Andreia Santos: “O nosso plano é regressar quando estivermos reformados, a não ser que ganhe a lotaria, nesse caso estaria aí já amanhã”

Andreia Santos no porto de St. John’s / Foto: Direitos Reservados

Com Gondomar no coração, Andreia Santos, de 37 anos, foi estudar para o Canadá, em agosto de 2002, e aquilo que no início começou por ser uma aventura transformou-se num casamento, do qual surgiram duas filhas. A desempenhar funções no departamento de recursos humanos do Governo da Terra Nova, a ideia de regressar em definitivo a Portugal perdeu peso.  

Como surgiu a oportunidade de ires estudar e, consequentemente, trabalhar para o Canadá?
A oportunidade de ir estudar para o Canadá surgiu através de uma paixão antiga de ir estudar para o estrangeiro. Desde miúda que tinha o sonho de ir viver para o estrangeiro, mas na altura o foco estava nos Estados Unidos. Fui sempre boa aluna a línguas e, um dia, disse aos meus pais que queria ir aprender inglês num instituto de línguas para aperfeiçoar o meu conhecimento. Assim foi e obtive o “Proficiency Certificate in English” da Universidade de Cambridge. Os anos foram passando e completei o primeiro ano de Jornalismo na Universidade do Porto mas não me sentia realizada no curso. Depois do ataque terrorista nos Estados Unidos, em 2001, decidi que esse país talvez não fosse a melhor opção e foi então que comecei a procurar informações em como me candidatar a faculdades no estrangeiro, desta vez no Canadá. Em agosto de 2002, estava a caminho da Terra Nova para estudar na “Memorial University of Newfoundland and Labrador” em St. John’s. De realçar que este sonho nunca se teria tornado realidade sem o enorme suporte financeiro dos meus pais.

No teu primeiro trabalho lidaste com crianças. Ainda assim, estás mais realizada agora?
A minha licenciatura no Canadá foi em Psicologia. Na altura em que me licenciei, haviam restrições em termos do tipo de trabalho que podia arranjar para poder ficar aqui a trabalhar. O meu emprego tinha que ser na minha área de estudo. Quando ainda estava a completar o curso, cheguei a ver várias oportunidades de trabalho nos boletins da faculdade para terapeuta de crianças no espetro de autismo. Assim que me licenciei, sabia que queria ir trabalhar nessa área. Trabalhei como terapeuta durante cinco anos. Posteriormente, tomei conhecimento do mestrado em relações do trabalho e decidi que era a direção que queria tomar na minha carreira. Completei o mestrado e comecei a trabalhar em recursos humanos, primeiro em recrutamento e transição de carreira e, atualmente, trabalho no departamento de recursos humanos do Governo da Terra Nova.

E quais as tuas perspetivas de futuro em termos profissionais?
Espero continuar na área de recursos humanos e gostava muito de, um dia, fazer consultoria em transição de carreira.

Apesar da distância, continuas atenta ao que se passa em Portugal?
Sim, sempre. Mantenho contacto diário com a minha família em Portugal, acompanho as notícias portuguesas pela Internet e visito o nosso país todos os anos na altura das férias.

E no nosso concelho em particular?
Sim, também, mas mais pela minha família que reside aí.

Foste bem recebida em St. John’s?
Sim, muito bem. St. John’s não é uma grande cidade e a personalidade das pessoas aqui é equivalente à das que vivem em vilas pequenas onde toda a gente se conhece. A maioria das pessoas são simpáticas, educadas e acolhedoras.

E qual a parte menos boa de trabalhares a milhares de quilómetros de distância do país que tanto aprecias?
São tantas! Primeiramente a família. Quando saí do país era nova e apesar de saber que ia ser difícil e que ia ter muitas saudades, a probabilidade do “para sempre” não era concebível na altura. Os anos foram passando, casei e tive duas filhas, sendo que as saudades foram aumentando. Perder o Natal por diversas ocasiões e datas especiais em família, perder familiares ao longo dos anos e pensar que não vou estar perto para ajudar os meus pais com o passar dos anos são sentimentos sempre difíceis de lidar. O clima, a praia, a história e a cultura do nosso país são coisas que também sinto a falta. E, claro, a gastronomia portuguesa, que é excelente.

Viver no Canadá assume-se como uma experiência muito diferente relativamente ao nosso país?
Sim, o estilo de vida é bastante diferente. Excluindo as diferenças óbvias, como a língua, o clima e a gastronomia, a grande diferença é que aqui o ditado “colhes o que semeias” é verdade, enquanto em Portugal, infelizmente, nem sempre é assim. Sente-se um controlo maior sobre o nosso destino, há mais justiça social. A hierarquia social, financeira e etária são menos demarcadas aqui no Canadá. As pessoas são mais abertas a aprenderem umas com as outras, independentemente de quem são, de onde vêm e do que fazem. Também acho que aqui a sociedade é menos crítica no geral e mais aberta às individualidades de cada um. Foram estas as razões que me levaram a ficar.

Com família já formada, têm em mente regressar em definitivo a Portugal?
Não vejo possibilidades de isso acontecer num futuro próximo. Digo isto devido a certos obstáculos como perspetivas de trabalho e a barreira da língua portuguesa, principalmente para o meu marido. No entanto, o nosso plano é regressar quando estivermos reformados, a não ser que ganhe a lotaria, nesse caso estaria aí já amanhã.

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