Cláudia Martins: “É realmente impressionante experienciar o sentimento de união que está a acontecer. As pessoas estão a ser incríveis”

Cláudia Martins é natural de Rio Tinto e viu em Inglaterra uma oportunidade de percorrer os seus sonhos. Atualmente, é enfermeira instrumentista e especialista em prevenção e controlo de infeção de um hospital Londrino. Devido ao seu trabalho, Cláudia conta-nos como é a experiência de estar na frente de combate da pandemia.

Antes de falarmos da situação atual, o que te levou a escolher Inglaterra para trabalhar?

Quando terminei a minha licenciatura em enfermagem em 2010, nunca pensei que trabalhar fora do país fosse uma opção pela qual optasse. No entanto, após quase um ano a trabalhar como enfermeira em part time numa clínica e, após um número exaustivo de currículos entregues sem resposta, compreendi que era necessária outra solução. O Reino Unido surgiu por acaso. O meu grupo de amigos, que também estava na mesma situação laboral que eu, decidiu que Inglaterra seria uma boa opção e então fizemos as aplicações, fomos entrevistados e tudo aconteceu muito naturalmente.

Como tem sido, globalmente, a experiência de trabalhar em Inglaterra?

Tem sido uma experiência muito positiva. No início não foi fácil. Com vinte e quatro anos tive que me adaptar a uma cultura, hábitos e a um sistema de saúde diferente. Foi também a primeira vez em que comecei a viver sem a minha família, o que também foi uma mudança bastante abrupta. Hoje, não me arrependo em nada da decisão que tomei. Trabalho como enfermeira no Reino Unido há 9 anos e a minha evolução de carreira tem sido excelente. Comecei como enfermeira de urgência, passei por enfermarias de cirurgia e depois comecei a exercer como enfermeira instrumentista. Tornei-me a enfermeira responsável pela prevenção e controlo de infeção no meu bloco operatório e, tive a oportunidade de tirar a minha graduação em cirurgia e instrumentação cirúrgica numa universidade em Londres. Atualmente, exerço funções não só como enfermeira instrumentista, mas também como enfermeira especialista em prevenção e controlo de infeção no meu hospital. É muito gratificante ter a oportunidade de puder escolher a área na qual quero trabalhar, evoluir na carreira e ser reconhecida pelo meu trabalho.

Neste momento atravessamos uma grave crise de saúde e Inglaterra tem sido dos países mais atingidos por esta pandemia. Como tem sido viver esta situação na linha da frente?

Uma pandemia global é algo que sempre se soube que iria acontecer novamente. No entanto, nunca pensamos que isto iria acontecer na nossa geração. Devido à dimensão desta pandemia e, estando na linha da frente sinto uma preocupação moderada, mas, ao mesmo tempo um senso de dever.

Que rotinas do teu dia-a-dia profissional viste serem alteradas com a chegada do Covid-19? Como têm sido os dias de trabalho?

A chegada do Covid-19 causou um impacto tremendo nas rotinas do meu trabalho, as quais tiveram que ser adaptadas a esta nova realidade. O funcionamento normal dos hospitais teve que ser adaptado de acordo com a estratégia do governo para que estes sejam mais seguros para os utentes, familiares e trabalhadores. Sessões de treino constantes para os trabalhadores (clínicos e não clínicos) tiveram que ser realizadas diariamente de forma a assegurar que todos entendam o que é o covid-19, que mudanças devem ser implementadas e como nos devemos proteger e proteger os nossos utentes. Os dias de trabalho têm sido longos e muito mais cansativos. No entanto, gratificantes, porque como enfermeira de prevenção e controlo de infeção e, como estou numa boa posição para dar suporte e sessões educativas aos meus colegas, consigo observar um aumento dos níveis de confiança ao lidar com esta situação.

Com tantos profissionais de saúde infetados, o medo é um sentimento sempre presente?

