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Segunda-feira, Novembro 28, 2022

O Natal no nosso hospital

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São muitos os profissionais ligados à área da saúde que abdicam do seu Natal em família em prol de quem mais precisa de ajuda, este é o caso dos profissionais do Hospital Fernando Pessoa. Uma atitude nobre que, despertou a nossa curiosidade. Assim, o VivaCidade neste mês de dezembro foi perceber em que moldes se celebra esta quadra festiva.

São os médicos, os enfermeiros, os técnicos e os profissionais de limpeza ou cozinha que fazem de tudo para trazer o espírito natalício aos utentes que não podem viver o Natal com quem mais amam. Tudo é preparado ao mínimo detalhe, desde as decoração, às atividades organizadas pela equipa de animadores, até à ementa do dia, preparado com todo o carinho pela equipa da cozinha.

Um trabalho em equipa que no final, faz toda a diferença e traz mais cor à vida dos internados. Ao todo, a média de internados são cerca de 120 pessoas, de três unidades, a Unidade Média de Reabilitação, a Unidade de convalescência reabilitação e manutenção, e pela primeira ver este ano a Unidade de Longa Duração.

> José Ribeiro

José Ribeiro é um destes pacientes. Natural do Porto, sempre viveu em Matosinhos, mas foi em Gondomar que, há cinco anos, descobriu a sua segunda casa, mais concretamente, no Hospital Fernando Pessoa.

Na sua rotina diária, reinventa-se para não ser sempre a mesma. Gosta de ler, de falar e particularmente de tocar guitarra portuguesa, sendo Carlos Paredes, um dos seus interpretes preferidos. Nos corredores daquela unidade, passa o dia a falar com os profissionais e outros utentes.

É por dar-se bem com os utentes que José, todos os dias os visita para lhes dar a conhecer a ementa do dia e isso, também não irá mudar no dia de Natal. O paciente sente que os profissionais de tudo vão fazer para assemelhar este dia, ao que tinha com a sua família. Consciente, sabe que não será a mesma coisa sem os seus, mas está confiante de que o trabalho da sua “Querida amiga” Maria do Céu e Bianca, fará com que este dia seja mais acolhedor. “Elas já prepararam quase tudo para a festa de Natal. Fazem trabalhos manuais, pinturas… tudo serve para decorar as salas e nós também ajudamos. Pintamos t-shirts, através de moldes, que são para oferecer aos outros”, explica o utente.

Quanto aos natais antes da pandemia, explica que sempre recebeu a visita da mãe e, por vezes, também do irmão. No entanto, com o COVID-19, tudo mudou. No ano passado, foi o primeiro Natal que José passou longo dos seus, mas a saudade foi amenizada graças aos telefonemas que a equipa hospitalar ajudava a fazer.

Ao nosso jornal, confidencia que, sente a falta do contacto familiar, sobretudo após a morte do seu pai… “A partir da sua morte, comecei a sentir-me mais fechado, mais isolado, e todas as pessoas que trabalham aqui diariamente, completam a minha vida, completa-me muito, por isso não vai ser difícil de passar o Natal aqui no Fernando Pessoa”.

> Mária do Céu

Maria do Céu, é licenciada em turismo e trabalhava na área, mas deixou o seu emprego para se dedicar ao próximo. Vive em Gondomar e atualmente, é animadora do Hospital Fernando Pessoa.

Recorda-se da primeira noite de natal que passou a trabalhar, “Lembro-me bem desse dia, de ter chorado ao sair de casa, porque estava com a minha família e tive que os deixar, mas depois, ao entrar pela porta principal do hospital, passou tudo. Porque quando trabalhamos com gosto e quando amamos aquilo que fazemos, eu falo por mim, não custa…”

A animadora, juntamente com a sua equipa composta por Bianca Oliveira e Sara Nunes, são as principais responsáveis por trazer vida aos corredores deste hospital, principalmente nesta época festiva. É no amor que baseia o seu trabalho diário. Maria explica que, alguns dos seus doentes, não sabem o que é receber um carinho por parte dos seus familiares. É uma realidade que para a profissional é impensável, daí que, o que mais gosta no que faz, é a possibilidade de dar um abraço, um carinho, um beijo, ou simplesmente arrancar um sorriso daqueles que mais sofrem. “O mais importante é dar”. Hoje, é uma profissional realizada, por saber que muda diariamente a vida destas pessoas.

