Concelho de Gondomar fustigado pelos fogos em agosto

Incêndios em Gondomar - setembro 2016

Meio aéreo no apoio aos bombeiros durante o incêndio de Melres / Foto: Direitos Reservados

De 5 a 13 de agosto, cerca de 20% da área florestal do concelho de Gondomar ardeu, consequência dos incêndios que lavraram em Melres, Foz do Sousa, São Pedro da Cova, Valbom e Jovim. Ao Vivacidade, os intervenientes no teatro de operações destacam a cooperação estabelecida entre as corporações do concelho e o apoio dos gondomarenses para o sucesso do combate aos incêndios. 

Gondomar viveu dias de terror no início do mês de agosto. No dia 5, as povoações de Vilarinho e de Moreira, em Melres, começaram a arder e mais de uma centena de homens, 40 meios terrestres e dois meios aéreos combateram as chamas distribuídas em duas frentes ativas.

Várias povoações ficaram ameaçadas e o incêndio chegou a ser dado como dominado por diversas vezes. Contudo, ao princípio da noite, registaram-se reignições.

As chamas chegaram depois a Foz do Sousa e São Pedro da Cova, a 8 de agosto, com grande intensidade. Os lugares de Gens e Midões (Foz de Sousa), Passal, Belói e Ramalho (São Pedro da Cova) foram os mais fustigados. O incêndio de Foz do Sousa chegou atingir a alimentação elétrica da central de captação e tratamento de água de Crestuma-Lever, situação que afetou o abastecimento de água à população e levou à recomendação do consumo moderado da água durante o dia.

No mesmo dia o avanço das frentes ativas levou a Comissão Distrital de Proteção Civil a deliberar pela primeira vez a ativação do Plano Distrital de Emergência (PDE) do Distrito do Porto. A medida foi tomada após uma reunião do Centro de Coordenação Operacional Distrital, tendo Marco Martins, presidente da Câmara Municipal de Gondomar e presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil, informado o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, da decisão.

Segundo o autarca, a decisão foi tomada “devido ao calor, à exposição solar, ao risco de incêndio, mas também para evitar congestionamentos de trânsito que dificultassem a ação de quem estava no terreno”.

A 10 de agosto, os incêndios não largavam o concelho e, pelo sexto dia consecutivo, mais de 300 homens, apoiados em mais de meia centena de viaturas e um meio aéreo combateram as três frentes ativas (Valbom, Jovim e Foz do Sousa) consideradas como “ocorrências importantes” pela Autoridade Nacional de Proteção Civil.

O cenário levou ao corte da autoestrada A43, conhecida como IC29, nos dois sentidos, entre os quilómetros 7 e 12, devido ao fogo em Jovim. Assim se manteve todo o dia.

Apenas numa semana o concelho perdeu 1500 hectares da sua área florestal, o triplo da área ardida entre 2006 e 2013. O número foi avançado após uma reunião que contou com a presença da Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, que visitou o posto de comando montado no Gondomar Gold Park.

O PDE manteve-se ativo até ao dia 14 de agosto, dia em que a capacidade de ação do distrito foi recuperada. A partir deste dia, passou a ser possível fazer triangulação (atribuir a cada ocorrência três meios) às chamas e registou-se uma diminuição do número de ignições.

“Foi uma semana devastadora para Gondomar e para o país”
“Dentro do azar e da desgraça posso dizer que até correu bem. Hoje, temos uma área ardida muito significativa (20%), mas felizmente não registamos nenhuma vítima ou habitação destruída pelo fogo e não ficaram famílias desalojadas”, revela o presidente da Câmara de Gondomar, Marco Martins, ao nosso jornal.

Para o autarca, é prematuro fazer o balanço da devastação numa altura em que decorre o levantamento dos danos causados pelos incêndios. De acordo com o edil gondomarense a preparação, o conhecimento entre parceiros e o treino proporcionado evitaram “uma desgraça maior”.

Artur Teixeira, comandante Operacional Municipal de Gondomar, recorda o “cenário dantesco” vivido no início de agosto em condições “extremamente adversas”.

“Gondomar não merecia ter esta área ardida, mas reconheço que naquela semana não existiam recursos disponíveis para nos socorrer. O concelho atingiu uma situação limite mas os nossos corpos de bombeiros revelaram grande capacidade técnica para dominar todas as frentes ativas. Infelizmente não há planeamento que resista a determinado tipo de condições”, considera o responsável pelo Serviço Municipal de Proteção Civil do Município.