Os profissionais de saúde estão na linha da frente durante esta pandemia e essa situação provoca, naturalmente, alguma ansiedade. A minha função passa também por transmitir conhecimento e segurança a todos os meus colegas durante o dia-a-dia de trabalho. Medo cria ainda mais medo e a transmissão de segurança é uma grande parte daquilo que faço. Sinto que, os profissionais de saúde têm alguma preocupação, uma vez que esta é uma nova situação e desenvolve-se num contexto em movimento rápido. A minha geração de enfermeiros nunca teve que lidar com algo desta dimensão e impacto, porém, temos que manter a calma e, um nível elevado de cuidados de saúde e profissionalismo. Apesar de tudo isto, sinto-me também bastante inspirada por todo o apoio entre colegas e pelo apoio e carinho oferecido por todas as pessoas. É realmente impressionante experienciar o sentimento de união que está a acontecer. As pessoas estão a ser incríveis.

Como geres a tua vida pessoal e a profissional num momento destes?

A minha vida pessoal e profissional alterou bastante com esta situação. A nível profissional, a minha prática foi alterada em vários sentidos. Trabalho sobre mais pressão e quando volto para casa ao final de dias muito longos, tenho que estudar bastante para me manter atualizada com o fluxo constante de informação e de alterações. É muito exigente. A nível pessoal, é um pouco desafiante. Durante a fase inicial da pandemia do covid-19 foi sentida uma grande onda de choque e medo na população e até os meus amigos evitavam estar na mesma divisão da casa do que eu. Étambém desafiante o facto de estar longe da minha família e das pessoas que me são importantes e não ter a certeza de quando os vou puder visitar.

Certamente que também tens acompanhado o evoluir da situação em Portugal. As diferenças nos números entre Portugal e Inglaterra são muitas, no teu entender, que fatores contribuíram para esta diferença?

Relativamente às principais diferenças nos números entre Portugal e o Reino Unido, estas estão também relacionadas com o número de população. Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes enquanto que o Reino Unido tem cerca de 66,5 milhões de habitantes, pelo que, é importante analisar os valores por milhão de habitantes. De acordo com as estatísticas que analisei hoje (17 de Abril, 2020), o Reino Unido tem 1601 casos positivos por milhão de habitantes, enquanto que Portugal tem 1866 casos. Relativamente ao número de óbitos, o Reino Unido tem 215 mortes por milhão de habitantes e Portugal tem atualmente 64. Vários fatores contribuem para a diferença nos números, incluindo o número de testes realizados em cada país. O Reino Unido realizou até hoje um total de 438 991 testes, enquanto que Portugal realizou 221 049. No entanto, por milhão de habitantes, Portugal realizou 21 678 testes enquanto que o Reino Unido realizou 6467. Esta diferença de números poderá indicar que Portugal tem de momento uma tática de testes mais agressiva, uma implementação de medidas de combate à pandemia atempada e, uma rápida deteção e isolamento de casos, o que poderá ter assistido na quebra da cadeia de transmissão. Isto poderá ser traduzido num número reduzido de exposição de pessoas vulneráveis ao covid-19 e consequentemente, num menor número de casos críticos. Obviamente, estas figuras são aproximadas uma vez que as estatísticas alteram diariamente.

Estando na linha da frente num dos países mais afetados, que mensagem gostarias de deixar em especial para os Gondomarenses?

Continuem a ser fortes, mantenham-se seguros e cumpram as regras de isolamento e distanciamento social. Este não é um caminho fácil nem curto, mas juntos vamos ultrapassar esta situação. Temos de momento bons especialistas a lidar com esta pandemia e a trabalharem juntos no combate ao covid-19.

Mesmo a terminar, o regresso a Portugal é uma meta no teu horizonte?

Quem sabe, um dia. Claro que adoraria regressar e as saudades são muitas. Por outro lado, a situação laboral e de evolução profissional em Portugal, não é de momento apelativa. Portugal tem uma excelente formação de profissionais. No entanto, a situação laboral na carreira de enfermagem é infelizmente muito precária. A carreira de enfermagem continua congelada e a evolução profissional nula. É uma pena, porque temos muito talento, mas não nos é dada a oportunidade de o demonstrar no nosso país. ▪

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