Agostinho Oliveira: “Fui um dos agentes da expansão mundial do futebol português”

Entrevista Agostinho Oliveira - março 2016

Agostinho Oliveira coordena a formação do Gondomar SC / Foto: Pedro Santos Ferreira

Agostinho Oliveira, 69 anos, ex-selecionador nacional de futebol, tem na bagagem três títulos (1994, 1996, 1999) conquistados como treinador principal ao serviço das camadas jovens da Federação Portuguesa de Futebol. Ao Vivacidade, o técnico fala da sua carreira enquanto jogador do SC Braga e do percurso percorrido até à atualidade. Atualmente, é coordenador técnico da formação do Gondomar SC.

Ainda se lembra como começou a sua carreira como jogador? Foi por brincadeira de criança ou já tinha o objetivo de levar o futebol a sério?
Agostinho Oliveira (AO) – Iniciei de uma forma normal nas escolinhas do SC Braga. Através de uma observação técnica fui chamado para iniciar-me nas camadas jovens do clube que tinha os escalões de juvenis e juniores. Percorri todos os escalões até chegar à equipa sénior. Entretanto conclui o 7.º ano de escolaridade – atual 12.º ano – e surge o interesse da Académica. Fiz o exame de admissão à Faculdade de Direito de Coimbra e fiquei a jogar no clube. Fiquei dois anos por Coimbra.

Contudo, iria regressar a Braga, mais tarde…
AO – Acabei por transferir-me para a Faculdade de Letras de Coimbra. Estava dispensado da tropa desde que não reprovasse nenhum ano mas, em 1969, fomos todos para a tropa. Os estudantes universitários iam para os cursos de oficiais no Exército e é nesse período que regresso ao Braga. Fiquei então em Braga como oficial do Exército enquanto era também jogador de futebol.

Teve sempre que conciliar o futebol com outras atividades…
AO – Precisamente. Na altura o jogador tinha a sua importância e isso dava-nos alguma facilidade em ir aos treinos. Acabei por transferir-me para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde conclui a minha licenciatura em Filosofia. Na altura era a única forma de entrar na área do ensino pedagógico, que era o ramo que me interessava. Nesse período acabei por ser presidente do Sindicato dos Jogadores, em 1974, e, mais tarde, deixei de jogar no Braga, num processo pouco amigável. Acabei a carreira a dar aulas de Psicologia Genética na Escola do Magistério Primário, a formar professores.

A saída do Braga é consequência de uma situação de incumprimento salarial…
AO – Sim, vivíamos um período difícil porque não recebíamos há sete meses e não tínhamos condições para continuar a jogar. Saí do clube no ano em que comecei a dar aulas. Dez anos depois fui ao primeiro grande curso de formação de treinadores, em Lisboa. Éramos 163 formandos e foi aí que conheci os coordenadores do primeiro curso de treinadores em Portugal.

Quem estava nesse curso?
AO
– O Jesualdo [Ferreira] e o Carlos [Queiroz], entre outros. Quinze dias depois estava a ser convidado para diretor técnico do curso, quinze dias depois sou convidado pela Associação Futebol de Braga para diretor técnico e uma semana depois sou convidado para regressar ao SC Braga como coordenador da formação, uma década depois de abandonar o clube. Foi tudo muito rápido.

Esteve a coordenar a formação do Braga até 1989…
AO – E durante esse período fui também convidado a trabalhar para a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), onde estive 21 anos ligado à formação.

Considera que a sua experiência de jogador e a formação académica em Filosofia foram vantajosas para a sua carreira de treinador?
AO – Julgo foi um casamento perfeito.

A geração de treinadores que sai do primeiro curso realizado em Portugal mudou o futebol?
AO – Sem dúvida. Fui um dos agentes da expansão mundial do futebol português. Felizmente tive o prazer de apanhar esse barco.

Foi difícil implementar os novos métodos de treino?
AO – Tivemos que apostar na repetição de métodos de treino muito sistemáticos. Foi difícil implementarmos as nossas ideias porque havia uma diferença entre os processos trabalhados na Seleção Nacional e nos clubes.

Do Braga até à FPF o percurso surge com naturalidade?
AO – Posso dizer que sim. Em 1990, sou convidado para a FPF quando já rra o coordenador técnico da AF Braga.

Em 1994 e 1999 a seleção de sub-18 vence o Campeonato da Europa e a seleção sub-20 é campeã do mundo em 1989 e 1991. Estes resultados são fruto do trabalho feito nas associações distritais?
AO – Julgo que sim. Aqueles rapazes só podiam ser jogadores profissionais de futebol porque eram trabalhados ao pormenor. Chegamos a ser criticados por alguns jornalistas portugueses mas a verdade é que garantimos muitos êxitos desportivos.

