Entrevista a Jaime Martins: “As Águas de Gondomar preocupam-se em resolver os problemas o mais rapidamente possível”

Jaime Martins, diretor-geral da Águas de Gondomar

Jaime Martins é diretor-geral da AdG desde 2011 / Foto: Pedro Santos Ferreira

Jaime Martins é desde 2011 o diretor-geral da empresa Águas de Gondomar, SA, (AdG) concessionária responsável pelo fornecimento de água e saneamento no concelho. Em entrevista ao Vivacidade, Jaime Martins assume que há margem para melhorar o trabalho da empresa e esclarece diferentes casos relacionados com a AdG.

A queda da ponte velha de Foz do Sousa é o caso mais recente a envolver a ação da empresa Águas de Gondomar (AdG). Após a cedência do pilar da travessia o coletor público de saneamento da AdG foi afetado. Que consequências teve para os clientes afetados e para o rio Sousa?
Jaime Martins (JM) – Em tempos, em conjunto com a Câmara Municipal, já tínhamos abordado este assunto. A empresa ia monitorizando o nosso coletor e o que aconteceu foi que à medida que íamos fazendo esse controlo, percebemos também que o pilar estava a ceder e começamos a preparar uma solução definitiva, que ia ser feita para podermos desativar aquele coletor. A intempérie precipitou esta situação, a ponte caiu e ao cair pôs o coletor em descarga direta para o rio Sousa.
No entanto, a água proveniente do saneamento estava já diluída dentro do coletor e o nosso procedimento de emergência permitiu-nos resolver rapidamente o problema. Face ao caudal do rio estamos a falar de um impacto nulo.
Contudo, a água já passa pela ponte nova e esse coletor serve ainda poucos clientes. Naquela zona temos um potencial de 400 clientes e neste momento ainda não estão todos ligados à rede de saneamento. Só cerca de 180 pessoas é que estão ligadas. Estamos a falar de clientes de uma zona rural com caudais diminutos.

Neste momento está implementada a solução provisória que garante o escoamento dos efluentes através da conduta elevatória da nova ponte de Foz do Sousa. Quando é que essa solução passará de provisória a definitiva?
JM – Há uma solução definitiva que estava prevista implementar. Já foi comunicada à Câmara Municipal de Gondomar e à Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Norte e está em processo de licenciamento.

O que está previsto nessa solução definitiva?
JM – Estamos a falar de uma solução que tem que ser planeada com antecedência porque a tubagem existente é muito específica e só pode ser fabricada por encomenda. É um grande investimento e neste momento a solução está à espera da aprovação.

Quanto tempo poderá demorar esse processo?
JM – A nossa expectativa é que demore cerca de três meses a ficar resolvido de forma definitiva. É uma obra específica que precisa de técnica e de materiais próprios.

Desde que assumiu o cargo de diretor geral da empresa quais foram as prioridades que definiu?
JM – A empresa tinha já uma estratégia definida. O meu antecessor implementou essa política e, no meu primeiro ano, dei continuidade a esse percurso. Estávamos a trabalhar na certificação da qualidade da água e à medida que fomos avançando comecei a adequar a empresa à minha estratégia.

Começa a dar o seu cunho pessoal à empresa em 2012?
JM – Sim, no primeiro ano houve uma continuidade com o que estava definido. No segundo ano estudei a estratégia da empresa e das linhas estratégicas e fiz algumas adaptações.

O que falta cumprir?
JM – Gostava de uniformizar a empresa. É muito difícil gerir uma empresa com a dimensão da AdG tendo dois locais distintos – sede e parque operacional. Trabalhamos muito bem mas dávamos um passo enorme se estivéssemos todos unidos.

Esse objetivo é concretizável?
JM – Julgo que sim. Os acionistas e a autarquia têm essa noção.

Há financiamento previsto para essa uniformização?
JM – Não está prevista a construção de uma nova sede. Tem que haver primeiro um acordo entre as partes.

O atual edifício da empresa dá resposta a todas as necessidades da empresa?
JM – Tem que dar. Quando cheguei haviam condições de trabalho que não satisfaziam os requisitos e procurei dar condições dignas quer aos utentes quer aos funcionários. O atendimento ao público foi uma das nossas prioridades. Ainda assim, reconheço que existem algumas limitações físicas mas não as conseguimos suprir por falta de espaço.

