António Sala: “Tempo de reencontro e conhecimento mais nítido do verdadeiro sentido da espiritualidade nas nossas vidas”

É um cidadão do distrito Portuense, que o viu nascer em V.N. Gaia e viver na sua infância, antes de rumar a Lisboa. O que lhe fica de melhor memória desses tempos e deste distrito nortenho?

As minhas memórias de infância nunca são longas nem médias metragens. São sempre uma espécie de vídeo-clip de imagens fugazes e por vezes pouco nítidas. Nessa vertigem de sons, imagens e cores, lembro a minha rua em Oliveira do Douro, a minha casa, mas nem todas as divisões. Recordo com alguma nitidez o velho Colégio do Sardão, algumas caras de vizinhos que nos eram mais próximos, os dias de chuva, vozes da noite frente à minha janela e o pátio, mesmo ali. Acho que era um miúdo feliz. A pessoa mais presente e mais viva na minha memória desses tempos longínquos era a minha avó Sara. Um amor inesquecível.

Conhece Gondomar, também na área metropolitana do Porto? Já fez alguma emissão neste concelho ou sobre ele? Como observa, mesmo que à distância, o crescimento/desenvolvimento deste concelho ao longo das décadas?

Teria seis anos a primeira vez que fui a Gondomar. Recordo que fui numa velha camioneta. Depois, já adulto, muitas e muitas vezes aí estive. A imagem que preservo de infância, é de um Gondomar muito diferente do de hoje. Agora sinto-lhe o rosto da modernidade. O Gondomar da infância parecia-me muito mais rural. É natural, muitos anos passaram e o progresso avançou.

Sabia que Gondomar tem um Passeio Ribeirinho com 37km? Ao ter presente esta realidade significativa para a área do Grande Porto, de que modo julga que seria importante potenciar esse espaço e sua respetiva divulgação?

Sinceramente, não tinha essa noção de grandeza do Passeio Marítimo de Gondomar. Acho que deve ser muito divulgado em todas as suas potencialidades e bem utilizado, não apenas pelos locais, mas por quem vos visita. É uma mais-valia que deve ser promovida por diferentes meios e alcançar o maior número possível de pessoas. No divulgar é que está o princípio do êxito.

Sempre desejou, desde novo, ir para a rádio e trabalhar nela, ou foi algo que apareceu mais tarde?

Eu queria era ser ator. O meu início na Rádio faz-se através do Teatro Radiofónico. Só depois surge a paixão pelo estúdio e pela magia da comunicação através da palavra que viaja pelo éter. Foi assim que tudo começou.

É, por muitos, considerado o melhor locutor radiofónico de todos os tempos. Para si, em que consiste essa diferença no modo como fazia rádio do de outros tantos locutores?

Sinceramente nem consigo avaliar essa diferença. Cada pessoa é uma pessoa, não há duas iguais. E na forma de comunicar é exatamente o mesmo. Acho que Deus me terá oferecido um pequeno dom, que é o de conseguir comunicar com facilidade, com prazer e com alguma empatia. Também acho que tive muita sorte na forma como se traçou a minha carreira profissional. E também há aquele provérbio popular que diz “mais vale cair em graça do que ser engraçado”… se calhar, foi isso mesmo!

Tendo em conta que diversos portugueses ouvem, diariamente, muita rádio quando se deslocam entre casa-trabalho / trabalho-casa, entre outras deslocações – e mais do que veem TV ou leem jornais –, pode dizer-se que a rádio acaba por ser mais útil e/ou importante que os restantes meios?

Creio que os diferentes meios se completam. Se calhar ouvimos uma notícia pela primeira vez no rádio a caminho de casa. Quando lá chegamos, vemos ao jantar as suas imagens na televisão, e depois já deitados pormenorizamos tudo na internet. No dia seguinte ficamos mais elucidados sobre essa mesma notícia nas páginas de um jornal. É um ciclo informativo e formativo que se completa. Acho mesmo que os diferentes meios acabam por se complementar. Mais do que se combaterem entre si.

O seu excelente trabalho não se ficou apenas pela rádio, mas esteve também patente na televisão (RTP), durante a década 90 e com interessantes programas de cultura geral. O que se recorda desse tempo, precisamente iniciado há 30 anos? 

A televisão é outra das minhas paixões. Sempre gostei de fazer TV e tive o privilégio de passar por excelentes programas. Mas, se a televisão popularizou a minha cara, a Rádio sempre mostrou a minha alma. Mas creio que elas também se completam. Gostei muito de quase tudo o que fiz em TV.

Acabou por ser um tempo que chamaria “sol de pouca dura”. O que levou, realmente, a que não se mantivesse na apresentação de programas televisivos, já que igualmente tinha tanto talento para tal?

Nos anos noventa sou convidado para ser diretor de Programas da Rádio Renascença. Aceitei e desempenhei essas funções durante 11 anos. Depois torno-me diretor-geral do Grupo Renascença, que envolvia estações como a Renascença, RFM, Mega Hits e a Rádio SIM. Também fui assessor da administração do Grupo. Tudo isto não me deixou muito tempo para me poder dedicar mais à televisão. Mas, não me arrependo nada dessas decisões. Tudo foi muito bom.

