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Terça-feira, Janeiro 31, 2023

ANDREIA SANTOS: “Na zona Norte, todas as propostas que tive, foram inferiores ao Águeda. Para não falar da dimensão que este clube tem e a prova disso é até ser uma referência no panorama nacional do atletismo”

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Desde muito nova que descobriu a sua paixão estava no desporto, proveniente de família mineira, Andreia Santos, tem 36 anos e já conta no seu currículo com várias conquistas, sendo as mais recentes dois títulos europeus. Hoje, a atleta conta com vários títulos nacionais e europeus.

Como é que começou todo o seu percurso no mundo do atletismo?

O meu percurso no atletismo começou quando tinha 10 anos, no corta mato da escola, onde ganhei a minha primeira prova. A minha segunda prova foi na minha freguesia, na altura, vivia em Valongo, onde nasci e fui criada. Depois fui à distrital e fiquei em terceiro. Foi a partir daí que começou realmente a minha aventura, porque até então, praticava hóquei. Entretanto, tive que escolher entre ambas as modalidades e escolhi o atletismo.

Nessa fase de decisão, teve alguém que a ajudou a decidir ou teve alguma referência?

Não. Não tive. Simplesmente escolhi o atletismo porque na altura, não havia equipas de hóquei feminino em Valongo, então tinha que praticar com os rapazes. Apesar de gostar da modalidade e de saber que jogava bem, percebi que, não teria ali muito futuro. Então, optei pelo atletismo porque realmente vi que podia ter esse futuro. Posteriormente, corri pelo DM (clube de atletismo de Valongo) até aos 14 anos, entretanto o clube acabou. Na altura, eles entregavam os melhores atletas ao Porto, na altura, eu estava na lista para ir, mas acabei por não aceitar. Isto porque, como a minha irmã corria comigo e eu já estava habituada a treinar com ela, e como ela não podia ir, eu também não fui. Assim fomos para o Luz e Vida Gondomarense, corri com eles até aos meus 19 anos, fiz um europeu, fiz um mundial, bati o recorde nacional… ganhei vários títulos de 800 e 1500 metros, ganhei ainda o olímpico jovem. Entretanto, aos 19 anos casei e estive cinco anos parada. Tive a minha filha mais velha que vai comemorar agora 14 anos e depois ao fim desses cinco anos, o ‘bichinho’ do atletismo voltou. Comecei novamente a treinar.

Quando voltei, decidi treinar com o PinhalNovense, um clube de Setúbal. Corri com eles três meses e consegui bater o recorde regional aos 5 mil metros. Passado esse tempo, o JOMA- Juventude Operária Monte de Abraão, um clube de Sintra, foi buscar-me e permaneci por lá cinco épocas.

Tendo em conta os cinco anos que esteve parada, foi difícil regressar à pista e obter resultados?

Não é fácil voltar, porque depois aparecem as lesões, entre outras coisas… isto é como um sacrifício, mas é nosso. Não há ninguém que o faça por nós. Então voltar, treinar diariamente e ver que antes estávamos num nível alto e depois vemos que estamos a perder com aquelas atletas que ganhávamos.. temos que natural- mente saber perder e abdicar de muita coisa. Não vamos a festas, perdemos momentos importantes com a família. Por exemplo, na semana passada, tive pouco tempo com a minha família, porque tive competições… muitas vezes tenho que prescindir dos meus fins de semana. Para além disso, também tenho restrições com a minha alimentação. Temos que ter regras. O treino é fundamental, mas o descanso também o é, e isso, é uma regalia que não tenho.

O que é que mais lhe custa abdicar?

Quanto à alimentação, o nosso treinador é muito tranquilo. Ele diz que temos que nos alimentar bem, mas por exemplo, não podemos comer muitas batatas fritas, que eu adoro, não posso comer muita francesinhas, nem cachorros, nada dessas coisas, como também doces, apesar de não ser muito fã, o que é bom, porque se não, sofria ainda mais (risos). Mas diria que, o que mais me custa é perder algum tempo com a minha família.

A retaguarda ajuda?

Ajuda muito. Eu sou quem sou pelo meu companheiro, pelo o Bruno. Se não fosse ele, não teria hipóteses, dado que tenho três filhos… Ele é uma pessoa muito presente na minha vida.

É possível viver do atletismo em Portugal?

Não (risos), é impossível.

O que recebe não é suficiente para conseguir viver desta modalidade, mesmo com este nível de resultados?

Não. Não dá. Eu faço limpezas. De manhã treino e à tarde faço limpezas.

