Gondomar quer proteger arte da filigrana

Tradição da Filigrana - abril 2017

A filigrana gondomarense está prestes a ser certificada / Foto: Pedro Santos Ferreira

Estará a arte gondomarense em vias de extinção ou no rumo certo para enfrentar os novos desafios do setor da ourivesaria? O Vivacidade procurou descobrir a origem desta arte tradicional gondomarense, os seus produtores e as medidas que estão a ser tomadas pelo Município.

Com uma história secular ligada à arte do ouro, Gondomar é, por excelência, o berço da ourivesaria portuguesa. A consagração reside no saber herdado de geração em geração que, ano após ano, se materializa em peças de delicada beleza e sofisticação.

Nas mãos de cada artesão estão escritas as linhas de sabedoria, experiência e mestria. Um património cultural e humano que torna cada peça única e autêntica.

A origem histórica desta relação umbilical entre Gondomar e a ourivesaria tem ressonâncias históricas impressas na exploração das minas de ouro espalhadas nas serras de Pias e Banjas, tendo os fenícios introduzido as técnicas artesanais da filigrana na Península Ibérica, durante o século VIII A.C..

A partir da segunda metade do século XVIII, Gondomar começa a assumir-se como um dos núcleos mais importantes e prolíferos da ourivesaria portuguesa.

A filigrana – obra de ourivesaria formada de fios de ouro ou prata delicadamente entrelaçados e soldados – tem, contudo, um lugar especial na memória do concelho. Ainda hoje, a produção artesanal é praticada em oficinas de pequena escala, de cariz familiar.

Nos últimos anos, os artigos, produzidos em ouro ou prata, e os filigraneiros têm sofrido com a constante necessidade de modernização que tem vindo a transformar os processos e técnicas de trabalho.

Mas estará a produção artesanal ameaçada pela industrialização?

“A filigrana industrializada – vulgarmente conhecida por ‘filigrana injetada’ – veio prejudicar aqueles que conhecem verdadeiramente a arte de entrelaçar os fios”, começa por dizer António Cardoso, 59 anos.

Para o filigraneiro, que aprendeu a arte com apenas 7 anos, o futuro da filigrana poderá estar ameaçado pelos “processos industrializados” que têm “ameaçado os verdadeiros fabricantes”.

Ao nosso jornal, o ourives natural de Jovim recorda o “papel essencial” das ‘enchedeiras’, mulheres responsáveis pelo preenchimento das peças, que considera “estar em vias de extinção”.

“As ‘enchedeiras’ são um fenómeno tipicamente gondomarense e ainda hoje realizam grande parte do trabalho nas suas casas. Além disso, há cada vez menos mulheres a cumprir essa tarefa e esse conhecimento não tem passado de geração em geração. Sem as ‘enchedeiras’ o trabalho teria que ficar todo para o ourives e isso seria insuportável”, afirma António Cardoso.

Desta forma, na opinião do ourives, a escassez da aposta na formação de filigraneiros – protagonizada pelo CINDOR – Centro de Formação Profissional da Indústria de Ourivesaria e Relojoaria – e os preços praticados pelas contrastaria e Imprensa Nacional – Casa da Moeda são os principais entraves ao crescimento da filigrana.

Luís Fernando, 61 anos, está de acordo com o colega de profissão. “A falta de ‘enchedeiras’ está a tornar-se preocupante e resulta da fraca aposta na formação destas profissionais, que carregam o segredo desta arte”.

A ligação à filigrana surgiu aos oito anos de idade e a aprendizagem veio com a prática, “sempre na procura da inovação”. “Esta é uma arte que demora anos a aprender e é nas oficinas de pequena dimensão que se aprimora a técnica do entrelaçamento de fios, em ouro ou em prata”, diz o ourives da freguesia de Valbom.

O artífice lamenta o “encerramento de diversas oficinas e a perda de qualidade na produção dos artigos”, tendo, segundo Luís Fernando, a crise financeira afetado “sobretudo os produtores”. Há, contudo, segundo o ourives uma “luz ao fundo do túnel” registada pela “maior procura das peças de filigrana”.

Ao Vivacidade, Luís Fernando admite que “não abdica do processo artesanal”, que intitula de “verdadeira filigrana” em detrimento da “filigrana injetada por máquinas”.

Joaquim Sousa, 90 anos, proprietário da empresa J Monteiro de Sousa & Filhos, Lda, aprendeu a arte com o pai e trabalha desde os 10 anos com filigrana. Reconhece que “antigamente os trabalhos eram todos manuais”, mas vê com bons olhos a entrada das máquinas neste setor, medida já implementada na sua oficina.