Como treinador percebia que estava perante a “Geração de Ouro” do futebol português?
AO – Era nítida a qualidade daqueles atletas. Estamos a falar da geração de Rui Costa, Figo, Peixe, entre outros. O Peixe, por exemplo, era capaz de ser agressivo, preencher espaços e esticar o jogo a 30 ou 40 metros. Além disso, marcava golos.

“Por motivos óbvios e êxitos desportivos anteriores a FPF depositou confiança nas minhas capacidades”

Geriu internamente a seleção nacional AA no período de transição entre os selecionadores António Oliveira e Luiz Felipe Scolari, após o Mundial de 2002. Sentiu que era necessário iniciar uma nova geração?
AO – Estava na altura. Tive o privilégio de começar a lançar novos talentos que conhecia bem. Nesse período fiz cinco jogos como treinador principal e foi aí que comecei a preparar as entradas do Deco, Nuno Assis, Pedro Mendes, entre outros jogadores novos.

Foi a pessoa ideal para assumir essa transição?
AO – Por motivos óbvios e êxitos desportivos anteriores a FPF depositou confiança nas minhas capacidades.

Segue-se um período em que fica responsável pelo escalão sub-21 da seleção nacional. Na sua opinião, que importância tem esta equipa?
AO – É importantíssima. O nível de exigência do escalão sub-21 é muito elevado e, por isso, é importante estar presente nesta seleção.

Em 2006, levou Portugal ao Euro Sub-21, na Holanda. Que balanço faz dessa prova?
AO – Tivemos uma fase final má mas conseguimos um registo imbatível no apuramento. Estamos a falar de uma equipa composta por Quaresma, Nani, Manuel Fernandes, João Moutinho, Hugo Almeida, todos jogadores titulares da seleção AA.

Em 2008 regressa à seleção principal, num período pós-Scolari, com Carlos Queiroz ao leme da equipa. Como foi vivido o percurso até ao Mundial 2010 e a fase final da prova?
AO –Tivemos um apuramento difícil, mas fizemos uma boa fase de grupos na África do Sul. Nos oitavos de final sofremos um golo em fora de jogo com a equipa que viria a ser campeã do mundo, a Espanha. No entanto, acho que batemo-nos bem.

Após o Mundial volta a ser responsável por lançar uma nova geração de jogadores internacionais, após a saída do selecionador Carlos Queiroz. Foi uma transição difícil?
AO – O início da classificação para o Euro 2012 foi pouco tranquilo. O Queiroz saiu e gerou-se alguma instabilidade na equipa principal. Tivemos que nos adaptar às circunstâncias.

Mais tarde, assume o comando da seleção sub-23. Qual era o seu objetivo para este escalão?
AO – O objetivo era criar um celeiro para a equipa AA. Por vezes, nos sub-21 os jogadores não têm maturidade suficiente para chegar ao escalão AA. Infelizmente esse projeto não vingou.

É então que regressa ao Braga para liderar o projeto da equipa B…
AO – As equipas B já tinham sido criadas, em 1997, mas as associações distritais travaram esse projeto. A ideia foi reformulada e ressurgiu mais tarde.

Atualmente, é coordenador técnico do Gondomar SC. O que o motivou a integrar este desafio?
AO – Foi sobretudo o convite que me endereçaram. Sou conselheiro da Federação Chinesa de Futebol desde julho do ano passado e fui convidado para supervisionar este projeto. Os atletas chineses do Gondomar SC estão todos a jogar na seleção sub-19 da China e isto não colide com o projeto de formação do clube. Pelo contrário, julgo que o beneficia.

“Lembro-me de treinar com fatos treino remendados com adesivo”

Era difícil treinar em Portugal nas décadas de 60 e 70?
AO – Lembro-me de treinar com fatos treino remendados com adesivo. Os campos eram pelados e no inverno não podíamos treinar nos relvados naturais. Haviam sempre problemas porque não tínhamos grandes condições.

Qual foi o jogador mais difícil de marcar ao longo da sua carreira?
AO – Os jogadores da minha época eram feitos do sacrifício. Não existiam jogadores muito técnicos mas existiam craques como o Eusébio. Lembro-me de um jogo em que íamos defrontar o Benfica e calhou-me marcar o Eusébio, o treinador deu-me uma pastilha mas não me lembro daquele jogo [risos].

Há algum amigo que o tenha marcado no futebol?
AO – Em Coimbra conheci o Artur Jorge e travei várias lutas com ele. Em Braga tive colegas extraordinários como, por exemplo, o Juvenal.

Há alguma época que recorde com especial carinho?
AO – Ainda era júnior mas já treinava com a equipa sénior do Braga, em 1966, quando vencemos a Taça de Portugal frente ao Vitória de Setúbal. Não fiz um jogo na competição mas senti a vitória porque treinava com eles.

, ,