Maria explica que, alguns dos seus doentes, não sabem o que é receber um carinho por parte dos seus familiares. É uma realidade que para a profissional é impensável

É da responsabilidade dos profissionais como a Maria do Céu de deixar antecipadamente tudo planeado para que este dia seja ainda mais especial. Para além das video chamadas que começaram a ser feitas no ano passado, estes utentes, ao contrário do que aconteceu no Natal de 2020, cada Unidade terá a sua própria festa, dado que as equipas dos profissionais estão a trabalhar em espelho. “Se fosse um ano normal, viria cá a tuna da Universidade Fernando Pessoa, e um grupo externo convidado, porque a intenção é proporcionar-lhes um ambiente normal”, mas por conta da pandemia, isso não será possível.

Maria explica que todos os utentes que podem, participam na preparação do Natal: “Juntamente com eles, conseguimos também fazer as lembrançinhas e depois fazemos uma troca de prendas, juntamente com os profissionais”.

Quanto à ementa, este é um dia atípico, a animadora explica que, tudo é tratado com o olhar atento da nutricionista responsável: “Juntamente com a nutricionista Cintia Reis, fazemos um lanche diferente, com leite creme, bolo rei, pão de ló… fazemos uma mesa toda bonita, para que eles não sintam tanto, a falta da família”. 

> Silvia Ribeiro

Silvia Ribeiro, é a coordenadora da enfermagem das Unidades dos cuidados continuados e da Unidade de Convalescença reabilitação e manutenção do Hospital Fernando Pessoa.

Ao nosso jornal, começa logo por referir que o dia 24, é particularmente um dia especial, é um dia onde o espírito natalício invade, sem piedade, estas Unidades Hospitalares, “Nós enquanto instituição não podíamos deixar passar este dia em branco e não o comemorar, porque estes doentes também o merecem e é nesse sentido, que preparamos algumas atividades, especialmente realizadas e pensadas para que eles não sintam que é um dia igual a todos os outros”.

A Coordenadora explica que, este dia obriga a uma reestruturação interna, sobretudo na rotação do serviço, dado que, este ano sentiram um aumento do número de pessoas internadas: “Se, em anos anteriores, nós ficávamos com 50 doentes, tínhamos menos profissionais, ao ficar com as três unidades, mais a Unidade Privada temos que manter os recursos humanos adequados para que os doentes não sejam privados de quaisquer cuidados. Isto implica obrigatoriamente, que mais profissionais deixem as suas casas para passarem o natal a cuidar dos nossos doentes”.

“Claro que é um momento difícil, porque é uma nostalgia, mas nós deixamos os nossos, para cuidar dos outros. Falamos de profissionais que têm filhos, pais, irmãos… é um desapegar, mas no sentido de obrigação de dar ao próximo. Porque apesar de sermos remunerados para tal, inevitavelmente, há aqui sentimentos, sobretudo nesta altura do ano. No entanto, estamos conscientes que alguém tem que vir trabalhar”, explica a profissional de enfermagem.

Quanto à dinâmica de distribuição de horários, revela-nos que é feito de forma democrática, ou seja, cada profissional, dentro da sua equipa, consegue escolher o turno que melhor se enquadra na sua dinâmica familiar, “Eles próprios decidiram os turnos e não foi difícil de arranjar pessoas para o turno do dia de 24”. Para Silvia, não há dúvida que o que prevalece, é o espirito de missão e nesse sentido “Cada profissional na sua consciência voluntariou-se para realizar a noite”.

Consciente de que nada substitui a família a estes doentes, diz de forma aliviada que de tudo o fazem para que, de alguma forma, eles sintam o sabor do Natal.

Antes de terminar, Silvia recorda ainda, a dureza do Natal do ano de 2020 e respira de ‘alivio’, por saber que este Natal será mais acolhedor: “A realidade do ano passado foi muito dura para os profissionais de saúde e para toda a comunidade. Nós estávamos cá, sobretudo em contacto direto e foi um ano muito duro para a equipa. Sobretudo, porque tivemos muitas pessoas em isolamento, mas nunca fechamos as portas. Quem cá esteve deu o seu máximo todos os dias. Agora, apesar da situação pandémica ter-se novamente vindo a agravar, podemos dizer que ainda não o sentimos, na medida que, não temos profissionais em isolamento, e se eventualmente tivermos será muito pontual. Porque em termos de proteção, a vacinação ajudou-nos muito. Não sendo o único meio, mas de facto, tem vindo a ajudar e creio que, a grande maioria dos profissionais também está consciencializado da importância da higienização e da proteção individual”. 

