas coisas. E algumas delas somos realmente muito bons! É preciso não perder esta consciência, mesmo com a desorientação que a pandemia nos deixou, no mundo inteiro. Temos de acreditar que vamos recuperar. Quanto mais rápido recolocarmos e nos recentrarmos naquilo que nós temos, nas nossas mais-valias, nas nossas competências e nas nossas particularidades mais depressa nós retomamos e diremos: “Portugal sou eu! Somos todos nós”! E temos de dar as mãos para nos ajudar. Isto vai levar tempo – a reerguer, a reconstruir as vidas, a dar esperança a quem não a tem –, mas só juntos e unidos conseguiremos.

E nesse percorrer e no conhecimento reforçado que vai ganhando dos nossos municípios, como descreve o de Gondomar? O que destaca nele?

Gondomar é uma terra de gente guerreira e muito aguerrida, de empresários com muita força. Tem um tecido empresarial forte. As pessoas têm, efetivamente, um grande dinamismo. E é sempre importante lembrar isto, porque nos momentos de fragilidade é bom ir resgatar a História, quando ela é de força e de fazer acontecer. E Gondomar faz acontecer muita coisa!

Ao invés do que muita gente possa pensar, não é apenas a criação e produ- ção de filigrana…

Ora essa, não é só isso! Não sejam limitados: vão lá, vão ver, ponham os pés no terreno. A filigrana é espetacular! Eu tenho algumas peças, olho para elas e penso: “que mãos abençoadas!”. Mas Gondomar é mais do que filigrana. É preciso olhar a terra, para as gentes, para as pessoas, e se não conseguirmos ver logo as mais-valias ali presentes deixo um desafio: vão à História! Ela permite-nos, muitas vezes, perceber, quem são estas gentes, do que elas são capazes. Fica o convite: vá a Gondomar, conheça melhor esta terra. Vale a pena! E não é só por causa da filigrana (risos).

Se a sua vida não fosse comunicar, e da forma tão humana e emotiva com que o faz, de que outro modo seria?

É uma boa pergunta. Nunca ma fizeram nem nunca pensei nisso. Não sei a resposta (risos). De facto, não me vejo a fazer outra coisa que não seja a comunicar. Eu sou muito polivalente, é verdade, porém quando há alguma coisa que nunca fiz eu faço muitas perguntas para tentar aprender. Não quer dizer que eu consiga aprender ou que consiga fazer bem. Mas pelo menos tento e esforço-me. Pode até não estar ao alcance da minha inteligência ou da minha capacidade e isso não tem mal nenhum. Tenho a humildade para o reconhecer. As pessoas não sabem todas de tudo. Se me perguntar se me vejo comunicar que não na televisão, aí já respondo que sim. Há várias formas de comunicar e assim o tenho feito desde janeiro 2021.

Tem o desejo de voltar à TV de forma mais regular? Em que moldes e tipo de projeto gostaria de abraçar?

Sim, ainda tenho muita coisa que gostaria de fazer na televisão. Não tenho fechado o regresso à mesma, só não sei quando. Nenhuma porta está fechada na minha vida.

Sabemos que é uma mulher de fé, como, aliás, está bem patente no seu anterior livro. Sem fé a sua vida seria (muito) diferente?

Sem dúvida! Porque a fé é o salto no escuro, a certeza de que nunca vamos cair. É uma coragem que renasce, é uma força que surge nos momentos mais difíceis, é a alegria imensa de viver. Tudo isto é fé.

Foi e é essa fé que a fez descobrir que “a vida tem um plano para ti”, tal como escreve em «Encontrei o amor onde menos esperava»?

Sim, eu acredito que Deus quando nos faz passar por aqui tem uma missão para cada pessoa. Depois, ficamos com o livre-arbítrio de fazer as nossas escolhas. E quando elas não são as melhores para nós, Deus manda-nos sinais. Uma coisa é não estarmos atentos, mas Ele vai enviando sinais que nos fazem perceber que “não é por aí”. A vida de todos é importante – a minha vida não é mais importante que a sua – e somos todos necessários! Se todos acreditássemos nisto, valorizávamo-nos mais e respeitávamo-nos mais uns aos outros. Não há pessoas de primeira categoria e pessoas de segunda categoria. Há pessoas, “ponto final”.

E há muitas delas que andam desorientadas e perdidas. Acha que será por não saberem desse plano, ou por não amarem a vida ou, ainda, por não quererem abrir o seu coração a esse plano?

É por razões várias. Muitas vezes tem a ver com uma história de vida muito sofrida, em que essas pessoas não tiveram ajuda de ninguém nem quem as escutasse. Quando assim é, torna-se mais difícil. Depois, há pessoas que são negativas por natureza: veem sempre o copo meio vazio, veem sempre e apenas aquilo que não correu bem, estão sempre a criticar e isso em nada ajuda. Por outro lado, gasta-se demasiado tempo a criticar. Cada vez que critico e aponto o dedo ao outro, estou a ajudá-lo a cair. Não a ajudá-lo a levantar. É bom que se tenha esta noção. Deixemo-nos da crítica gratuita do “bota abaixo”.

Será um defeito do sofrimento a pessoa fechar-se em si mesma? Pois tantas vezes não conseguimos ver e perceber que ela está a sofrer…

Por isso é que temos de estar atentos ao outro. E, por vezes, o outro dá-nos sinais que são muito ténues. Mas eu só vejo o sinal do outro se olhar para ele! Se as pessoas não olham umas para as outras, hoje em dia, como é que eu posso ver que esta ou aquela precisa de ajuda?! Temos de olhar com “olhos nos olhos”. Eu só vou poder perguntar a alguém: “estás com olhos tristes. Estiveste a chorar? Passa-se alguma coisa? Em que te posso ajudar?”, se me fixar nos seus olhos. Temos de parar e nos deter no outro. E isto não é perda de tempo, é respeito, é concentração, é gostar das pessoas.

Entre outras frases e desafios marcantes, nele refere: “olhar para a nossa realidade sem máscaras”. Como será isso possível, quando há cada vez mais falsidade, egoísmo e inveja?

Eu não escolho o meu caminho por aquilo que os outros fazem ou escolhem. Eu prefiro a verdade e, por isso, dispenso as máscaras a viver a vida.

Que mensagem motivacional e final pode deixar a quem mais precisa e aos que nos vão ver, ouvir e ler?

A mensagem que quero deixar é: a vida vale sempre a pena! ■

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