Cavalete do Poço de São Vicente cumpre 80.º aniversário a precisar de uma intervenção urgente

Cavalete do Poço de São Vicente - maio 2017

O Cavalete do Poço de São Vicente comemora, este ano, o 80.º aniversário / Foto: Pedro Santos Ferreira

A 1 de janeiro de 1937, o Cavalete do Poço de São Vicente passava a funcionar a 100%. Hoje, 80 anos depois, é um monumento industrial, ex-libris de São Pedro da Cova, que necessita de uma recuperação urgente. Para assinalar a efeméride, o Vivacidade questionou sampedrenses, especialistas técnicos e autarcas locais: terá o Cavalete salvação?

Oitenta anos depois, o Cavalete do Poço de São Vicente continua a ser um marco da história de São Pedro da Cova, mas também um ícone nacional da exploração mineira.

O monumento com 38,45 metros de altura e 150 metros de profundidade é, ainda hoje, um ex-libris do concelho. Contudo, ano após ano agrava-se a degradação da construção, sendo premente a necessidade de recuperar o equipamento.

A conclusão consta num estudo desenvolvido pelo departamento de Minas e Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Segundo os investigadores académicos, “o estado de conservação é mau considerando a degradação avançada que já se atingiu no betão (delaminação) e no aço (corrosão) na generalidade dos elementos estruturais”. “Ver o Cavalete de São Vicente recuperado seria uma excelente notícia”, afirma Alexandre Leite, do Departamento de Engenharia de Minas da FEUP.

O estudo sobre o valor patrimonial e estado de conservação do Cavalete aponta ainda como “urgente” a inspeção cuidada a todos os elementos estruturais do monumento, bem como a realização de um estudo de estabilidade do equipamento.

“Esta é uma obra de arte da arqueologia industrial. Está classificada como Monumento de Interesse Público desde 2010, mas está a degradar-se. Existe a necessidade, cada vez mais urgente, de conservar este equipamento”, diz Rui Fonseca, filho de Neftaly Fonseca, engenheiro técnico da Companhia das Minas.

Hoje, Rui Fonseca, membro da Liga dos Amigos do Museu Mineiro de São Pedro da Cova e fundador da banda Os Stukas, ainda recorda o dia em que a exploração mineira encerrou. “Lembro-me de estar em cima de um telhado a filmar o último dia de atividade nas minas. A PIDE esteve a vigiar os operários e chegou a fazer detenções”, lembra o sampedrense.

Serafim Gesta, mais conhecido por “Mazola”, também lá estava, no dia 31 de julho de 1972. “Esse foi o dia em que a jaula não voltou a subir. Ficou enterrada lá em baixo. Nesse dia não houve lágrimas porque era uma morte anunciada, mas em 1970, quando anunciaram o fim da exploração mineiro, muitos sofreram”, explica “Mazola”.

À época, o Cavalete “foi o grande motor da empresa” e aumentou exponencialmente as vendas e exportação de carvão. A Companhia das Minas viu-se obrigada a reforçar o número de mineiros para dar resposta à exploração do Poço de São Vicente.

Luís Filipe Araújo, vice-presidente da Câmara Municipal de Gondomar, considera o Cavalete “um dos símbolos mais importantes do concelho” e aponta a aquisição do monumento, entre outros edifícios, como um dos “passos necessários para a recuperação”. “Ainda há dúvidas relativamente à propriedade do Cavalete e temos que ter alguns cuidados nessa matéria, mas estamos [Município] a tentar encontrar uma solução urgente para esse problema”, refere o autarca. Entretanto, o terreno junto ao monumento já foi vedado “por questões de segurança”.

Segundo o vereador do Planeamento e Ordenamento do Território, a autarquia tem um projeto para aquele espaço que poderá vir a ser “um núcleo museológico e uma porta de entrada no projeto intermunicipal do futuro Parque das Serras do Porto”. “Temos todas as condições para criar ali um espaço que una a vertente histórica, turística, cultural e natural”, acrescenta.

Por sua vez, Daniel Vieira, presidente da União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova, eleva o Cavalete a “elemento distintivo da freguesia mineira”. “Quem nos visita, depara-se com aquele monumento industrial de grande significado histórico. Um exemplar único em Portugal”, diz o presidente da Junta.

O autarca não esquece a luta travada pela Junta de Freguesia de São Pedro da Cova na defesa do património que conta a história de “170 anos de exploração mineira na freguesia”.

Em jeito de desafio, Daniel Vieira lança uma ideia para o futuro: “e se a zorra voltasse a ser usada num percurso turístico até ao antigo complexo mineiro? Poderia nascer aqui um grande polo de atração turística”.

Antes, o monumento industrial terá que ser recuperado para poder contar a história de quem por ali trabalhou e passou.

Recorde-se que, em 2010, o Cavalete passou a ser considerado Monumento de Interesse Público.

Exposição assinala aniversário do monumento industrial
A exposição “Cavalete de São Vicente – Monumento de São Pedro da Cova | 1937-2017” será inaugurada no dia 22 de maio, pelas 21h30, na Junta de Freguesia de São Pedro da Cova.

“Vamos aproveitar duas datas simbólicas: 80 anos da entrada em funcionamento do Cavalete e o 22 de maio de 1975. A mostra terá fotografias, objetos do próprio monumento, pareceres da necessidade de conservação do equipamento e alguns documentos da Companhia das Minas. Vamos também expor o projeto Museu Vivo, de 1997, em que o Cavalete era o centro das atenções”, explica Micaela Santos, da Liga dos Amigos do Museu Mineiro.

A mostra temporária, promovida pela União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova e o Museu Mineiro, vai contar com a exposição de documentos inéditos e ficará patente até 28 de junho.

Cronologia do Cavalete do Poço de São Vicente
1929 – A Companhia das Minas, começa a trabalhar politicamente para que seja publicada uma lei de proteção aos carvoeiros nacionais;
1932 – Óscar Carmona, presidente da República visita as minas e condecora três mineiros; É-lhe sugerido o desejado decreto-lei da Proteção aos Carvões Nacionais, que avança e abre caminho à construção de um novo Cavalete;
1934 – Começa a construção do Cavalete do Poço de São Vicente, fornecido pela empresa francesa Charles Tournay;
1935 – Cavalete fica concluído mas faltam infraestruturas adjacentes;
1937 – Cavalete inicia atividade a 100%;
1972 – Cavalete encerra atividade; 

Eduardo Campos foi construtor do Cavalete
Eduardo Antero Dias Costa Campos, mestre pedreiro, dirigiu os trabalhos de construção do Cavalete a partir de 1934. Nascido em 1896, em São Tiago de Bougado, após a conclusão da obra, em 1937, Eduardo Costa viria a integrar as minas de carvão de São Pedro da Cova até ser reformado em 1962. “Merece todos os louvores pela esmeralda obra que executou”, salienta “Mazola”.

“Património mineiro em discussão”
No dia 7 de junho, a Cooperativa do Povo Portuense irá promover um reflexão alicerçada ao tema “São Pedro da Cova: património mineiro em discussão”. A iniciativa terá lugar na sede da cooperativa, pelas 21h. Está também prevista a exibição do documentário “As minas de São Pedro da Cova”, trabalho datado de 1917.

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