Histórias de Abril: em Gondomar há relatos da Revolução dos Cravos por contar

O Quartel do Carmo foi palco da Revolução / Foto: Direitos Reservados

O Quartel do Carmo foi palco da Revolução / Foto: Direitos Reservados

O 25 de Abril de 1974 mudou a vida dos portugueses. Trouxe liberdade, democracia e direitos, acabou com um regime ditatorial que vigorava há 41 anos, a Guerra do Ultramar e as prisões políticas. Mudou Portugal. Em Gondomar ainda há histórias por contar, de quem viu, apoiou e sentiu a Revolução dos Cravos. José Ricardo, Modesto Martins e Luiz Gonzaga fazem parte dessa lista de testemunhas e também eles são homens de Abril.

Em abril de 1974, dia 25, pelas 22h55, era transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa a primeira senha que colocava em marcha um grupo de militares que se opunham ao regime ditatorial do Estado Novo. “E depois do Adeus”, do músico Paulo de Carvalho, marcou o início da Revolução dos Cravos, “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso, confirmou o golpe, Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA) ao país e, ao final do dia, Marcello Caetano rendeu-se no Quartel do Carmo, em Lisboa.

Caía a ditadura, levantava-se a liberdade, festejada pelos portugueses, em Portugal e no mundo.

Hoje, 42 anos após a Revolução ainda há relatos por contar do Dia da Liberdade. Em Gondomar, o Vivacidade descobriu três testemunhas de Abril, três homens que discordaram do regime ditatorial, três vidas que mudaram com o movimento dos Capitães de Abril.

José Ricardo - Centro Social de Soutelo

José Ricardo, 65 anos / Foto: Pedro Santos Ferreira

“Havia um sentimento de incerteza no Largo do Carmo porque os militares não sabiam o que se estava a passar no resto do país”
Onde estava no 25 de Abril de 1974? “Estava lá, no Quartel do Carmo, em Lisboa”, responde José Ricardo. Nascido e criado em Coimbra, o atual coordenador-geral do Centro Social de Soutelo recorda o primeiro contacto com a “diferença de opinião”. Ainda adolescente viria a deparar-se com um cartaz afixado na aldeia onde morava, com as frases: “Salazar deve morrer. Não faz falta à Nação!”. “O autor da frase”, conta, “foi preso por ter na sua posse esse panfleto, mas, em sua defesa, disse ao juiz que tinha-se esquecido de pontuar o panfleto. Assim sendo, o que o panfleto devia dizer era: “Salazar deve morrer? Não, faz falta à Nação”. Para um miúdo de oito anos, como eu, este acontecimento permitiu-me perceber que existia a possibilidade de discordância e que era possível pensar de outra maneira”, lembra José Ricardo.

Por diversas circunstâncias da vida, mudou-se com a família para a Marinha Grande, Leiria, onde viria a formar-se. Aos 17 anos foi trabalhar para uma fábrica de plásticos e teve o primeiro contacto com a Juventude Operária Católica (JOC), organização que viria a integrar. “As reuniões da JOC partiam sempre da leitura de textos bíblicos. Isso deu-me oportunidade de contactar com outros membros da JOC que tinham mais experiência e ligação à célula nacional da organização, membros com uma maior consciência política e outro tipo de envolvência no próprio movimento. Foi aí que comecei a perceber que podíamos fazer reuniões de outra maneira, com a possibilidade de discutirmos problemas dos jovens operários, que era o nosso caso”, conta José Ricardo.

Mais tarde, em 1970, viria a dedicar-se à distribuição do jornal “Juventude Operária” nas fábricas locais. A distribuição valeu-lhe a primeira repreensão do patrão apesar de agir “sempre dentro do limite legal”. Em Portugal acentuava-se a ideia de liberdade, “sobretudo nos jovens”.

A Guerra do Ultramar não passou de uma ameaça e José Ricardo conseguiu “escapar” à mobilização para as ex-colónias portuguesas. “Era contra a Guerra. O meu pai possibilitou-me a capacidade de dar o salto para França, onde tinha família, mas não o fiz. Preferi ir para a tropa, dar o meu melhor e garantir a recruta em Portugal. Acabei por ficar nas Caldas da Rainha, mas fiz a especialidade na Póvoa de Varzim. Depois iria regressar a Lisboa, onde fiquei destacado perto da Direção-Geral da JOC”, diz ao nosso jornal.

“Na JOC tínhamos um grupo exclusivo de militares. A saída das Caldas da Rainha foi discutida num seminário, em Coimbra, entre o 16 de março e o 25 de abril de 1974. Sabíamos que algo ia acontecer depois disso, mas não sabíamos quando. Contudo, decidimos colaborar com o movimento de oposição”, recorda.