“Sou do tempo em que fazíamos sapatos à mão, mas sei que hoje em dia as máquinas são capazes de produzir milhões de pares de sapatos por dia. A filigrana também teve que se adaptar às exigências do mercado”, comenta Joaquim Sousa.

O ourives revela que tem “dificuldades em fazer a distinção entre uma peça artesanal e uma peça industrial” e aponta o “grande investimento” como um entrave colocado a alguns colegas de profissão.

“Esta cada produz centenas de peças por dia e tem cerca de 30 funcionários. Se não tivéssemos processos industrializados não conseguiríamos satisfazer o número de encomendas que temos”, refere o filigraneiro.

Para Carlos Brás, vereador do Desenvolvimento Económico e Empreendedorismo, a tradição da filigrana é “o expoente máximo de Gondomar, aquele que torna único o concelho”.

O autarca tem, no exercício do seu cargo, procurado “inverter a tendência do desaparecimento desta arte” em Gondomar através de diversas medidas, desde 2013. “Percebemos que o desenvolvimento económico dos territórios deve ser feito graças aos seus recursos endógenos, ou seja, às suas potencialidades inerentes. Em Gondomar, o que nos identifica é a filigrana”, diz Carlos Brás.

O responsável político não esquece as ameaças que o setor enfrenta – filigrana industrial, produção em massa e elevada faixa etária dos filigraneiros -, no entanto, assegura, quer “dar projeção mediática, nacional e internacional, à filigrana” para atrair as gerações mais novas.

“Nesta arte, nenhuma das peças é igual à anterior porque este é um trabalho assumidamente artesanal. O Município acredita que a filigrana tem espaço no mercado de luxo e, por isso, temos desafiado os nossos ourives a produzir com qualidade”, conclui o autarca.

Certificação poderá garantir futuro da arte
O processo de certificação da filigrana, que alia os municípios de Gondomar e Póvoa de Lanhoso – principais produtores -, está em marcha.

Ao Vivacidade, Carlos Brás aponta o processo de certificação como um “passo decisivo” para os filigraneiros gondomarenses. “O caderno de especificações será muito minucioso e irá determinar a espessura, as especificações técnicas do fio, a área visível das peças, designações, tipos de preenchimento, tipos de armaduras, entre outros elementos dos artigos produzidos”, revela o autarca.

Neste contexto, a entrada em vigor da certificação da filigrana dará origem à marca “Filigrana de Portugal”, que marcará a etiqueta das peças artesanais.

“Provavelmente as pessoas não têm ideia da importância desta medida, mas daqui a uns anos terão. Depois de concluído este processo passará a existir apenas um tipo de filigrana em Portugal”, resume Carlos Brás. 

Caderno de especificações foi apresentado em Braga
A Adere-Minho – Associação para o Desenvolvimento Regional do Minho, em Braga, foi anfitriã do evento que juntou, no dia 8 de abril, os filigraneiros dos concelhos de Gondomar e Póvoa de Lanhoso.

A iniciativa teve como objetivo a apresentação da versão final do caderno de especificações que unificará a definição de filigrana, tendo sido este, um momento essencial no âmbito da certificação da marca “Filigrana de Portugal”. A “Filigrana de Portugal”, marca registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, será propriedade de ambos os municípios.

O caderno de especificações apresentado em Braga define as normas e trâmites a que a arte terá de obedecer, para ostentar o título “Filigrana de Portugal” e irá permitir uma utilização mais fidedigna e segura da filigrana nas mais variadas peças, desde a joalharia ao vestuário, à decoração e aos mais diversos artigos originais.

Certificação divide ourives
Questionado sobre o processo de certificação da filigrana, António Cardoso não hesita em aplaudir a medida. Para o filigraneiro, “a certificação vem separar a filigrana tradicional da filigrana industrializada” e vai servir para “proteger a tradição desta arte”.

Luís Fernando também partilha a satisfação com este processo intermunicipal, que considera “diferenciador”. “A certificação será a salvaguarda que tanto ambicionávamos”, refere o ourives.

Contudo, para Joaquim Sousa “os tempos são outros” e a filigrana “não pode estar exclusivamente veiculada à produção artesanal”.

A filigrana e a ourivesaria em Gondomar
Filigrana, do latim filiumm e granuum, consiste na arte de trabalhar com o fio. O nome, que significa literalmente “fio de grão”, deriva do efeito visual gerado pelo entrelaçamento dos fios utilizados na filigrana.

A indústria artesanal é praticada em oficinas de pequena escala onde os artesãos produzem artigos em ouro e prata, utilizando técnicas passadas de geração em geração. As oficinas artesanais são na sua maioria de escala familiar.

A ourivesaria em Gondomar regista cerca de 60% da produção nacional, sendo a principal atividade económica do concelho.

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