É também um exemplo inspirador noutro patamar da vida: o modo otimista e confiante com que superou dois cancros, nos últimos anos. Que conselhos dá para quem sofre desta maldita doença, das piores – se não mesmo a pior – que tem abalado as últimas décadas? Como é o antes e o depois?…

Infelizmente é cada vez mais comum o cancro na vida das pessoas. Graças a Deus que em muitos dos casos o grau de sucesso e cura, já é bastante elevado. O fundamental é prevenir e com isso descobrir a doença o mais cedo possível. Estar atento às mudanças do nosso corpo. Fazer rastreios, fazer vários exames com alguma regularidade. Desde que descoberto cedo, bem atempadamente, é possível ultrapassar com êxito esses problemas. Sejam vigilantes. Não recorramos aos médicos só quando nos sentimos mesmo mal. Às vezes isso, pode ser tardio. O embate e o choque de quando sabemos a notícia de que estamos com um cancro é brutalmente doloroso e traumatizante, mas depois temos de lutar e recuperar a nossa estabilidade. Temos de ser determinados, corajosos, ter Fé e confiar naqueles que nos tratam. E assim tudo é bem mais fácil. E com ajuda dos médicos, tratamentos, amor da família e amigos, consegue-se.

No ano 2000 escreveu o livro “Império de Brandos Costumes”. Volvidos 20 anos, entende que continuamos a ser esse império e que os costumes, nem sempre, deveriam ser tão brandos?

Infelizmente nos dias que correm, cada vez menos, acho que sejamos um país ou um povo de “Brandos Costumes”. A nossa sociedade está muito povoada de violência e hábitos que nada têm de brandos. Mas, façamos nós a nossa parte no dia-a-dia, para contrariar essa tendência. Se cada um fizer a sua parte, as coisas serão bem mais equilibradas.

E, para si, como vão ficar esses costumes, e o império das sociedades – no global e entre si – após os efeitos devastadores deste surto mundial? Na saúde, sobretudo, mas não só…

Apenas sei que dificilmente tudo voltará a ser como era. Não consigo imaginar os comportamentos sociais depois deste pesadelo. No entanto creio, que há coisas e vivências em que iremos melhorar. Pelo menos a nível afetivo e humano. Quero acreditar nisso. A nível económico e profissional, penso que nos esperam tempos muito difíceis e muito duros. Vamos todos de remar muito, mas no mesmo sentido. Só assim alcançaremos um desejado porto seguro.

O que mais o preocupa no decorrer de toda esta propagação do “covid-19”? E o que mais louva e menos louva em termos de ação / atuação – individual e coletiva – para tentar prevenir e erradicar o vírus?

Estamos mesmo em plena “guerra” e mesmo no “olho do furacão”. Algumas coisas poderiam, por certo, ter sido feitas de forma mais antecipada e coordenada, mas não é esta a altura certa para esse tipo de avaliações. Haverá mais tarde tempo para as fazer. No entanto, e comparativamente a outros países e situações, creio que globalmente estamos a funcionar de forma bem equilibrada. Nalguns casos até me parece que melhor do que poderíamos pensar. Louvo as mulheres e homens da saúde e o seu heroísmo na linha da frente. Todos que com o seu trabalho impedem a paralisação total do país. Congratulo-me com a serenidade de alguns dos principais governantes do país. A serenidade da grande maioria dos portugueses e a sua boa dose de sensatez. Envergonha-me a estupidez de pequenas minorias da população, que não têm qualquer respeito pelos outros. Mas, desses nem seria de esperar mais, já que não têm mesmo, nem respeito por si próprios. Mesmo sem esses, aliás, contra esses… iremos conseguir seguir em frente e vencer esta difícil batalha. Se Deus quiser.

Mesmo com esta tragédia pandémica, celebra-se – a partir deste mês – um tempo tão especial quanto profundo: a Páscoa e o tempo pascal, durante 50 dias. De que forma vai viver este tempo espiritual e como irá alimentando-o?

Se calhar, esta é uma oportunidade única de celebrar e entender a Páscoa na sua verdadeira dimensão espiritual. Nos silêncios, no entendimento pessoal do verdadeiro sentido da vida e no nosso encontro com o que é profundo e divino. Repensar a Vida e a Morte. O que somos e para onde caminhamos. Qual a nossa relação com Ele. Mesmo para aqueles que n’Ele não acreditam. Pode ser um tempo de reencontro e conhecimento mais nítido do verdadeiro sentido da espiritualidade nas nossas vidas.

Em 2015 comentou na comunicação social: “o Papa Francisco é um homem extraordinário”. Mantém, certamente, esta opinião: o que mais tem admirado nele? E, até, no modo como ele se tem aguentado, parecendo estar doente, olhando à grande dificuldade física de mobilidade…

Cada vez mais, cresce a minha admiração pelo Papa Francisco. Sente-se a cada dia que passa uma maior debilidade física no seu corpo. Mas, também se sente o seu crescer e a sua força espiritual naquilo que nos transmite. É uma bênção para todo mundo, ultrapassando em muito as fronteiras do mundo Católico Romano. Ele é um bem para toda a humanidade. Assim o saibamos ouvir.

Por fim, fica aqui espaço para uma mensagem final que não tenha ainda referido e que julgue ser propício a quem nos ler…

Agradeço reconhecido esta oportunidade de diálogo, e este poder ser partilhado com quem nos lê. Desejo a todos, muita força, saúde, paz e as maiores bênçãos nas suas vidas. Cuidem-se por favor. Cada um de nós faz sempre falta a alguém. E só isso, justifica tudo. Cuidem-se. ▪

, , ,