Atendimento Águas de Gondomar

O atendimento ao cliente está disponível até às 19h30, todas as segundas / Foto: Pedro Santos Ferreira

Recentemente a empresa tem garantido um conjunto de certificações no que diz respeito à qualidade da água. Esse objetivo está concluído?
JM – Obtivemos o certificado da qualidade da água em 2013 e estamos a preparar-nos para pedir a certificação ambiental e a certificação de segurança. É um processo que implica uma mudança interna mas queremos garantir essa certificação integrada.

Em Gondomar é seguro beber água da torneira?
JM – A água é 100% segura. No nosso site estão disponíveis as análises diárias à água.

Em relação às perdas de água, o que está a ser feito pela empresa?
JM – Creio que atingimos um patamar de excelência. Queremos continuar a reduzir mas estamos com cerca de 15% de perdas de água, há três anos consecutivos, e o nível de referência é de cerca de 20%. Em 2009, a AdG tinha 35% de perdas de água, ou seja, 35% da água que comprávamos era desperdiçada. Neste momento estamos no top cinco nacional.

É possível melhorar este indicador?
JM – Admito que sim.

Em maio de 2015, um estudo da DECO colocou Gondomar entre os 10 municípios com a fatura de água mais elevada. Como é que explica os valores cobrados pela empresa?
JM – A empresa funciona com um projeto financeiro que foi instituído com os pressupostos traçados em 2001. No entanto, em 2001 julgava-se que Gondomar ia ter um grande crescimento e as previsões macroeconómicas da altura não se confirmaram. Houve, por isso, necessidade de ajustar um reequilíbrio em 2009 e em 2012 porque esses pressupostos não se verificaram. O preço da água está definido desde o início. A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) regula o setor e está a preparar um regulamento do tarifário da água para ser uniformizado a nível nacional. Este ano já procedemos a uma alteração em função da indicação da ERSAR. A empresa não pode aumentar significativamente o preço da água, no entanto, o tratamento tem o seu custo.

Uma das medidas mais recentes é também o alargamento do horário de atendimento geral e pagamentos às segundas-feiras, que passou a estar disponível aos clientes até às 19h30. Foi uma iniciativa importante para a empresa?
JM – Essa medida foi dirigida às pessoas que têm vidas mais ocupadas. Muitas vezes era quase impossível vir aqui pagar a fatura e nós queremos que as pessoas acreditem em nós e na nossa prestação de serviço. Outro serviço que nos diferencia são as nossas marcações. Se dizemos ao cliente que aparecemos às 11 horas, às 11 horas estamos no local. Abrimos a água instantaneamente ao sábado e ao domingo, após a regularização do pagamento. Vamos também lançar uma aplicação para smartphone que vai dar ao cliente toda a informação sobre a sua conta: horários, alertas, leituras, ver os consumos, entre outras opções.

Qual é a data prevista para o lançamento dessa aplicação?
JM – O lançamento estava previsto para janeiro de 2016 mas não foi possível. Queremos lançar o aplicativo o mais rapidamente possível. É mais uma forma de prestarmos um bom serviço ao cliente.

Qual é o estado da relação da empresa Águas de Gondomar com a Câmara Municipal de Gondomar?JM – Tive uma excelente relação com o executivo anterior e tenho também com o executivo atual. Este executivo é mais ativo e reporta todos os casos que estão mal.

Existe, portanto, uma parceria mais ativa?
JM – Sim, e isso é importante para nós. Somos os primeiros a agradecer que nos reportem e façam fiscalização. A fiscalização não nos incomoda. Temos uma boa relação com o Município, com a ERSAR e até com a DECO.

Por norma, dão resposta às reclamações dos clientes?
JM – Esse é um dos aspetos mais importantes. Temos uma média de prazo de resposta de 10 dias úteis ao cliente. Nenhum utente fica sem resposta.

