Hugo Gilberto: “Se vamos falar de comunicação e de marca, a instituição que mais cresceu no nosso país e que se transformou num paradigma de comunicação é a Federação Portuguesa de Futebol”

Hugo Gilberto em Gramido, local que tanto aprecia / Foto: Tiago Santos Nogueira

Hugo Gilberto sonhara, desde muito novo, seguir uma carreira como jornalista. Agora, com 40 anos, é um dos maiores nomes do jornalismo português e revelou ao Vivacidade a importância da dedicação à causa, do conhecimento e da insatisfação permanente em relação a tudo. Com o nascimento dos filhos, a vida do estudioso gondomarense ficou bem mais difícil e, ao mesmo tempo, muito melhor.

Como surgiu a paixão pelo jornalismo?

Começou muito cedo. Lembro-me de um episódio que traduz isso mesmo, e a minha professora da escola primária, a Dona Celeste, também o diz. Na segunda classe, desenhei um boneco com um microfone e uma câmara de televisão no sítio onde perguntavam o que queríamos ser no futuro. No mínimo, há mais de 30 anos que existe isto na minha cabeça.

O que é que a experiência no jornalismo o fez aprender sobre a área que não sabia no início?

Uma coisa é querer ser, outra coisa é fazer. Não posso dizer que é extraordinariamente diferente daquilo que eu estava à espera. Cada um tem o seu caminho no jornalismo, onde existem mais ou menos oportunidades, dependendo do ‘timing’ e do órgão de comunicação. É certo que experimentar uma coisa dá sempre um olhar diferente daquilo que imaginávamos. Mas não vou dizer que a experiência do jornalismo me desiludiu, bem pelo contrário.

E quais são, para si, as principais características que um excelente jornalista deve ter?

Insatisfação permanente em relação a tudo, em particular em relação ao mundo. O rigor que deve colocar em tudo aquilo que faz. O conhecimento que deve ter, quer da sua área de trabalho, bem como atingir um largo espetro de saberes. E, claro, a criatividade.

E as suas qualidades enquanto jornalista?

Sou um pouco suspeito para falar sobre isso. Mas a dedicação diária à causa, a decência em tudo aquilo que faço e a independência são três qualidades que eu tenho a certeza que tenho. As outras já são mais subjetivas.

Como é ter o papel de mediador num tema que envolve tanta paixão como o futebol?

É difícil e é bom. Mas deixe-me dizer-lhe que quando eu comecei a fazer o Trio D’Ataque não havia mais nenhum programa com adeptos conhecidos de clubes de futebol. Dez anos depois existem quinze ou vinte réplicas do Trio d’Ataque em variadíssimos canais. Mas nenhum manteve o bom senso, o nível, a educação e o rigor como este. E isso é um crédito que se deve dar a todos aqueles que passaram por lá, incluindo o atual Presidente da República, que chegou a ser comentador algumas vezes como adepto do Braga, o Prémio Camões [Manuel António Pina] chegou, também, a ser comentador como adepto do Sporting, António-Pedro Vasconcelos, Rui Moreira, Rui Oliveira e Costa, João Gobern, Sérgio Godinho, Miguel Guedes, Jorge Gabriel e outros que posso não estar aqui a lembrar-me e que fizeram daquele programa um raro exemplo de como se pode discutir um assunto tão emocional e epidérmico de uma forma tão inteligente e elaborada.

O futuro da comunicação social preocupa-me, bem como o facto de um clube ser apenas analisado pela sua equipa de futebol. Não considera que deveríamos dar mais destaque a outras modalidades?

Concordo em parte com o que está a dizer. Mas depois tudo depende da forma como o público adere ou não às coisas. Temos imensas horas de desporto e uma hora e meia de Trio D’Ataque. São 700 horas de modalidades por ano na RTP. Todos os fins de semana temos magazines sobre variadíssimas modalidades. Mas o “Trio” sozinho acaba por ter mais gente a vê-lo do que uma série de programas. Temos centenas de horas de transmissões e resumos de jogos de outras modalidades.

Mas referia-me ao facto de não se impulsionar programas onde se fomente a discussão sobre outros desportos…

Mas existe discussão. Temos magazines onde se ouvem os protagonistas, os treinadores e onde se fala de outros desportos. O futebol foi eucalipto e tem culpa, mas existem outras modalidades – não todas, mas uma boa parte delas – que se deixaram levar. O desaproveitamento do hóquei em patins foi o maior exemplo disso. O hóquei foi, durante muitos anos, a segunda modalidade preferida dos portugueses. Lembro-me de fazer alguns jogos na RTP que tinham centenas de milhares de espetadores. Mas, depois, a Federação ou outras entidades, isso já não sei, foram deixando que a modalidade perdesse relevância.

Para além do futebol, aprecia outros desportos?

Sim, gosto muito de basquetebol. Também aprecio o surf que, ao contrário das outras modalidades, soube ganhar um espaço enorme em Portugal. Há 10 anos, não se falava de surf. Sendo que com a etapa portuguesa do circuito mundial de surf, com a ligação a Peniche e com as ondas da Nazaré, a modalidade foi crescendo. O surf percebeu os novos tempos e, desta forma, tenho um particular apreço por este desporto. Gosto igualmente dos Jogos Olímpicos, assim como os Europeus e Mundiais de atletismo.

Quem gostaria de entrevistar?

