A quem pertence o Monte Crasto?

Com 194 metros de altitude e uma fortaleza natural de penedos, o Monte Crasto é um dos pontos mais elevados de Gondomar e assume-se como ex-líbris do concelho. O terreno foi atribuído à Confraria de Santo Isidoro e Nossa Senhora da Lapa e a propriedade é reconhecida pela Câmara de Gondomar, contudo, com o passar dos anos surgem dúvidas sobre a legitimidade dos proprietários do terreno. O Vivacidade ouviu todos os intervenientes desta história: as autarquias, a Irmandade dona de um terreno semifechado que agora abre ao público e quem acredita que o Crasto nunca pertenceu à Confraria.

Monte Crasto, S. Cosme (Gondomar) / Foto: Pedro Santos Ferreira

Monte Crasto, S. Cosme (Gondomar) / Foto: Pedro Santos Ferreira

O Monte Crasto, considerado por muitos o ex-líbris da cidade de Gondomar, vai abrir ao público ainda durante o mês de junho, garantia dada ao Vivacidade pelo presidente da Câmara Municipal, Marco Martins. Atual propriedade da Confraria de Santo Isidoro e Nossa Senhora da Lapa, reconhecida pelo município, o terreno nem sempre teve os mesmos donos e de décadas em décadas há quem questione a sua legitimidade. Durante vários anos, o espaço esteve fechado ao público e em alguns locais ficou abandonado. Numa fase em que a Confraria e a Câmara estabeleceram um protocolo para a abertura do espaço ao público e manutenção do mesmo, o Vivacidade foi tentar perceber de quem é afinal o monte e saber um pouco da história do Crasto de Gondomar.

“O Monte Crasto virou uma quinta privada?”

“Aquele património é da freguesia! A Confraria registou tudo no nome deles: a capela, o monte e as casas.” Maria Arminda Neves dos Santos foi professora em Gondomar durante 40 anos e dedicou-se à investigação de S. Cosme. Ao Vivacidade conta como está indignada e revoltada pela situação que considera “errada”. Na sua opinião, o Monte Crasto deveria pertencer à Junta de Freguesia de S. Cosme [atual União de Freguesias de Freguesias de Gondomar (São Cosme), Valbom e Jovim]. A professora aposentada dedica agora parte do seu tempo livre à investigação deste e de outros casos de Gondomar e dispõe de vários documentos que alegadamente suportam a sua teoria. “As memórias paroquiais de 1758 dizem que o terreno pertence à freguesia. Tenho um documento do Arquivo Distrital do Porto que diz que a doação de Salvador Francisco [anterior proprietário do Monte Crasto] foi feita à capela. A parte do terreno que a Confraria diz que é deles foi dada à capela. Eles eram apenas zeladores”, explica.

/ Monte Crasto, Gondomar / Foto: Pedro Santos Ferreira

Monte Crasto: o ex-líbris de Gondomar
Situado em S. Cosme, o Monte Crasto constitui uma fortaleza natural num terreno elevado, com 194 metros de altitude e contornado por penedos sobre os quais assenta a capela de Santo Isidoro. O nome Crasto deriva do latim “castrum”, que significava castelo ou praça.No século XVIII surge a primeira documentação relativa ao Monte Crasto: o auto de doação feito por Salvador Francisco e Maria da Silva à capela de Santo Isidoro. Mais tarde, a Câmara Municipal de Gondomar desfez as dúvidas sobre a propriedade do Monte e reconheceu a Confraria de Santo Isidoro como proprietário do ex-líbris de Gondomar. / Foto: Pedro Santos Ferreira

A investigadora gondomarense não consegue perceber os últimos desenvolvimentos da questão, no que diz respeito ao protocolo estabelecido com o município. “A Câmara, por desconhecimento da situação, foi de encontro exatamente ao que a Confraria queria. A Confraria neste momento faz acordos com toda a gente. Todos os acordos são bons desde que o terreno seja deles”, refere Maria Arminda. “Tem pessoas à frente altamente espertalhonas”, acrescenta de seguida e questiona: “O Monte Crasto virou uma quinta privada?”

A professora contou ao Vivacidade que estudou a “história muito antiga do concelho” e que se foi envolvendo na história do Monte Crasto. Afirma também que enviou uma carta à Confraria e que fez inclusive queixa ao recente padre da paróquia, ao executivo de Valentim Loureiro e ao anterior Bispo do Porto, D. Manuel Clemente.

Em resposta à carta a Confraria referiu que “de dezenas em dezenas de anos aparece alguém a questionar a legitimidade” da posse da propriedade mas que a mesma pertence à Confraria. Arminda Santos não concorda. “A parte norte e oeste do monte estava registada como Dízima a Deus – que seria da freguesia – e eles registaram em nome deles. Eles têm direito a zelar. O documento diz que eles são zeladores”, refere. Com o protocolo com a Câmara, a professora diz que os proprietários foram “premiados” porque permanecem com o terreno em nome deles e ainda têm a manutenção gratuita.

Presidente da Junta coloca hipótese futura de ação judicial contra Confraria

“Penso que em tempos remotos, o Monte Crasto deveria ter pertencido ao erário público”, conta ao Vivacidade, José António Macedo, presidente da União de Freguesias de Gondomar (São Cosme), Valbom e Jovim. “Passou depois a privado, não se sabendo bem ao certo como, nem há registos sobre isso. No entanto, a Confraria de Santo Isidoro e Nossa Senhora da Lapa tomou conta daquilo e apropriou-se, através da cobertura do episcopado. Até prova em contrário são os legítimos proprietários”, continua o autarca. José Macedo diz não ter “comprovativo de que aquilo seja da União de Freguesias ou da cidade de Gondomar”. “No entanto andamos a fazer estudos e pesquisas no sentido de provar que aquilo, em determinada altura, passou para privado. Mas não está a ser fácil. Estamos a equacionar a hipótese de no futuro, com base nesses documentos, entrar com uma ação judicial”, remata.

, , , , , ,