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Segunda-feira, Julho 4, 2022

25 de abril “O Povo é quem mais ordena”

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O Povo unido jamais será vencido. Esta é uma das frases que caracteriza e que mais ecoava nas ruas portuguesas em plena revolução de abril de 1974. Um momento importante na história da política portuguesa. Um marco que, após 48 anos comemoramos com a intenção de lembrar a importância de um poder democrático. Nesse dia caracterizado pela revolução dos cravos, as cidades enchiam-se de gentes que outrora enfrentavam o poder de uma ditadura. O poder do Estado Novo que coartava a liberdade de expressão.

> Primeiras eleições para a Junta de Freguesia, pós 25 de abril, em São Pedro da Cova (1976)\ Foto: Serafim Gesta “Mazola”

Anos de medo e ditadura, iniciados com um golpe militar que culminou na eleição presidencial de António Óscar Carmona, em 1928. Foi durante o seu mandato, apelidado de “Ditadura Nacional”, que foi escrita a Constituição de 1933, que instituía um novo regime autoritário-ditatorial de inspiração fascista – “O Estado Novo”.

Mais tarde, António Salazar assume o poder e controla a nação apenas com um único partido chamado “União Nacional”. Salazar manteve-se na cadeira presidencial até 1968, data em que lhe foi retirado o poder por incapacidade. No seguimento do seu afastamento, assume a posição Marcello Caetano, que foi quem dirigiu o país até à Revolução dos Cravos.

No dia anterior à Revolução dos Cravos, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instala um posto de comando do movimento no quartel da Pontinha, em Lisboa. O primeiro sinal da revolução é dado com a ajuda da música E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho. Após este sinal prévio, foi durante a madrugada de 1974 que, ao som da voz de Zeca Afonso, com Grândola, Vila Morena, transmitida na Rádio Renascença, o país acordara com a certeza que a Revolução de Abril, estava a acontecer. Uma ação encabeçada por lideres de um movimento militar, o Movimento das Forças Armadas (MFA).

Um movimento que revolucionou todo o espectro nacional do país e instaurou a democracia. Há 48 anos que vivemos com a liberdade de votar, de falar, de pensar e de sonhar. Há 48 anos que foi devolvido o verdadeiro poder de cada cidadão- a liberdade de expressão. ■

> José Ricardo

Pelas ruas da capital, mais precisamente no Terreiro do Paço, em 1974, estava José Ricardo, que com 23 anos, presenciou o momento em que, Marcello Caetano rendeu-se às forças armadas portuguesas.

O que é que se lembra daquela época?

Daquela época, do 25 de abril tenho na minha memórias duas partes, a parte emocional e a parte, digamos assim, mais racional, de pensar quais foram os acontecimentos anteriores que levaram à revolução de 1974. Na altura, era militar, mas estava colocado num quartel em Lisboa, no Campo Grande, que tinha pouca ação militar. Apesar de fazer parte do segundo grupo de companhias da administração militar, saiu de lá uma companhia que ocupou a televisão, comandado pelo capitão Bento que eu conhecia, porque ele passava na minha repartição, que era a direção de serviço de intendência. Como estava numa estrutura de administração nem arma tinha, portanto não poderia participar no 25 de abril. Agora, eu sabia que se estava a preparar esse momento.

Qual era o sentimento que se vivia entre os militares? Naquela altura com a PIDE, tinham que ter mais cuidado com a informação. Como é que ela era passada?