De acordo com Romero Gandra, comandante dos Bombeiros Voluntários de São Pedro da Cova, só com a evolução dos incêndios para zonas próximas de habitações é que passou a ser possível combater o fogo. “Tivemos dificuldades de acesso às zonas florestais, também porque não contamos com o apoio aéreo que desejávamos. Felizmente contamos com um grande apoio de todas as entidades no terreno e estamos bem entrosados entre todos, o que ajudou a diminuir o impacto dos incêndios em Gondomar”, refere o comandante da corporação são pedrense, que considera prioritário o “investimento na área de prevenção para evitar custos avultados no combate às chamas”.

José Alves, comandante da corporação de Valbom, refere “um conjunto de situações que concorreram para um espetáculo lamentável no concelho”. O operacional de comando aponta as condições meteorológicas, a ausência de limpeza de terrenos e a intervenção humana como principais fatores potenciadores do número de ignições.

“Tudo isto obrigou os bombeiros a dar uma grande resposta. Andamos sempre a combater e a perseguir novos incêndios. Foi uma semana de loucura”, lembra o comandante de Valbom.

Por sua vez, Eutiquio Costa, adjunto de comando dos Bombeiros de Gondomar, compara os incêndios de agosto aos cenários vividos em 1998 e 2005. “Numa fase inicial o que nos causou algum transtorno foi a simultaneidade de incêndios que obrigou à dispersão dos meios envolvidos. Contudo, notou-se uma clara evolução da preparação e intervenção dos nossos operacionais, tendo em conta a escassez de recursos disponíveis”, refere ao nosso jornal.

Já José Costa e Silva, comandante dos Bombeiros da Areosa-Rio Tinto, assinala a falta de prevenção como “principal problema em Gondomar e no resto do país”. “Os bombeiros portugueses não estão vocacionados para cumprir esse papel e continua a existir uma falta de atenção permanente sobre o que se passa em Portugal”, faz notar. O comandante da corporação riotintense reclama também “um apoio maior” às corporações de bombeiros que permita dar resposta às despesas causadas pelo combate às chamas.

Até ao fecho da edição não foi possível falar com os Bombeiros Voluntários de Melres.

“O apoio dos gondomarenses foi comovente”
Durante o pico dos incêndios em Gondomar, dezenas de munícipes acorreram ao posto de comando das operações e aos quartéis de bombeiros do concelho, numa campanha de solidariedade espontânea.

Marco Martins, presidente do Município de Gondomar, mostra-se orgulhoso com a onda solidária de apoio aos bombeiros, registada no teatro de operações e nos quartéis das cinco corporações do concelho. “Quando teve início o incêndio de São Pedro da Cova foi comovente ver a mobilização de empresas, cidadãos, instituições e associações no apoio aos operacionais. Só nesse dia preparamos cerca de 600 refeições e conseguimos dar resposta às necessidades com a ajuda da população”, destaca o autarca.

O gesto solidário comoveu os operacionais empenhados no terreno, que sentiram “o apoio da população em todas as horas de combate”. Romero Gandra, comandante dos Bombeiros de São Pedro da Cova, considera o onda de solidariedade “um reconhecimento do esforço dos bombeiros”, sem esquecer a necessidade de um apoio “mais regular durante o ano”.

José Alves, comandante dos Bombeiros de Valbom, sublinha “o gesto importante dos gondomarenses”, contudo, reclama também um apoio permanente através da inscrição como associado das corporações gondomarenses.

Refira-se que todos os bens perecíveis foram posteriormente doados às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). 

Entidades recolheram 12 objetos incendiários
“Recolhemos 12 objetos incendiários. Esse processo está em investigação, mas posso afirmar que existiu nitidamente mão criminosa e com engenhos muito avançados”, adiantou Marco Martins ao Vivacidade.

Corporação de Valbom resgatou cão do meio do fogo
No meio do caos, uma equipa de Bombeiros Voluntários de Valbom recolheu, a 10 de agosto, um cão que estava perdido e desorientado no meio da floresta. O animal foi encontrado muito perto de uma das frentes do incêndio de Foz do Sousa. O cão foi prontamente assistido com água e oxigénio e entregue à dona.

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