Em S. Pedro da Cova, as marchas populares têm regresso marcado para julho

Foto: Direitos Reservados

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A expressão “a tradição já não é o que era” não se aplica na freguesia de S. Pedro da Cova. Pelo menos não este ano. As marchas populares, um costume com cerca de 50 anos na terra mineira, regressam agora após um interregno de 11 anos. Do Passal a Tardariz, são vários os lugares e instituições da freguesia que preparam o grande dia. O Vivacidade acompanhou alguns dos ensaios.

A Associação Promotora das Festas aos Padroeiros S. Pedro e S. Paulo e a União das Freguesias de Fânzeres e S. Pedro da Cova uniram esforços e decidiram recuperar uma tradição considerada como perdida no território sampedrense. Ao Vivacidade, o presidente da UF, Daniel Vieira, aponta um conjunto de fatores que podem explicar o fim das marchas em 2004. “Assumimos que um dos fatores foi a perda de disponibilidade de um conjunto de pessoas que estavam envolvidas todos os anos na construção das marchas. Em 2004 deu-se o fim das marchas que deram lugar às rusgas. Perante uma lacuna foi encontrada uma solução. Não é possível um povo pensar o seu presente e o futuro sem conhecer as suas tradições e a sua história. É fundamental reavivar estas tradições”, declara o autarca. “As rusgas cumpriram o seu papel e animaram as nossas festas mas não havia essa tradição. Arrisco afirmar que, tirando as Festas do Concelho, não havia iniciativa no concelho que juntasse tanta gente como as marchas populares”, acrescenta Daniel.

Nas marchas populares estão envolvidas muitas pessoas, coletividade e instituições privadas, garante o presidente. “Vão estar representados os lugares de Tardariz, Passal, Silveirinhos, Covilhã e a zona da Mó. Todos os lugares da freguesia estão representados nestas marchas. Esperamos a 3 de julho dar um bom pontapé de saída com milhares de pessoas envolvidas nesta iniciativa. Estão envolvidas mais 300 pessoas”, explica o presidente de Fânzeres e S. Pedro da Cova.

Marchas convergem, a 3 de julho, junto à Igreja de S. Pedro da Cova

O ponto central é junto à Igreja Matriz. No dia 3 de julho centenas de marchantes desfilam até ao terreno que se encontra à frente da Junta de Freguesia, para aí apresentarem as coreografias e músicas preparadas, aos milhares de pessoas que a autarquia espera receber nesse dia. “Vai gerar-se aqui um bairrismo saudável que queremos impulsionar”, afirma Daniel Vieira. “A ideia é dar continuidade a esta iniciativa nos próximos anos, iniciativa que envolve muita disponibilidade e trabalho voluntário”, acrescenta o presidente que admitiu ao Vivacidade já ter estado do outro lado. “A primeira vez que participei numa marcha popular tinha 11 anos. Participei como músico e continuei até ao fim das marchas. Participei na marcha do Passal, Carvalhal, Tardariz e Silveirinhos. Admito que o bichinho também está dentro de mim”, confessa.

Para a realização destas marchas populares, a Comissão de Festas e a Junta de Freguesia atribuem a cada grupo o valor de 1000€. No entanto, alerta o presidente, sabemos que os investimentos de cada marcha são muito superiores.”

Hélder Magalhães, presidente da direção da Associação Promotora das Festas aos Padroeiros S. Pedro e S. Paulo, vai mais longe e fala no grande esforço financeiro que cada um dos grupos faz para que tudo esteja pronto no dia das marchas. “Cada marcha custa cerca de 3500€. Os apoios que nos são dados não são suficientes para cobrir as despesas mas as associações estão dispostas a suportar esses custos, felizmente. Estas festas envolvem a comunidade nesta organização”, explica. O objetivo principal para o membro da comissão organizadora é “cativar as pessoas de S. Pedro da Cova e enquadrar quem visita a freguesia”. “Este ano estava na iminência de não se realizarem as festas da freguesia porque a Comissão de Festas teve que abandonar a direção por razões pessoais. No entanto, houve um apelo de pessoas jovens para continuarmos com as tradições”, refere ainda Hélder Magalhães.

Da parte da Paróquia, Fernando Rosas, pároco da freguesia, acredita queas pessoas já tinham saudades desta tradição”. “Estão envolvidos com grande entusiasmo a preparar as músicas, as coreografias e as letras”, afirma ao Vivacidade. Na questão dos apoios o padre afiança: “A paróquia precisa de apoio financeiro, não pode dar. No entanto, temos cedido as instalações para os ensaios de um grupo e dos que necessitarem. Sei que a Comissão de Festas está a fazer um grande esforço para a concretização das marchas.”