As pessoas que tinham informação, eram as que estavam organizadas. Eu estava organizado num movimento católico, era a juventude operária católica, que também tinha militares e portanto, a informação circulava. Por exemplo, quem é que sabia que havia censura? Eram os jornalistas e no movimento tínhamos um jornal e os textos tinham que passar por um exame prévio, porque na altura não se chamava censura. Lembro-me que eram depois cortadas a azul, nem sequer era vermelho, era a lápis azul. Eu conhecia a censura, porque levava as provas do nosso jornal aos coronéis para esse exame. Depois, tínhamos que ajustar os textos. Mesmo sendo uma organização católica, também nos cortavam temas que apresentávamos nos jornais. Sobretudo aquelas notícias que falavam das fábrica e dos problemas de trabalhadores. Tínhamos que ter muito cuidado da forma como eram escritos e mesmo assim havia muitos lápis azuis em cima. Tínhamos de conseguir consertar isso, para que o jornal pudesse ser impresso. Assim, sabia perfeitamente o que era o exame prévio e como é evidente, tinha acesso a informação que a maioria dos portugueses não tinha, porque não vinha na imprensa. Por exemplo, greves. Em Portugal pouco se sabia que havia greves, mas como tínhamos militantes operários em todo o país, nós sabíamos onde elas aconteciam, e fazíamos a informação para todos os militantes daquilo que acontecia. Informação que não era pública. Só tinha acesso à informação quem estava organizado, por- que como é evidente, nós não tínhamos autorização de tornar pública essa informação. Isto para dizer que, havia muitos milhares de portugueses que tinham informação do que acontecia realmente no nosso país. Isso acabou por originar o 25 de abril.

Não havia o medo pela PIDE?

Eles não se metiam com a tropa. Aliás, estou convencido que o 25 de abril aconteceu por causa de uma mudança cultural que houve, desencadeado pelas lutas académicas. Todos aqueles jovens que foram apanhados como responsáveis pelos movimentos, foi-lhes cortada a possibilidade de continuar a estudar e foram recrutados, porque quando se estava a fazer um curso superior, podíamos pedir o atraso para a entrada no serviço militar. Foi a pior coisa que o regime podia ter feito. Porque, essas pessoas que tinham consciência, contaminaram as ideias dos próprios oficiais, que eram formados na academia militar. Portanto, isso teve muita influência no 25 de Abril, não tenho dúvida nenhuma. Dá-se ali um caldo de revolta, que leva a uma mudança de atitude.

Sentia-se o medo entre os militares, por fazer frente a um poder político?

Não… Medo era da PIDE, de ser descoberto, isso é evidente. Mas medo não, eu pessoalmente não. No sítio onde trabalhava, na direção do serviço de intendência, os meus colegas telefonaram a seguir ao 25 de Abril, os que estavam de folga, a dar os parabéns e a dizer que devia estar muito feliz. Eu que nunca fiz grande propaganda, nada. Quando muito procurava pôr as pessoas a refletir sobre os seus problemas, não dava receitas. Na altura, chamavam-me Zeca Afonso, porque quando estava a trabalhar, na minha secretária, cantava as músicas do Zeca Afonso.

Estavam à espera de uma revolução pacífica?

Quando se parte para uma guerra não se sabe o que vai acontecer. Na altura, participei como observador no 25 de Abril. Estive no Largo do Carmo, estive no Terreiro do Paço, estive em cima do carro de combate do meu amigo que estava com o Salgueiro Maia. Mas eu não estava dentro do carro de combate, portanto se houvesse algum problema quem ia ser preso era ele, não eu. Eu era igual a qualquer um dos populares que ali estava. Se aquilo tivesse corrido mal e se tivesse dado para um confronto militar, centenas de pessoas que ali estavam poderiam morrer. A praça estava à pinha. As árvores estavam repletas de pessoas.

Como é que é para si olhar para trás, principalmente quando fala com as gerações mais novas que não presenciaram e saber que esteve presente num dos maiores atos históricos que Portugal tem na sua história recente? É daqueles momentos que lhe marcou para a vida?

Não tenho dúvida, todos os que viveram o 25 de Abril, principalmente para os que tiveram naquele espaço onde tudo aconteceu. Eu assisti a saída do Marcello Caetano. Mas a maioria não assistiu. Isso é uma coisa que é marcante.

> Serafim Gesta “Mazola”

Serafim Gesta ‘’Mazola’’, é um nítido apaixonado pela história da sua terra, São Pedro da Cova. Nasceu em 1936 e aos 38 anos, declamava em pleno dia de Revolução poemas, pelas ruas da sua freguesia alusivos à revolução. Historiador e jornalista, descreve-se como um seguidor fiel à democracia, e conta-nos o testemunho que ficou na sua memória daquela época vivida.

Como é que era a freguesia de São Pedro da Cova antes da revolução?