> Bruno Soares

Bruno Soares, Membro do Conselho de Gestão, sobre esta época do ano diz que esta instituição tem “Sempre uma parte humana muito presente”, daí a importância para o executivo comemorar junto dos doentes esta quadra: “No natal, o Hospital organiza sempre atividades relacionadas com a época. Temos sempre uma ligação muito próxima com a parte religiosa, convidamos sempre aqui a Paróquia de Gondomar ou até mesmo os Capuchinhos, para fazerem visitas aos utentes que, sintam essa necessidade e que queiram, ainda nessa linha, temos também um espaço religioso, dedicado para celebrar essas festividades. Em anos anteriores, assinalávamos sempre com a celebração de uma missa. Este ano, devido às limitações impostas, ainda não vamos conseguir realizá-la”.

O responsável sublinha ainda que, a administração, juntamente com a direção clínica e a direção de enfermagem, faz questão, todos os anos de distribuir uma lembrança a todos os utentes. O próprio explica que, é importante na sua perspetiva demonstrar esse carinho e é nessa linha que nos revela que, há a tradição de visitar todos os doentes que estão internados, “É importante demostrar esta proximidade, esse afeto” e que eles percebam que estão em comunidade e que não estão sozinhos, “Isso é o mais importante”.

Bruno revela ainda que, com o intuito de trazer mais conforto neste dia, a administração autorizou visitas aos familiares dos utentes em períodos diferentes, não se verificando qualquer restrição de horários, respeitando todas as normas impostas pela DGS. Para além disso, os pacientes também terão a possibilidade de ir a casa, sendo que a instituição irá disponibilizar as ajudas técnicas necessárias para que os utentes possam usufruir de um Natal em condições junto aos seus: “Eles precisam de recuperar as forças junto daqueles que mais gostam, porque já estão há muito tempo privados do seu cantinho, do cheiro da sua própria casa, do mimo da família que, por muito que se possa transmitir nas visitas, casa é casa, e o sentimento de casa, muitas das vezes, para os pacientes que estão durante muitos anos institucionalizados, faz toda a diferença. Tudo isto é fonte de energia para que depois eles possam voltar quase reabilitados destas festividades”.

“A nossa missão, não é só curar a parte física, mas também curar a alma”

“A nossa missão, não é só curar a parte física, mas também curar a alma, assim consideramos que estes dois momentos, são muito importantes, porque são pesados, carregados de sentimentos, carregados de lembranças e nesse sentido, nós devemos ter este papel de continuar a prover esta ligação. É uma obrigação. Portanto a prestação de cuidados vai até a este ponto”, completa.

Quanto à sua equipa de profissionais sublinha que, nestes dez anos nunca tiveram problemas em arranjar pessoas que quisessem abdicar a sua noite para ajudar quem mais precisa:“Somos uma equipa, como o próprio nome indica. Normalmente, estes horários são rotativos, existem outras pessoas que, por tarefa ou por coincidência, por vezes trabalham sempre nesta data, mas todos temos essa consciência e tentamos distribuir um pouco a possibilidade de todos poderem estar com os seus familiares. Mesmo com o crescimento de pacientes que sentimos, essa nunca foi uma questão que se levantou”.

Sobre esta época garante o seguinte: “Tudo aquilo que nós preparamos enquanto dinâmica hospitalar tem que, obrigatoriamente, cumprir as orientações da DGS. Todos os pormenores serão articulados com as famílias e asseguramos que iremos minimizar tudo o que tenha impacto a nível financeiro. Portanto, o que nos interessa realmente é que as pessoas possam usufruir deste mimo e deste carinho, que é partilhar estas datas com as suas famílias”.

O responsável antes de terminar, deixa um aviso que, nestas festividades, o Hospital terá os seus serviços a funcionar normalmente, apenas algumas consultas já programas serão reajustadas para terminar às 16h\17h.

“Estou certo que iremos fazer a diferença e que Gondomar, pode-se orgulhar de ter um Hospital desta dimensão e com esta qualidade”

A finalizar, Bruno fez questão de deixar a seguinte mensagem: “Para nós, enquanto conselho de Gestão do Hospital, estamos muito satisfeitos com as nossas equipas. Graças a eles, conseguimos prestar estes cuidados de uma forma diferenciada, e com uma ligação muito próxima à comunidade. Estou certo que iremos fazer a diferença e que Gondomar, pode-se orgulhar de ter um Hospital desta dimensão e com esta qualidade. Como é óbvio, termino desejando um Feliz Natal a todos”.

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