Em Tardariz, “Leões” e crianças unem-se num só grupo

Bruno Nogueira preside a Associação Recreativa e Desportiva “Os Leões de Tardariz” e juntamente com Mafalda França Rodrigues, do Jardim de Infância “Pedrocas”, decidiram por mãos ao trabalho e formar um dos grupos, com cerca de 30 pessoas, que vai integrar as marchas de S. Pedro. A parceria está a ser benéfica. Começamos há duas semanas a trabalhar juntos e tem que ficar pronto no dia 3 de julho”, explicou ao Vivacidade o presidente dos “Leões”. “Esta preparação envolve um grande espírito de sacrifício e companheirismo, principalmente da parte dos responsáveis. É difícil juntar toda a gente, pessoas de várias idades, feitios diferentes e conseguir que no fim saia um bom espetáculo”, afirma ainda. “Às vezes é difícil conseguir coordenar todas as pessoas. As pessoas mais velhas recorrem à sabedoria e por vezes têm dificuldades em aceitar ideias novas”, comenta também Mafalda França Martins.

No Passal, há uma “rivalidade saudável” entre duas associações

Num outro lugar da freguesia, a zona do Passal, não há um, mas dois grupos que preparam os marchantes para a grande noite. Do Rancho Folclórico do Passal, com 84 anos, Camilo Oliveira ainda se lembra de quando esta tradição teve início em S. Pedro da Cova. “Há cerca de 50 anos começaram as marchas populares de S. Pedro da Cova em vários lugares da freguesia. Eu não imaginava que ia participar novamente nas marchas mas atendendo ao pedido do Hélder e do presidente da Junta, entendi que o lugar devia mostrar mais uma vez as suas tradições”, comenta com o Vivacidade. A escolha da música foi difícil, revelou o octogenário, mas depois de definida os ensaios foram recorrentes. “Este é o quarto ensaio e a terceira semana. Os arcos e as roupas já estão prontas e quando chegar a hora vai estar tudo resolvido”, garante Camilo Oliveira. Da parte do Centro Desportivo e Recreativo do Passal – um grupo distinto no mesmo lugar – Sónia Ferreira garante que “vai entrar a matar”. Experiência não lhe falta porque é “há 20 anos” que faz parte e organiza as marchas neste grupo. “A preparação deste grupo é entrar a matar. Não sabemos se vamos ser o melhor grupo mas vai ser a melhor marcha. Estão envolvidas aqui 41 pessoas”, afirma a ensaiadora. “O Serafim Neves está a preparar a música e o letrista foi o José Reis”, revela, ao Vivacidade, Sónia Ferreira, enquanto dá ordens ao grupo para que prossiga com a marcha.

Vila Verde nasceu com as marchas populares

A Associação Recreativa Cultural e Desportiva de Vila Verde é também uma das entidades envolvidas na organização deste evento. O presidente da associação, Adão Ribeiro, confessa que “as marchas sempre disseram muito à associação”. “Nascemos em 2001 e começamos com as marchas populares. Houve um interregno há sete anos e as rusgas taparam o sol com a peneira mas não se podem comparar às marchas. Aqui demonstramos o trabalho das associações”, explica o dirigente associativo. “As marchas requerem mais coordenação e nesta altura já estamos a trabalhar há cerca de um mês”, acrescenta Adão Ribeiro.

Associação Estrelas de Silveirinhos também assegura a participação na iniciativa

“A Junta e a Comissão de Festas estão a recuperar uma tradição que estava parada há cerca de uma década. É importante retomar esta tradição que junta as pessoas e anima a população”, começa por dizer João Martins, presidente da Associação Social Estrelas de Silveirinhos. “Em Silveirinhos a adesão da população não foi muita mas após um forte impulso tivemos um primeiro ensaio e vamos avançar com a marcha”, admite o responsável. “Se a Junta e a Comissão de Festas continuarem a apostar nas marchas vamos analisar a nossa continuidade. As marchas necessitam de um investimento maior do que as rusgas e de um envolvimento reforçado”, lembra João Martins.

  1. Pedro da Cova, uma freguesia inclusiva

A liderar o grupo da Associação Recreativa Cultural e Social de Silveirinhos está Matilde Monteiro. “Este grupo é uma junção de três coletividades: o Órfeão de S. Pedro da Cova, a Associação Social de Silveirinhos e o Núcleo de Necessidade Educativas Especiais do Agrupamento de Escolas de S. Pedro da Cova”, esclarece a sampedrense. Matilde tem preparado para as marchas música e letras originais, tudo baseado num mote: “a freguesia inclusiva”. “O mote da marcha de rua vai ser feito com letra e música originais e queremos recuperar as tradições. A música e a letra falam-nos de S. Pedro da Cova como uma freguesia inclusiva, uma vez que temos pessoas que vêm de vários lugares da freguesia. Temos elementos de todas as idades. Somos cerca de 60 pessoas. Vamos tentar incluir pessoas com deficiência, acompanhados. Temos também crianças, adultos e alguns elementos da terceira idade”, explica a presidente da Associação Social de Silveirinhos. No que diz respeito às despesas, Matilde Monteiro confessa que “esta iniciativa está a ser mais dispendiosa” do que esperavam. “Mas está relacionado com a escolha que fizemos para os materiais. O envolvimento das pessoas vem do gosto que têm pela própria freguesia. O presidente de Junta também envolve a comunidade nestas iniciativas e a comunidade quer o regresso das marchas populares”, conclui.

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