Eu nasci em 1936, num período agitado da vida portuguesa, neste caso em São Pedro da Cova. Nessa altura, todo o domínio social, económico, politico e até a Igreja, tudo, era ligado ao Estado Novo. Assim todos os indivíduos que tivessem uma inclinação ideológica que não fossem de acordo com estes parâmetros, era considerado comunista e perseguido. São Pedro da Cova, era uma Terra toda ela entranhada nas minas, sendo que apenas uma pequena parte trabalhava nos campos agrícolas e em pequenos ofícios.

Politicamente falando, todos podiam votar?

Não havia eleições. As pessoas eram colocadas no poder administrativo e judicial sob a orientação das minas, onde todo o fascismo se concentrava. Todo o panorama politico antes do 25 de abril, era dominado pelas minas. Até que chegamos a 1968 e em vez da União Nacional, foi instituído Ação Nacional Popular, que era a mesma coisa. Assim, resolveram realizar os cadernos eleitorais para dar um aspeto mais moderno, no entanto, nesses cadernos, que continha o registo de todos os eleitores, apenas uma certa camada da população podia votar. As mulheres não tinha acesso ao voto. Nesses eleições de 68, o voto era entregue à entrada da urna, por isso era uma fantochada. Mas tinham que ir votar, porque se não eles viam no caderno eleitoral que o indivíduo faltou ao voto.

Mas ainda sobre a noite de 24 de abril, o Mazola lembra-se do momento em que houve na rádio que estava a acontecer uma Revolução?

Lembro-me! Estava precisamente a fazer a barba (risos), era por volta das 7h, porque estava a preparar-me para ir para o Porto, e ouço aquilo…

O que é que pensou? Qual foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça?

Eu era do MDP / CDE (Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral), era um homem fiel à democracia. Sempre fui. Era até um indivíduo muito olhado de lado e perdia por falar de mais. Tive muitos problemas.

> Eleições presidenciais democráticas, de 1975\ 
Foto: Serafim Gesta “Mazola”

Alguma vez teve problemas com a PIDE?

Com a PIDE não, mas sim com as forças da Câmara. Eles chegaram a chamar-me e insultavam-me. Às vezes por crónicas que fazíamos. Eles insultavam. Lembro-me de descer as escadas da Câmara revoltado, a chorar, porque eles diziam-me coisas que não se dizia a ninguém. Mas nunca fui preso.

Antes de haver a revolução e ouvir na rádio que Portugal estava livre da ditadura, alguma vez pensou que isto poderia acontecer?

Não, nunca pensei. Porque aqui, as pessoas iam para missa, para serem abençoados e quem não ia, lia livros. O que aqui nós sabíamos era que o estado prendiam as pessoas, como aconteceu aqui nas Minas. Mas uma coisa tão assombrosa, expansiva e gigante como o 25 de abril, nós não tínhamos a ideia de que isto poderia acontecer. De maneira que, todos esses indivíduos intelectuais que eram do MDP/CDE, arrastaram-me para isso, quando visitava o Hospital Militar e o Quartel General, e quando dá-se o 25 de abril, eles sondam-me para eu organizar aqui em S.P.C. um movimento que canalizasse mais jovens com o intuito de formar uma Comissão de Dinamização Cultural, integrada na quinta divisão das forças armadas. Assim o fiz e criamos o Movimento Democrático de São Pedro da Cova. O seu objetivo passava por promover a união das forças de base que eram os moradores, isto através da formação de comissões e associações de moradores- Silveirinhhos, Beloi, Tardariz, Belo Horizonte, entre outras. Esse povo era o condutor direto e sem protocolos da revolução. Eles tinham que saber os seus problemas (água, luz…) e levá-los às autoridades. Assim foi. São Pedro da Cova era uma lição a nível do poder popular.

Paralelamente a isto, vocês tinham o problema do poder da Junta…

Independentemente desse poder popular, há que sanear todo o aparelho gestor, quer a nível de Juntas, de regedores e de indivíduos que ainda estivessem agregados a associações. Assim o fizemos, mas foi um trabalho muito difícil, porque muitas pessoas não entendiam que antes do 25 dia abril, não havia nenhuma nomeação que fosse democrática, era lógico… mas como explicar isso ao povo? Foi muito difícil.