Não há apoios da Federação ou do próprio clube?

O clube dá-me um subsídio, mas não é o suficiente. Entre sapatilhas, massagens -porque tenho que as fazer todas as semanas… o meu problema é que estou longe do meu clube. Porque o clube é de Águeda e eu vivo aqui em Gondomar. Se estivesse mais perto do clube, tinha tudo… tinha gabinete médico… tudo… o problema é que estou longe, e nesse sentido, eu não consigo usufruir das condições que o clube dá.

A Federação não ajuda?

Não, não ajuda com nada. Eles apenas atribuem uma bolsa aos atletas que vão aos jogos olímpicos. De resto, não usufruímos de mais nada. E mesmo essa bolsa é atribuída por um determinado tempo, não é sempre.

Sendo natural de Valongo, reside agora em São Pedro da Cova e nesse sentido, questiono-a o porquê, de treinar num clube de Águeda?

Aqui na zona Norte, todas as propostas que tive, foram inferiores ao Águeda. Para não falar da dimensão que este clube tem e a prova disso é até ser uma referência no panorama nacional do atletismo. Portanto, eu estou num dos melhores clubes, além disso sinto-me acarinhada nesta casa. Eles são fantásticos. Entre o treinador, o Presidente da secção de atletismo… todos eles estão sempre muito presentes e ajudam-nos imenso.

Se tivesse uma proposta de um clube mais próximo de Gondomar ou do Porto, aceitaria?

Sim, claro que sim. Estaria muito mais perto de casa, para não falar que teria mais condições, certamente. Mas eu estou bem no Águeda, não sei se trocaria, só por ser um clube daqui.

A distância não é propriamente um factor que a impeça de conseguir excelentes resultados…

Sim, sim… porque o meu treinador é dos melhores treinadores a nível nacional. Aliás o professor João Campos que era treinador da Fernanda Ribeiro -campeã olímpica, mundial e nacional-, agora, também está no Águeda, como treinador.

A quem é que deve um agradecimento por estes dois títulos que conquistou recentemente, quem é que foi verdadeiramente importante para ter conseguido lá chegar?

Em primeiro lugar o meu companheiro, o Bruno. Ele foi incansável para que tudo isto acontecesse. Depois, o meu treinador, o Hugo Pinheiro, o Presidente da Secção de Atletismo do Águeda, o Presidente do Clube… a toda a estrutura deste clube, porque são fantásticos. Não tenho preocupações com nada, eu digo que quero ir à competição ‘x’ e eles inscrevem-me. Eles organizam tudo e ape- nas comunicam-me os horários. Não tenho preocupações com nenhuma logística, ao contrário de outras colegas que estão noutros clubes. Por isso, é que balanço um pouco em trocar de clube, porque vejo ali uma estabilidade muito grande. Tanto que, na altura, quando falei para irmos aos campeonatos da Europa, eles ficaram “a olhar” para mim e perguntaram se queria mesmo ir… respondi que sim e até disse que queria levar comigo a Carla Martinhos, que é outra atleta nossa e que também foi campeã. Ela quis ir aos 3 000 metros e eu tive que ir ao Cross, tanto que, a minha medalha nesta vertente da modalidade não seria esperada, porque pensava “Vou lá chegar e vou ser abalroada” e fui, mas depois, houve um momento na prova em que consegui endireitar-me e conquistar o título.

Quando partiu para essa prova, o que era para si um bom resultado?

Chegar ao fim (Risos). Eu sempre pensei que gostava de chegar pelo menos ao pódio, tanto que não me importava de ficar em terceiro, para mim já era um grande resultado. Isto porque, não sou nada boa em corta-mato. Nada mesmo. Aliás, antigamente fazia 800 a 1500 metros, eram provas rápidas. Agora é que subi as distâncias, porque começamos a ficar com menos velocidade, dado que a idade não perdoa (risos). Assim, neste momento, faço de 10 km e meia maratona, e chega.

Para terminarmos, o que é que tem em mente para o ano de 2022? Começou de uma forma grandiosa, mas o que é que tem na sua agenda a nível de provas que ambiciona participar?

A nível individual está concluído. Já não vou participar em mais nenhuma prova. Até ao final do ano, terei algumas provas, mas são objetivos para o clube. Esta conquista pessoal, foi um à parte… uma aventura que eu disse que queria e eles apoiaram a 100% e está aqui nestas medalhas o resultado.■

> Andreia Santos, acompanhada pelo vereador do desporto, José Fernando Moreira

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