A construção de um novo intercetor do Rio Tinto para a ETAR do Meiral é uma solução para a despoluição do rio?
JM – Solução? Quando cheguei a ETAR do Meiral tinha um passivo grande e a estação estava em incumprimento dos requisitos ambientais. O equipamento era topo de gama em 1982 mas hoje já não o é. Foram investidos cerca de quatro milhões de euros e a ETAR está novamente com tecnologia de ponta. Este investimento resulta de um projeto cofinanciado no âmbito do POVT/QREN. A ETAR cumpre na totalidade todos os requisitos legais e isso desmistifica a questão da poluição do rio Tinto. Cumprimos o que nos é pedido e, por vezes, chegamos a ter melhores resultados do que a ETAR do Freixo.

Nega, portanto, a existência de um problema de poluição no rio Tinto…
JM – Até aqui dizia-se que o problema era esse, depois passou a ser a dimensão da carga hidráulica…  Nunca estamos satisfeitos.

A medida encontrada em parceria pelos municípios de Gondomar e do Porto parece-lhe positiva?
JM – Sim, de resto vai de encontro ao que tinha sugerido aos autarcas. O que vai acontecer é que o caudal proveniente da ETAR do Meiral vai ser desviado para a ETAR do Freixo, devidamente tratado, e descarregado no rio Douro, em vez de ser descarregado no rio Tinto.

Havia então um problema por corrigir?
JM – São opiniões… Julgo que essa era uma falsa questão.

Considera que a AdG esteve envolvida neste processo?
JM – Claro que sim. Esta ideia foi desenvolvida em conjunto com a Câmara de Gondomar. Os projetos desenvolvem-se em parcerias e estivemos envolvidos.

Em dezembro de 2014, a empresa cobrou taxas de licenciamento a cerca de 600 clientes em Foz do Sousa. O pagamento dessas taxas está totalmente liquidado?
JM – O que fizemos, junto da Câmara Municipal de Gondomar, foi ceder a um pagamento em 72 prestações. Contudo, no nosso regulamento está prevista a cobrança em apenas 48 prestações. Essas pessoas estão a pagar entre 30 a 40 euros por mês e temos 80% das taxas liquidadas.

Os restantes 20% não querem pagar?
JM – Não, porque entendem que têm direito a não pagar.

O presidente da União de Freguesias de Melres e Medas, José Andrade, assumiu como compromisso eleitoral a rede de saneamento integral naquele território até 2017. Será possível cumprir esse objetivo?
JM – Nós temos um compromisso e temos que prestar contas à concedente – Câmara Municipal de Gondomar. Todos os meses há uma reunião de acompanhamento da concessão onde são aflorados os assuntos mais pertinentes e no nosso plano de investimentos está previsto que o saneamento no plano de investimentos ficasse concluído até ao final deste ano. A consulta está feita e o concurso vai sair em breve. A ideia é que até ao final do ano o processo seja executado. Esse assunto está a ser tratado com a autarquia.

Porque é que só agora é que foi possível realizar este investimento?
JM – O PDM anterior colocava-nos sérias dificuldades de construção e negociação dos terrenos. Essas dificuldades estão a ser ultrapassadas com o apoio do Município e há o compromisso de concluir esse processo até ao final de 2016.

As reparações nas ruas e a má repavimentação da empresa motivam várias queixas dos gondomarenses. É possível melhorar este procedimento?
JM – A AdG preocupa-se em resolver os problemas o mais rapidamente possível. Por vezes é fácil dizer que a culpa é nossa. Quando assumi funções tinha uma ameaça da Estradas de Portugal (EP) e as relações entre a empresa e a EP eram péssimas. Essa situação foi resolvida e temos vindo a cumprir cada vez mais com as repavimentações. Neste momento temos um prazo máximo de quatro dias úteis. Percebo que as pessoas não gostem de ver um buraco tapado com cubos mas muitas vezes também é fácil chutar para nós.

Quantas repavimentações realizam por ano?
JM
– Milhares de repavimentações.

A AdG tem uma equipa capaz de dar resposta às exigências dos gondomarenses?
JM – A equipa com quem trabalho é muito capaz. Estão todos focados na empresa e lutamos todos pelo mesmo objetivo. Tenho funcionários fenomenais e equipas dedicadas.

Vai para casa todos os dias de consciência tranquila?
JM – Vou, mas muito tarde [risos]. Saio todos os dias às 21, 22 horas. Acho que podemos fazer melhor mas tenho noção que estamos sempre a procurar essa possibilidade.

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