Neste momento, a pessoa que me daria mais gozo entrevistar era Donald Trump. Sobretudo para fazer perguntas que incomodam milhões de pessoas espalhadas pelo mundo e para perceber até que ponto há ali encenação, maldade, loucura, estupidez, frieza, dissimulação ou, se calhar, tudo ao mesmo tempo.

Sei que o Hugo foi um aluno de excelência. Muito trabalho ou muito talento?

É sempre muito fácil dizermos que não estudávamos muito. No entanto, eu acredito que para as pessoas terem resultados deverá existir muito trabalho associado. Há indivíduos que podem ter 10 ou 20% de talento. Mas a vida será sempre 80 ou 90% de transpiração e o resto de inspiração.

É pai de dois meninos. Este facto atrapalha a sua vida profissional?

A partir do momento em que nós temos filhos, a nossa vida começa a ser muito mais difícil e muito melhor. A partir daquele dia perdemos autonomia e liberdade, nunca mais haverá nenhum dia na nossa vida em que não pensemos no nosso papel de pai, educador, protetor e amigo. Por exemplo, mesmo quando estou num Campeonato do Mundo, na Rússia, estou sempre a pensar se eles estão bem e quero-lhes ligar a toda a hora. Esta dependência é para sempre. Não se trata de encaixar os filhos na nossa vida mas sim de encaixar a nossa vida nos filhos. Mas devo dizer-lhe que não existe nada melhor do que ter um amor incondicional por alguém.

Existe algum clube que, no que respeita à comunicação, se tem destacado de todos os outros?

Todos têm coisas boas e coisas más. Todos souberam crescer na área do marketing. E a comunicação não ganha campeonatos mas ajuda muito, não é algo irrelevante. Mas se vamos falar de comunicação e de marca, a instituição no nosso país que mais cresceu e que se transformou num paradigma de comunicação é a Federação Portuguesa de Futebol. O maior exemplo de como se pode transformar algo que era quase sempre alvo de alguma chacota numa instituição que é, provavelmente, a mais eficaz e, neste momento, unânime e inatacável em Portugal.

Agora, para terminar, vamos falar um pouco sobre o concelho de Gondomar. Sente diferenças entre a era de Marco Martins e a de Valentim Loureiro?

Eu confesso que não acompanho tanto o concelho quanto gostaria. Porque aos 18 anos fui estudar para Coimbra e, portanto, não acompanhei assim tanto a fase de ValentimLoureiro no concelho, que entrou em 1993. Aquilo que eu acho é que Gondomar cometeu um erro histórico, que não tem a ver com o atual nem com o anterior presidente da Câmara – até acredito que o atual pense dessa forma e tem feito algumas coisas nesse sentido… – cresceu contra aquilo que é a sua maior sorte, que é o rio. Gondomar é um dos concelhos de Portugal que tem maior margem frente-rio. Começa na Ponte do Freixo, depois vai até Entre-os-Rios e ainda tem a freguesia da Lomba.Julgo que Gondomar, nos últimos 40 anos, fez sempre as decisões erradas no momento errado. Agora se me perguntarem se ainda é revertível, acho que sim. É só uma questão de se fazer bem, de se tentar procurar um caminho melhor.

Quando o Hugo fala de Gondomar, fala também do presidente da Câmara da altura…

Não, isso não sei. Eu nunca acho que as coisas se devam a um presidente nem a um executivo de uma Câmara. Acho que as pessoas que moram nos concelhos é que permitem que as coisas sejam feitas assim ou não.

Mas o executivo camarário tem uma preponderância enorme…

Claro. Claro que o executivo camarário tem um peso enorme. Mas eu acho que os concelhos onde há melhores trabalhos são os concelhos onde a população se envolve mais e as elites se envolvem mais. Há mais pressão para que as coisas sejam bem feitas. Há outros locais onde se faz mal feito, onde corre mal porque as pessoas também não se interessam ou então são coniventes com más práticas. Faz algum sentido gastar dinheiro em voos de crianças que vão andar de avião pela primeira vez? É uma coisa absurda, é de terceiro-mundo.

Viveu em Gens durante toda a sua infância, agora vive em Valbom. Sente uma grande ligação ao concelho?

Sinto ligação, embora talvez gostasse de sentir mais. Basicamente só durmo em Gondomar. Se calhar gostava de ter uma ligação mais forte. Mas a minha vida também muitas vezes não mo permite, passo muitas vezes metade da semana em Lisboa e chego tarde a casa mesmo quando estou no Porto. A minha ligação é mais emocional e histórica do que vivenciada, chamemos-lhe assim.

Só para encerrar, e terminamos com Gondomar, apesar de ter dito que basicamente só dorme aqui, posso saber o que mais gosta de fazer quando está no nosso concelho?

De vez em quando venho para aqui [Gramido] passear com os meus filhos neste circuito pedonal da marginal. Eles também gostam de andar aqui de bicicleta. Eu próprio também gosto de andar aqui.

Junto ao rio…

Sim, esta parte do rio. E tenho que voltar outra vez àquilo que eu disse. Gondomar tem mais margem de frente de rio Douro do que o Porto, um manancial para ser bem explorado. Como é que isto vai sendo desaproveitado? Até mesmo pelos empresários deste país que não percebem o filão que têm aqui. Gosto imenso disto e também gosto de, pontualmente, passar ali perto da escola onde eu estudei, no centro. E, claro, gosto muito de conviver com os meus familiares, que estão em Gondomar.

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