> Autocolante cedido por Serafim Gesta “Mazola”

Eles não sairam facilmente?

Não. Eles não queriam sair. Tivemos que tocar o sino a rebate e eles tiveram que se render. Mas isto já foi muito depois do 25 de abril. Deram-nos muitas dores de cabeça.

O Mazola estava presente no momento em que eles saíram?

Sim. Mas estava todo borrado de medo.

Porquê?

Porque foi ali na sede da Junta e eu estava para ver o momento em que eles iam deitar-me da janela a baixo, principalmente por causa do Partido que representava. Comigo estavam 12 ou 14 pessoas a fazer-lhes frente, mas para mim íamos levar todos. Era a minha mulher a chorar na rua, a ver quando é que me atiravam da janela… olha, não queiras saber!

> Documentos cedidos por Serafim Gesta “Mazola”

O Mazola é um homem que gosta muito de estudar política e como presenciou todos estes momentos, pergunto-lhe o seguinte: Hoje, completamos mais dias em democracia, do que tivemos em ditadura, questiono-o assim, se na sua perspetiva, o que é que sente que mudou ao longo destes anos?

Mudou a liberdade. Hoje temos liberdade de associação, temos liberdade de nos comunicar, de nos expressar! Apesar de que às vezes nem sempre é boa, por causa do ‘linguajar’ que ouço dos mais novos ao sair da escola… isto é uma negação da liberdade de expressão que nasce do 25 de abril, eu repudio isso! Para mim aquilo nem é brincadeira. Mas para além disso, como poeta, aproveitava as festas de SPC e nas marchas que escrevia, fazia sempre alusão ao 25 de abril e ao ambiente próprio de uma democracia. Ainda hoje o faço, que é para ver se isto não adormece.

Como estava a dizer-me, antes do 25 de abril, votar não era um direito que todos podiam usufruir, com a revolução conquistamos este direito, só que hoje, vemos as taxas de abstenção que são muito altas, o que é que pensa disso?

Eu só votei porque era chefe de família. Mas nem todos o podiam, principalmente, aqueles que eram considerados as “ovelhas ranhosas”. Os jovens de hoje, ideologicamente, não ligam. E, em relação aos grandes problemas que estamos a viver na Europa, estão-se nas tintas. O que eles querem é uma boa vida. É por isto que é preciso comemorar o 25 de abril, focando naquilo que eles nos deu, que é o mais grandioso, a liberdade de expressão, de associação e a liberdade de sonhar, porque muitas vezes, quando ouço os discursos de vários quadrantes políticos, cada um defende a sua ideologia. Devíamos falar apenas do aspeto da liberdade, porque, sei muito bem o que é ter um vizinho a ouvir e a ver o que faço, ou falo, se ouço a rádio, ou até que livro leio, para depois ir dizer à outra parte que eu era um indivíduo perigoso – apesar de não ser perigoso, mas era como as coisas funcionavam. Recordo-me de uma vez, ao falar com um indivíduo de um quadro de autoridade da Câmara de Gondomar este confessou-me o seguinte: “Mazola, vou ser franco contigo, eu era da Policia Municipal e um dia recebi ordem para te ir buscar a SPC. Mas eu não fui”. Isso não evitou que eu tives- se sido chamado duas vezes à Câmara… ouvi coisas na minha cara, que nem me apetece falar. Tudo porque eu denunciava aspetos maus da vida em SPC.

Antes de terminar, trouxe aqui um símbolo que foi o resultado da Liberdade de Expressão. Após o 25 de abril, criamos o jornal “Movimento Democrático”, na capa podemos até ver um cravo, que é o sinal da vitória e o jornal “O Diálogo” que é meu. Tinha a vertente de difundir os problemas e reclamar outros. Aqui no “Diálogo” tem a fotografia de um anti-fascista que foi um homem que passou várias vezes pela prisão por denúncia dos bufos das Minas de São Pedro da Cova. Ele sofreu muito. Estas são edições únicas, porque como as pessoas não sabiam ler, não tínhamos dinheiro para fazer mais edições. ■

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