Cláudia Pascoal: “Não vou dizer que o meu objetivo é ganhar a Eurovisão, mas gostaria de chegar ao top 5”

Cláudia Pascoal - março 2018

Cláudia Pascoal vai representar Portugal na Eurovisão 2018 / Foto: Pedro Santos Ferreira

Cláudia Pascoal, 24 anos, tem nos ombros o peso de um país que irá representar a 21 de maio, no Festival da Eurovisão, em Lisboa. Natural de São Pedro da Cova, a jovem artista mostra-se orgulhosa e confiante no potencial da música “O Jardim”, que lhe deu o grande prémio no Festival da Canção. Ao Vivacidade, admite que gosta de regressar a Gondomar e que não esquece a infância calma, as amizades e as brincadeiras de rua”.

Como é que chegou o convite da Isaura para interpretares “O Jardim”?
Eu fui contactada através do Facebook, mas na mensagem que a Isaura me enviou nem sequer referia o Festival da Canção. Dizia apenas: “Olá, sou a Isaura e gostava de falar um bocadinho contigo”. Eu já sabia que a Isaura era uma das compositoras convidadas pelo Festival da Canção, por isso vi ali uma oportunidade.

Contudo, há um fator curioso, porque inicialmente a Isaura desafiou-me para cantar a música “Onde estás”. Ela mandou-me, estudei a música, fui a Lisboa gravar, mas a Isaura não conseguia esquecer o outro tema que tinha na gaveta [“O Jardim”].

Acabamos por gravar a música, que é fantástica e que tem uma grande capacidade emocional de recriar a saudade, uma saudade dolorosa mas simultaneamente reconfortante.

De resto, a Isaura já disse várias vezes que eras a voz que ela procurava para interpretar essa música. Já percebeste porquê?
A Isaura conta essa história muitas vezes [risos] e diz que procurou mesmo até à última. Ela estava quase a desistir, mas a prima dela mostrou-lhe um vídeo do meu casting no “The Voice Portugal” e ela decidiu escolher-me depois disso.

Para mim, saber disso é saber que tenho que ser ainda melhor e corresponder às expectativas.

A candidatura ao Festival da Canção surge com naturalidade…
Sim. Gravamos o tema, começamos a ensaiar e passamos em segundo lugar na semi-final. Foi uma grande alegria para nós, porque nunca imaginamos que poderia ter essa repercussão. Quando vencemos o Festival, nem queríamos acreditar no que estava a acontecer.

Nas imagens vê-se que ficaram quase sem reação…
E a Isaura, que é uma pessoa extremamente segura, acabou por descontrolar-se. Isso ainda me fez “panicar” ainda mais [risos]. Foi o momento mais feliz da minha vida.

Depois, subir ao palco para voltar a cantar aquela música junto dos outros concorrentes, equipa técnica e público foi marcante para mim.

Há uma história por trás da música. Sempre que cantas “O Jardim” pensas em alguém especial para ti?
A música tem essa particularidade. Todos nos conseguimos identificar com a letra, se tivermos perdido alguém muito próximo. A minha avó também tinha um jardim, onde eu e os meus primos jogávamos futebol e partíamos as flores todas. Então espetávamos palitos para tentar erguer as flores partidas e a minha avó não reclamava connosco [risos].

São essas memórias boas e ternurentas que ao mesmo tempo doem-me porque sei que não se irão repetir.

É uma música emocional e nas interpretações que fizeste acabaste por te emocionar. Essa particularidade poderá distinguir o tema entre os outros concorrentes da Eurovisão?
Têm-me mostrado vídeos de pessoas de diferentes países a reagir à música e tenho visto muita gente emocionado, apesar de ser cantada em português. Esse foi um dos nossos objetivos, dar seguimento ao legado do Salvador Sobral, porque, como ele disse, a música não é fogo de artifício, é sentimento.

Identificamo-nos com essa lógica. Saber que o nosso esforço está a dar resultado é muito importante para nós.

