Francisco Assis: “Nunca aceitei que a militância partidária significasse o culto dum certo acriticismo”

> Francisco Assis

Começou cedo na política, logo com 25 anos assumiu a presidência duma Câmara Municipal (Amarante, sua terra natal), e também tão cedo – em 2019 – deixou os cargos políticos. Isto reflete, como muitos portugueses, a desilusão pela política ou é uma consequência infeliz de ser um crítico das Geringonças I. e II.?

É evidente que o não me convidarem para ser de novo deputado do parlamento europeu foi uma decisão política e que eu respeito absolutamente. Também tinha sido política a decisão de me terem convidado, há 6 anos atrás. Eu vejo isto com normalidade. Na verdade, desempenhei várias funções políticas ao longo da vida, durante 30 anos. É natural que haja um momento em que esteja fora da vida política ativa que, aliás, para mim está a ser muito interessante. É uma grande vantagem nisso: temos uma visão mais alargada e tendencialmente mais lúcida da sociedade. 

Porém, passando a expressão, ao ser uma “carta fora do baralho” não faz com que se sinta menos fervoroso politicamente?

Sou um militante do Partido Socialista, mas o meu grau de compromisso com a atual direção do PS é completamente distinto do que tive com direções políticas anteriores. Há, de facto, divergências muito grandes que tiveram na base desse meu afastamento. São divergências reais e que eu sempre tornei públicas, nunca as escondi. É verdade que há, hoje, uma maioria grande do PS que sustenta a atual direção, as suas linhas de orientação e as suas opções políticas. Eu estou numa posição diferente, mas há princípios fundamentais que nos aproximam.

Sente-se sozinho nessas divergências?

A minha posição é relativamente isolada, isso eu sinto. Mas convivo bem com isso. Quando se está na vida política temos de ter a disponibilidade de princípio para, em determinados momentos, estarmos sozinhos. Eu nunca funcionei numa lógica de refém, nunca aceitei que a militância partidária significasse o culto dum certo acriticismo político, doutrinário e mental. Portanto, quem entende a política como eu entendo, tem de em certas circunstâncias aceitar ficar sozinho. Isso tem-me acontecido nos últimos anos, mas é uma contingência que tenho de saber enfrentar e gerir. Não tenho nenhum problema com o que se está a passar. Quando saí da política verifiquei que havia muitas coisas que tinham ficado para trás por causa da política e que era possível agora recuperá-las. E é isso que estou a tentar fazer, por isso não estou nada perturbado. Estaria perturbado se tivesse renegado a mim próprio com o meu intuito de ocupar funções políticas neste momento.

E com isso não temeu, nem teme, a poder ser convidado a sair da militância partidária?

Não. Eu distingo os planos. Eu tenho um bom relacionamento pessoal com as pessoas de ligação direta ao PS, desde o secretário-geral. Não tenho nenhum problema pessoal com o António Costa, bem pelo contrário. Eu compreendo e ele compreenderá, certamente, a mesma coisa. São divergências apenas políticas, por isso nunca me convidaram direta ou indiretamente a abandonar o PS. Pelo contrário, até tenho tido sinais de estima e consideração de pessoas com posições internas totalmente diferentes das minhas.

Agora com o devido distanciamento e outra visão perante os factos, sem pressões, considera que há alguma medida / decisão antes tomada que tenha sido errada? Que faria atualmente de outra maneira?

Há sempre coisas de que temos dúvidas, mas não tenho nada em concreto. Em primeiro lugar, devo dizer que toda a decisão se toma sempre com alguma dúvida. Mas, depois, a decisão tem de ser tomada, não se pode deixar de a tomar! Não tenho nenhum arrependimento de fundo relativamente a nada que tenha feito. Devemos perceber que tomamos, muitas vezes, decisões em função do conhecimento que temos naquelas circunstâncias. No tempo posterior acabamos por fazer uma avaliação do que fizemos. Diria que é uma lucidez do dia seguinte. Mas é uma lucidez inaplicável face à vida política, porque esta exige um tempo de resposta muito rápido que não se compadece, muitas vezes, com um tempo mais longo, que é o da reflexão. Hoje tenho muito mais tempo para ler, para refletir, para educar o meu próprio pensamento, para apreciar com distância os acontecimentos. Este é também um ganho de lucidez de alguém que não tem de tomar qualquer decisão política. Daí achar importante que os políticos, em alguns momentos, estejam fora da vida política. Porque a vida política é mesmo muito pressionante e não pode ser de outra forma!

No corrente mês foi orador numa formação de docentes de EMRC / Porto, em que destacou que há já 85 anos havia uma crise existencial do projeto europeu, como se verifica aliás no livro de 1935 dum filósofo alemão, apontando o perigo do cansaço. Como é possível, passado tanto tempo, não perdermos esse cansaço permanente?