O que estava para acontecer, aconteceu, em Lisboa e no resto do país. No dia da Revolução dos Cravos, José Ricardo foi acordado pela mulher em sobressalto, estava a decorrer uma revolução, ouvira na rádio. “Vesti-me, formei um grupo de colegas da JOC e fui para o Largo do Carmo. Lá, havia um sentimento de incerteza porque os militares não sabiam o que se passava no resto do país”, começa por lembrar.

José Ricardo assistiu às movimentações, entradas e saídas do Quartel do Carmo, ao tiroteio ordenado por Salgueiro Maia e à saída de Marcello Caetano na chaimite, após entregar o poder aos generais Spínola e Costa Gomes.

Ainda hoje, em entrevista, José Ricardo emociona-se a recordar o momento histórico, a alegria da população, o entusiasmo nas ruas, a liberdade. “Sinto que dei a minha pequena contribuição para o 25 de Abril, através da JOC. Hoje, 42 anos depois, considero a educação uma das principais conquistas dessa data porque foi graças ao meu pai, que me possibilitou a oportunidade de estudar, que encontrei uma forma de ganhar consciência política”, conclui José Ricardo.

Modesto Martins - 25 de Abril

Modesto Martins, 80 anos / Foto : Pedro Santos Ferreira

“Fazia-me espécie não podermos falar em liberdade”
Modesto Martins estava em Porto Alexandre, atualmente designada Tômbua, Angola, no dia 25 de Abril de 1974. Apesar da distância as notícias da Revolução não tardaram a chegar e também nas ruas de Angola gritou-se liberdade.

Porém, o gondomarense de Melres, hoje com 80 anos, viveu 38 anos em ditadura, situação que não nega, nem esquece. “Vivemos uma ditadura de 40 anos e isso é inegável. A mim fazia-me espécie não podermos falar em liberdade. Eu era um jovem e não gostava de ser reprimido”, admite Modesto Martins.

Na memória está também um pequeno contributo para a campanha do General Humberto Delgado durante as eleições presidenciais de 1958. “Eu tinha 21 anos e já podia votar. Passei à porta da sede de candidatura do General Humberto Delgado, no Porto, e fui recebido por Mário Cal Brandão. Disse-lhe que em Melres quem mandava era o presidente da Junta e o padre da paróquia da freguesia. Ele respondeu-me que precisava de mais moços como eu, deu-me um cartão e enviou-me à procura do Albino Araújo. Foi dessa forma que tive uma procuração passada pelo General Humberto Delgado para ser delegado na mesa de voto no dia das eleições presidenciais”, recorda.

Na década de 60, o gondomarense mudou-se para Angola e foi “à procura de uma vida melhor”. Em Angola acompanhava as notícias de Portugal, mas só regressaria ao país em 1976, após o 25 de Abril. Ao Vivacidade, admite que nunca sentiu consequências da Guerra do Ultramar até “começar a ouvir tiros dos movimentos de libertação angolana”. No Dia da Liberdade veio para a rua festejar a queda do regime fascista.

A Revolução tornou-o um “retornado”, palavra que não gosta de utilizar por ter “uma conotação negativa”. “Acabei por deixar tudo em Angola e perdi o que tinha durante o processo de descolonização. Não choro o que perdi e festejei a Revolução. Era necessário impor a mudança, apesar de ter provocado algumas injustiças, sobretudo com os portugueses que estavam nas colónias”, afirma a testemunha de Abril.

Ao Vivacidade, Modesto Martins assume a data como um “momento marcante e inesquecível nas memórias de quem a viveu”.

“Nunca perdoarei à ditadura a ignorância em que me deixou até ao 25 de Abril”
Luiz Gonzaga veio de Bragança para Gondomar. Foi um dos fundadores do Centro Social de Soutelo e tinha 32 anos no 25 de Abril de 1974. “Em Bragança não se falava do Estado Novo nem do Salazar. A política não existia para os jovens de Bragança e era uma realidade muito distante. Nunca perdoarei à ditadura a ignorância em que me deixou até ao 25 de Abril. Contudo, o meu pai era um homem com intensa atividade associativa e isso deixou-me influências, nomeadamente institucionais”, afirma Gonzaga.

Entre 1966 e 1969 foi mobilizado para Moçambique, onde conheceu Salgueiro Maia, capitão de Abril. “Quando soube que ele tinha sido um dos principais responsáveis pela Revolução fiquei muito contente. Mais tarde transmitiu-me a ideia que não estava satisfeito com a forma como as coisas estavam a correr durante o PREC e afastou-se do mediatismo por opção própria. Era um homem com capacidade de liderança, bem formado e com uma grande componente social”, recorda Luiz Gonzaga.

“Nunca senti a influência da PIDE e nunca fui incomodado, no entanto, sabíamos que durante o Estado Novo mais de duas pessoas era ajuntamento e isso condicionava a nossa liberdade. A Revolução trouxe-nos liberdade e naquele dia nunca mais acabou a festa”, finaliza.

 

, , ,