Fernando Leite: “Até 2020 queremos triplicar a recolha porta a porta em Gondomar”

Entrevista Fernando Leite - setembro 2016

Fernando Leite, administrador delegado da Lipor / Foto: Pedro Santos Ferreira

Licenciado em economia pela Faculdade de Economia do Porto, Fernando Leite, assumiu funções na Lipor, em 1982, e tornou-se administrador delegado da Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, em 1999. Hoje, a Lipor é responsável pelo tratamento dos resíduos urbanos (RU) de oito municípios e trata, anualmente, cerca de 500 mil toneladas de RU produzidas por cerca de um milhão de habitantes. 

Como era a Lipor quando assumiu funções, em 1999?
Este espaço era de uma sociedade privada e na altura o Governo, a pedido dos municípios associados, resolveu comprar o terreno com a condição de entregar imediatamente a quem quisesse explorar o sistema de reciclagem. Na altura, os cinco municípios iniciais – Espinho, Gondomar, Maia, Porto e Valongo – aceitaram o desafio. Mais tarde entraram os Municípios de Matosinhos e Vila do Conde. Em 2000 entrou a Póvoa de Varzim.

Quais foram os seus objetivos iniciais?
Quando assumi funções foi crucial resolver os principais problemas das instalações. Entre nós costumamos dizer que a Lipor tem uma fase antes do ano 2000 e outra posterior. A mudança do conceito da Lipor deu-se com a criação da fábrica da Maia, quando conseguimos ter capacidade para dar resposta às cerca de 1200 toneladas diárias. Até esse momento não conseguíamos dar resposta e o grande afetado era Gondomar, porque existia em Baguim do Monte um Aterro Sanitário, que fechou em 2001.

Este projeto só seria possível com o apoio dos municípios?
Julgo que foi positiva a decisão dos municípios, em 1982, de assumirem a gestão da Lipor. O trabalho que foi feito pelas Câmaras Municipais foi muito apropriado e com uma grande preparação. Soubemos aguardar por uma oportunidade comunitária, que surgiu em 1986, com a adesão à União Europeia. Quando aparece essa oportunidade os projetos já estavam todos preparados e foi uma questão que mereceu a nossa prioridade.

O que considerou prioritário corrigir?
Gondomar e Valongo foram concelhos sacrificados numa fase inicial. Foi necessário concretizar uma mudança e optou-se por deslocalizar a nossa fábrica para a Maia, na fronteira com Matosinhos. O pior de tudo eram os aterros. Com 1000 toneladas de resíduos era impossível conter o mau cheiro, as gaivotas e outros problemas que daí poderiam advir.
Neste espaço [Baguim do Monte], construímos a primeira fábrica, em 1999, a segunda, em 2005, e fomos fechando os antigos aterros (Póvoa, Baguim…).

O fecho do Aterro Sanitário de Baguim deu origem ao Parque Aventura…
… que é um sucesso. No último fim de semana tivemos 1100 pessoas aqui dentro. É um parque gratuito, com muitas valências e que permitiu-nos fazer a ligação ao rio Tinto. A obra ainda é pequenina mas dá-nos boas indicações do que pode ser feito.

Na sua opinião, quais são os atrativos do Parque Aventura?
É uma infraestrutura completamente gratuita. Além disso, há um conjunto de programas de atividades que dinamizam o espaço em permanência. No próximo ano queremos intensificar a ligação ao Parque Aventura e o objetivo é aumentarmos as iniciativas todos os anos.

Podemos esperar novidades para aquele espaço, em 2017?
No próximo ano vamos ter sessões de cinema ao ar livre, num estilo “drive in”. Vamos também melhorar a oferta desportiva do espaço. Todos os anos a administração vê com agrado o investimento no Parque Aventura porque temos cerca de 40 mil visitantes por ano.

Contudo, a abertura do Parque Aventura é sazonal [maio a setembro]. O espaço poderá ser rentabilizado durante o ano inteiro?
Sim, estamos a pensar numa forma de rentabilizar o espaço durante o ano, porque existem condições para isso.

Falemos de Gondomar. Na sua opinião, o que falta fazer no concelho?
Estamos muito agradados com o esforço de Gondomar, com as equipas do Município e com o apoio do presidente Marco Martins. Esperamos que Gondomar dê um grande salto, no que toca à reciclagem, porque tem muita população e é o local onde estamos sediados.

No entanto, ainda há metas que ficam aquém da capacidade do Município…
Diria que ainda precisamos de fazer mais no que toca à separação de resíduos e respetiva reciclagem. Temos públicos que ainda não conseguimos conquistar e sabemos que as novas gerações estão mais preparadas para o conceito de reciclagem, mas os jovens de 14 anos estão numa realidade diferente, que procura uma linguagem provocatória, uma troca ou uma discussão. Estamos a trabalhar para conquistar essas faixas etárias.

O que está a ser feito para mudar essa realidade no concelho?
Está a ser feito um grande trabalho. Estamos a começar pelos comerciantes e vamos intensificar os ecopontos nas zonas que não têm possibilidade de ter o serviço de recolha porta a porta. Até 2020 queremos triplicar a recolha porta a porta em Gondomar.

A estratégia para as zonas urbanas difere do Alto Concelho?
As zonas mais urbanas merecem prioridade, mas queremos intensificar os ecopontos nas zonas rurais. Estamos a ponderar a possibilidade de criar brigadas de reciclagem nas zonas do Alto Concelho.

A mudança do executivo foi positiva para atingir melhores resultados na separação e reciclagem de resíduos?
Este executivo é composto por pessoas com sensibilidade ambiental. Sem desprimor para quem antecedeu este executivo, mas julgo que agora há mais sensibilidade para os problemas locais. Estamos muito satisfeitos.

As Festas do Concelho vão merecer uma atenção especial da Lipor?
Temos um projeto piloto que vai ser testado na Romaria do Rosário. Vamos procurar aproveitar as festividades para incentivar os romeiros, comerciantes e os gondomarenses a separarem os resíduos. Isto vai ser feito através de um contentor específico para as Festas e por cada quilo de material depositado vamos doar um valor aos bombeiros do concelho.
No próximo ano, todas as festividades vão ter um contentor semelhante.

A grande luta da Lipor é a mudança de mentalidade, no que diz respeito à reciclagem?
Os projetos de mudanças de comportamentos são muito importantes para nós. Felizmente as pessoas aderem a esses projetos porque reconhecem a necessidade de reciclar e de reaproveitar materiais.
Nesta fábrica procuramos dar o exemplo das hortas sustentáveis, ensinamos a separar os resíduos e convidamos as pessoas a virem reciclar connosco.

O papel social da Lipor tem sido reconhecido no estrangeiro. Esse trabalho começa em Gondomar?
Temos procurado olhar para a comunidade envolvente. Por exemplo, vamos reformular o nosso auditório e vamos ceder os materiais que temos a uma Junta de Gondomar, que os irá reaproveitar.
Termos essa noção de responsabilidade social é importante pelo cariz público do projeto. Temos um relacionamento próximo com as edilidades, associações de moradores, clubes desportivos e toda a sociedade.

Quais são os próximos objetivos da Lipor?
Vamos começar a investir cerca de cinco milhões de euros em cada município em equipamentos de recolha porta a porta, ecopontos, camiões e novas campanhas de sensibilização.

, , ,