Francisco Louçã e Marco Martins debateram Abril em Gramido

Marco Martins e Francisco Louçã em debate na Casa Branca de Gramido / Foto: Direitos Reservados

Marco Martins e Francisco Louçã em debate na Casa Branca de Gramido / Foto: Direitos Reservados

Contra as “ditaduras financeiras” da Europa, contra a “errada política de refugiados” e, até, contra “uma justiça ‘feita’ nas primeiras páginas dos jornais”, Francisco Louçã foi o convidado das “Conversas de Abril”, iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Gondomar.

A “Revolução dos Cravos” faz já parte do passado, mas há sempre novas conquistas a atingir, disse Francisco Louçã, defendendo que deveremos ser um país com mais memória…

Francisco Louçã foi o convidado de mais uma “Conversa de Abril”. O conhecido político, professor e comentador esteve na Casa Branca de Gramido naquela que foi a segunda conversa de um ciclo que já se realiza pelo terceiro ano consecutivo.

Este ciclo de conferências, promovido pela Câmara de Gondomar, trouxe, na presente edição, os depoimentos e as vivências de Joaquim Furtado (4 de abril), Francisco Louçã (11 de abril) e de Fernando Alvim (18 de abril).

Luís Filipe Araújo, vice-presidente da Câmara Municipal de Gondomar, destacou o facto de, com estas “conversas”, se pretender dar a conhecer as opiniões e experiências de várias pessoas, de diferentes quadrantes políticos e com distinta intervenção cívica. “São conversas que servem para refletir e para se fazer um balanço das conquistas de Abril”, disse Luís Filipe Araújo. Conquistas que, realçou, “não devem ser esquecidas”.

E precisamente para evitar tal esquecimento, na “Conversa” de 11 de abril juntaram as opiniões de Francisco Louçã e de Marco Martins, presidente da Câmara Municipal de Gondomar – que, em solução de recurso, supriu a ausência da presença anunciada de Pedro Marques Lopes (que faltou por questões pessoais).

Nascido em Lisboa, economista de formação, Francisco Louçã foi deputado, elemento ativo do Bloco de Esquerda e é professor de Economia na Universidade de Lisboa. Autor de vários livros, a sua mais recente (e notória) intervenção pública tem sido feita enquanto comentador televisivo. E, mais recentemente, como membro do Conselho de Estado.

Numa palestra que “passeou” por quase todo o mundo – abordando assuntos tão distintos como a “Revolução dos Cravos”, o “impeachment” no Brasil, a situação dos refugiados, as imposições económicas da Troika ou, até, a Sísifo e a Mitologia Grega –, Francisco Louçã proporcionou uma verdadeira aula de História.

Na Mitologia Grega, Sísifo, pastor de ovelhas, era considerado o mais astucioso entre todos os mortais. Naquelas histórias com mais capítulos que qualquer das melhores novelas, Sísifo é “condenado” a empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha. Só que, previsivelmente, e como castigo por querer enganar os deuses (e a morte), a pedra voltava a rolar e regressava à base. E Sísifo, mais uma vez, tinha que repetir a tarefa. Eternamente…

Foi este o mito que Francisco Louçã usou para retratar a situação de Portugal. E, em paralelo, considerar que as conquistas de Abril se devem atingir de forma repetida. Com esforço. Tal como aconteceu com Sísifo.

“Para Sísifo o esforço era inútil… Acho que, para nós, não o é. São sempre novas conquistas que se alcançam!”, defendeu Francisco Louçã. “Somos um país com muito passado, mas com pouca memória”, afirmou Francisco Louçã, defendendo que “o mais interessante do 25 de abril de 1974 não foi o fim da ditadura mas, antes, a revolução que depois surgiu”. E, como exemplo, referiu a luta democrática que se espalhou por todo o país, passando pelas autarquias, escolas e fábricas.

Comparando as dificuldades da democracia a uma “simples” reunião de condóminos, o palestrante disse que “hoje ainda há muitas razões para haver revolta”. Admitindo a possibilidade, genericamente defendida, de Portugal ser “um país de gente pacífica”, Francisco Louçã deixou, ainda assim, um aviso: “Cuidado com o povo… Já fez uma revolução… Pode, até, vir a fazer outra.”

Marco Martins, Presidente da Câmara de Gondomar, não “viveu” a “Revolução dos Cravos”. Assim como Pedro Ferreira, jornalista do “Vivacidade” que moderou o debate. Mas, salientaram os dois, foi essa mudança que permitiu, agora, a realização destas conversas. E a participação de ambos nas mesmas…

“Gostava de ter vivido esses tempos. Não pelos sacrifícios impostos, mas pela vontade que, acredito, teria de lutar e combater contra o que considero injusto”, disse o presidente da Câmara de Gondomar. Marco Martins acredita que, precisamente pela idade, “cabe aos jovens terem ainda mais responsabilidade em defender e promover os valores do 25 de Abril”.

Dos muitos assuntos em que houve plena acordo entre os dois participantes na conversa, a (quase) única discordância centrou-se no voto. Marco Martins disse que o voto “deveria ser obrigatório”. Francisco Louçã considera que tal opção “não iria resolver os problemas”.

De resto, nas inúmeras questões já no final colocadas pelo público presente, ficaram as críticas de Francisco Louçã à “ditadura financeira” da Europa, à “errada política de refugiados” e, até, à situação da Justiça em Portugal. “Não concordo, de forma alguma, com uma justiça que, por vezes, é ‘feita’ nas primeiras páginas dos jornais”. É que, rematou, “o jornal ‘Correio da Manhã’ não pode ser o Supremo Tribunal de Justiça de Portugal…”

Nestas “Conversas de Abril” participaram, já, Otelo Saraiva de Carvalho, Marisa Matias, Gabriela Canavilhas, Ilda Figueiredo, Paulo Ferreira da Cunha, Francisco Assis, Nuno Morais Sarmento, Joana Amaral Dias, Rui Rio e Fernando Gomes.

Joaquim Furtado e Fernando Alvim completaram as “Conversas”

O jornalista Joaquim Furtado e o radialista Fernando Alvim completaram o painel de convidados da presente edição das “Conversas de Abril”. O primeiro passou pela Biblioteca Municipal de Gondomar e o segundo esteve no Centro Cultural de Rio Tinto.

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