Felizmente não foi permanente, houve momentos de grande criatividade. O Husserl escreveu isso e, de facto, tinha razão, com as primeira e segunda guerras mundiais. Mas a Europa teve e tem momentos entusiasmantes. A Europa viveu sempre entre crise e criatividade. E conseguiu quase sempre superar as dificuldades do seu percurso histórico. Eu não tenho qualquer visão negativa nem pessimista do projeto europeu. Olho com otimismo para o futuro, mas um otimismo que tem sempre algum elemento de angústia, como não pode deixar de ser quanto a tudo o que é obra humana.

Mas, havendo essa construção otimista, como é possível não se ter mantido essa positividade e ter-se voltado a uma crise esquecendo-se as bases?

A base mantém-se e as crises fazem parte das sociedades. Não há pessoa sem crise, não há Europa sem crise, não há sociedades sem crise. A crise é um elemento constitutivo da própria humanidade. Pensar o contrário são utopias que se tentaram concretizar e que falharam redondamente. Nós temos é de saber lidar com as crises, resolvê-las, antecipa-las quanto possível e evitar as que são evitáveis. Perante esta grande crise económico-financeira, chamada da divida soberana, e com o euro ainda não robustecido, a verdade é que a Europa soube reagir.

 

E não o assusta, nestas grandes crises históricas, manter-se a montanha de ditadores – e surgimento de novos – versus a planície democrática. Depois de há umas décadas termos tido alguns deles, devido à falsa participação dos cidadãos que ao absterem-se criaram espaço para monopólios de poder, não estamos outra vez a subir essa montanha com taxas abstencionistas elevadíssimas?

Não. Há uns riscos, mas não é assim tão evidente. Na Europa e na União Europeia não há nenhum regime ditatorial. Há um ou outro regime que coloca reservas e dúvidas…

Ao referirmo-nos a ditaduras também integramos extremismos…

Mas os extremismos não ganharam ainda, vamos lá ver! Há, de facto, posições extremistas, mas não obtiveram grandes vitórias eleitorais. Não é um quadro real, por isso acho que estamos a dramatizar excessivamente essa questão. No mundo nunca existiram tantas democracias como o tempo atual: não houve um retrocesso, houve um avanço. Há várias civilizações que evoluíram, democráticas, mais ou menos amadurecidas. Tenho uma visão positiva, embora haja razões para preocupação até porque o sistema democrático é frágil e tem que ser devidamente preservado. Não estamos perante um declínio das democracias, longe disso.

 

Partilha da ideia que hoje fala-se muito de ética e pouco de moral, por haver um deficit de pensamento moral na Europa. Como contrariar isto e voltar a pôr a moral no seu sítio?

Julgo que temos de voltar às discussões de natureza moral e isso acabará por ser a tendência duma sociedade que vive essa carência. Quando temos hoje questões tão importantes como as da bioética, da inteligência artificial, questões que alteram o próprio comportamento humano, da relação humana com a natureza e muitas outras questões – que começam a surgir com uma premência extrema –, eu creio que as próprias sociedades sentirão a necessidade de uma reflexão moral, para a qual poderão chegar por várias vias, muito mais intensa do que aquela que tem prosseguido nas últimas décadas. 

 

Olhando para Gondomar e concretamente para a falta do metro no centro da cidade e para o facto de ainda não terem sido retirados totalmente os resíduos tóxicos em S. Pedro da Cova, considera que ambos os casos se devem a falta de vontade política?

Eu não conheço bem essas situações. O metro de Gondomar é um velho tema e obviamente penso que é importante, dada a ligação e inserção de Gondomar na área metropolitana do Porto. Quanto aos resíduos em S. Pedro da Cova, vou acompanhando pelos jornais mas não sei em pormenor para me poder pronunciar sobre o assunto.

 

De que modo vê a mudança neste município após 20 anos de presidência de Valentim Loureiro e os últimos 6 de Marco Martins? Gondomar está melhor ou pior?

Eu sinto que são momentos diferentes, com lideranças distintas. Mas o Marco Martins, a meu ver, tem sido um bom presidente da Câmara. Conheço-o há muitos anos: é uma pessoa pela qual tenho muita estima e amizade, até. Tivemos várias disputas internas, em que estivemos juntos, e para mim tem sido um político muito capaz, com um estilo muito próprio, mantendo sempre uma grande humildade e uma grande proximidade com as pessoas. O que é uma função dos presidentes das câmaras e, por isso, tornou-se uma figura referencial na atividade autárquica na área metropolitana do Porto. Acho que os cidadãos estão muito satisfeitos, pelo menos os que votaram nele. Portanto, ele é um homem com tributos morais, de grandes combates, sério e com coragem, por quem tenho um grande apreço.

À parte da amizade pessoal que tem com Marco Martins, e da filiação partidária em comum, entende que ele deve recandidatar-se em 2021?

Eu espero que ele se recandidate. Estou convencido que se vai recandidatar e tenho a convicção plena de que vai ganhar! ■

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