A vitória do Salvador, a 1ª edição da Eurovisão em Portugal e a vitória num Festival da Canção remodelado deixam-vos uma responsabilidade acrescida?+
Já estive com o Salvador e fiz questão de lhe agradecer as portas que nos abriu para o que realmente é a música em Portugal. Acho que agora o Festival da Canção retrata a música feita por cá.

Felizmente, o Salvador venceu a Eurovisão e deu-nos oportunidade de apresentar outros temas. É uma mudança muito positiva.

Como está a ser preparada a Eurovisão?
Estamos a ter muitas reuniões com a RTP para decidir a performance, guarda-roupa, entre outros pormenores. Também temos dado muitas entrevistas e vamos fazer promoção no estrangeiro. Todos os artistas passam pelos outros países para se conhecerem uns aos outros.

A final está marcada para o Altice Arena. Será um momento especial para ti?
Sem dúvida! Vou ter lá a minha família, que seria impossível caso fosse fora do país. Representar o nosso país, em Portugal, é uma grande sensação de orgulho. Acho que ainda não percebi bem o que me está a acontecer.

Esperas ver muitos cabelos pintados de cor-de-rosa na plateia?
Quero muito! [risos] Foi um dos meus primeiros apelos, mal venci o Festival da Canção. Era giro porque iam parecer flores de um jardim. Por acaso, estava com o cabelo pintado de rosa e ficou essa imagem de marca.

Ainda existe ansiedade quando sobes ao palco?
Ainda é estranho pensar que vamos representar Portugal na Eurovisão, mas queremos que chegue rápido. Agora estamos todos juntos nisto e tenho sentido um grande apoio na rua, além de um grande entusiasmo.

Esta experiência já mudou a tua vida?
Mudou muita coisa. A minha vida deu uma volta de 180.º graus. Já tinha percebido que no meio artístico era necessário ser persistente, mas agora sinto que tudo valeu a pena.

Tenho recebido um bom feedback das diversas formas de sentir a música, sentimos que o tema teve um rasgo positivo em muitas pessoas. Além disso, vou aos cafés e não pago, o que é muito bom porque o café é das minhas coisas preferidas [risos].

“O Jardim” está entre os temas favoritos para vencer. É uma pressão extra?
Pelo contrário, só me dá motivação para fazer ainda melhor. Não vou dizer que o meu objetivo é ganhar a Eurovisão, porque acho difícil fazer uma dobradinha, mas gostaria de chegar ao top 5. Vamos dar o nosso melhor!

No final do Festival da Canção, o Fernando Tordo acusou-vos de plágio. Como lidaram com essa reação de outro compositor?
Só me contaram isso cinco dias depois da final. Todos temos direito a ter opinião. Eu também tenho uma opinião sobre as músicas que concorreram ao Festival da Canção, no entanto, não a divulgo por respeito aos outros concorrentes. Se ele decidiu partilhar, a decisão é dele.

Tenho recebida imensas mensagens, algumas com críticas construtivas e aceito isso. Tudo o resto, não alimento.

O que vimos na final do Festival da Canção será necessariamente o que vamos ver na final da Eurovisão?
Não, não. Vamos ver coisas novas. O que fizemos foi condicionado pelo pouco tempo que tínhamos e pela dimensão do palco. Aliás, na semi-final atuamos no palco do estúdio da RTP, que é pequeno, depois passamos para o palco do Multiusos de Guimarães e agora vamos para a Altice Arena, que terá um palco gigante.

Por exemplo, inicialmente não estava prevista a presença da Isaura no palco, mas, de acordo com o regulamento do Festival da Canção, todas as vozes da música têm que estar em cima do palco. Por isso, arranjamos aquela cadeira rotativa e a coreografia dela. Agora podemos mudar isso e, certamente, vamos ver coisas novas. Ainda estamos a discutir todas as possibilidades.

És natural de Gondomar. Como foi o teu crescimento em São Pedro da Cova?
Cresci cá e sempre gostei de viver aqui. Tive uma infância muito calma, recheada de amizades e num sítio onde ainda era possível brincar na rua. Mais tarde, acabei por estudar no Porto e depois fui para Lisboa, mas levo boas recordações de São Pedro da Cova.

É uma freguesia com uma identidade muito vincada, tal como tu. Levas um bocadinho de ti sempre que vais para fora?
Foi sempre a minha maneira de ser. Senti-me sempre bem em Gondomar, da mesma forma que me sinto bem em Lisboa. São fases diferentes da minha vida, mas gosto sempre de voltar.

Quando começaste a sentir o apelo da música e das artes?
Quando a minha mãe estava grávida decidiu comprar uma guitarra para aprender a tocar. Acabou por desistir porque sempre que dava um acorde eu dava muitos pontapés e ficava muito agitada dentro da barriga dela [risos]. Antes de ter nascido já tinha essa ligação com a música.

Desde muito cedo que me foi dito que iria seguir Artes e ainda me lembro disso. Já fiz um pouco de tudo: pintura, cinema, agora música…

Ainda é difícil vingar na música em Portugal?
É preciso trilhar um caminho longo. Hoje, aos 24 anos, estou a fazer o que gosto, mas nem sempre foi fácil. A certa altura da minha vida houve um momento-chave que me fez apostar mais na música.

Contudo, sempre defini que queria tirar um mestrado, mas tenho três cursos diferentes. No secundário, quando estava a tirar o curso de ourivesaria, cruzei-me com um amigo e decidimos formar, imediatamente, uma banda e fomos tocar para o Metro do Porto. Acabamos por participar no concurso Música na Rua e fomos tocar à Casa da Música. Foi aí que percebi o quanto gostava da música.

Essa ambição levou-te a participar no “Ídolos”, por diversas vezes. O que esperavas conseguir com essa experiência?
Acho que participei cinco vezes, mas nem sempre apareci na televisão. Esses programas são mais vocacionados para o entretenimento do que para o talento. Há depois a criação de uma personagem que nos pode levar mais longe. Quando percebi que podia criar uma personagem com a minha felicidade extrema, decidi apostar nisso.

A primeira vez, aos 15 anos, deixou-me amargurada, porque não passei a fase de casting. Achei aquilo muito injusto porque nem me deixaram cantar. Foi aí que comecei a perceber como funcionavam aquele tipo de programas.

Depois disso, participei no Fator X e fiquei no top 50. Achei novamente super injusto [risos].

Quando regresso aos “Ídolos” já vou consciente do que eles queriam e do que queria cantar. Acho que isso foi decisivo para a minha prestação naquele programa e para o convite para integrar o elenco de apresentadores do programa “Curto-Circuito”. Nessa altura pus a música completamente de parte.

Mas acabas por regressar ao Porto…
Para criar a minha banda, os M O R H U A. Estivemos um ano a dar concertos, com temas originais em inglês e fomos muito felizes durante esse período.

Acaba por surgir o “The Voice Portugal” e eu decidi inscrever-me para divulgar a minha banda. Felizmente, correu tudo muito bem no programa e agora estão a acontecer muitas coisas ao mesmo tempo na minha vida. Se não fosse a minha participação no programa, a Isaura não me teria visto e hoje não estava aqui.

No entanto, gostavas de ter vencido o “The Voice”?
Nunca foi um dos meus objetivos, sinceramente. Encaro o Festival da Canção de uma forma muito mais séria.

Após a Eurovisão, o que podemos esperar da Cláudia Pascoal?
De repente, estou novamente a cantar e a escrever em português. Por isso, espero lançar-me a solo, em nome próprio, a cantar sozinha com o ukulele. Gostava de lançar um single depois da Eurovisão, mas estou muito concentrada no festival. 

O que gostarias de dizer aos teus seguidores?
Deixo-lhes uma mensagem de agradecimento por todo o apoio que tenho recebido, sobretudo de Gondomar. E, por favor, comprem perucas cor-de-rosa para o Festival da Canção.

Gondomar presta homenagem à sua conterrânea
No dia 23 de março, pelas 17h30, a Câmara de Gondomar vai prestar reconhecimento a Cláudia Pascoal, no salão nobre do Município.

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