André Pereira: “Já não fico satisfeito em ser campeão nacional porque sinto que já está ao meu alcance, o que quero agora é mais”

Natural do concelho de Gondomar, André Pereira é o menino de ouro do Atletismo, com apenas 24 anos foi quatro vezes consagrado campeão nacional e a sua próxima etapa é os jogos olímpicos. Desde 2019 o atleta frequenta o clube Benfica, no entanto, já passou pelo clube Estrelas de Baguim (2001 a 2005) e o clube A. Meirim FC (2006 a 2009).

Como começou a paixão pelo atletismo, porquê esta modalidade?

Aos 6 anos era hiperativo, ou pelo menos era o que os médicos diziam, então tive de arranjar algum desporto para fazer, na altura era o desporto que o meu irmão praticava, então foi óbvio e juntei-me a ele, porque na altura eu queria fazer tudo o que o meu irmão mais velho fazia, ele fazia atletismo então eu fui também para o atletismo. A paixão veio daí, nunca mais deixei este desporto.

Quando é que te apercebeste que o atletismo seria o teu futuro?

Nunca pensei dessa maneira. Por exemplo, aos 16 anos, foi importante ter o meu treinador comigo porque eu já não queria estudar mais, na altura fui campeão nacional e comecei logo a pensar que tinha que apostar nisto, queria logo deixar a escola, mas tive sempre pessoas que me puseram os pés bem assentes na terra, porque hoje em dia sem estudos não se consegue fazer quase nada, a corrida pode acabar a qualquer momento, estou dependente do meu corpo e se algum dia me magoou, o que vou fazer? Então isso incentivou-me a continuar a estudar, estou agora a tirar a licenciatura em gestão de empresas, uma licenciatura de 3 anos, tenho que a fazer em 5 anos e meio para conseguir conciliar tudo. Considero o atletismo o meu futuro a partir do momento em que começo a fazer contratos com o Benfica e parcerias com a Adidas e saber que vou ser remunerado e saber que tenho capacidade de aumentar essa remuneração. É aquilo que se costuma dizer quando se escolhe o curso universitário: escolhe algo que gostes e assim nunca terás de trabalhar na vida, e eu sinto isso, que ao treinar estou a fazer aquilo que gosto, é algo que me dá prazer a fazer.

Algum dos teus treinadores te marcou de alguma forma especial?

Todos os meus treinadores me marcaram pela sua forma característica. Dos 6 aos 15 estive com um treinador, nos Estrelas de Baguim, José Carlos, dos 15 aos 20 estive com outro que também se chamava José Carlos e agora estou com o meu terceiro que é o José Regalo. Marcaram-me todos porque em cada fase da minha vida o meu treinador foi quase como um segundo pai. Todos influenciaram-me e incentivaram-me de uma forma especial. Quem conhece o meu novo treinador, José Regalo, sabe que foi dos melhores atletas portugueses de sempre e para mim é uma grande inspiração poder treinar com ele e ter conselhos duma grande referência da minha modalidade. Eu sinto que o desporto, de certa forma, moldou o meu caráter.

Acreditas que em Portugal a tua modalidade é apoiada?

Não, se não fosse o meu clube a ajudar-me e o patrocínio da Adidas, eu não conseguia ser o atleta que sou. Para ter um apoio por parte do estado tinha de ser pela parte da federação, ou seja, o atleta tem de estar num nível de jogos olímpicos, coisa que ainda não estou. A partir desse momento sim, és apoiado, até lá és mais um e é mesmo muito difícil conseguir viver disto, se não fosse pelo meu clube e a Adidas eu tinha de estar a trabalhar e, estando a trabalhar, nunca ia ter o mesmo rendimento físico que tenho agora. Reconhecimento também não acho que haja, antigamente toda a gente conhecia o Carlos Lopes, Fernando Mamede e José Regalo, etc., hoje em dia sinto que não é assim.

Alguma vez pensaste em desistir?

Desistir nunca pensei. Já tive muitos altos e baixos na minha carreira, uma das grandes características que sempre me fortaleceu foi nunca pensar que sou o melhor, antes não era o melhor a nível regional, depois não era o melhor a nível nacional, hoje em dia já sou quatro vezes campeão de obstáculos em Portugal, mas mesmo assim não me considero o melhor e sinto que há sempre patamares para cima. Quando se tem um objetivo que não se consegue atingir começa-se a pensar “o que é que estou aqui a fazer?”, treina-se tanto, abdica-se de tanta coisa, deixa-se de estar com os amigos,
começo a pensar muita coisa, mas no dia a seguir quando acordo já sinto que consigo fazer tudo outra vez, por isso pensar em desistir, nunca pensei.

Qual é o sentimento de ser campeão nacional?

Eu antes já tinha sido já 3 ou 4 vezes segundo lugar em nacionais e a minha ambição era ser primeiro lugar, mas nunca tinha conseguido. Aos 16 anos consegui ser campeão nacional e a sensação é como, por exemplo, entrar na universidade no curso que queres, é uma sensação que todo o trabalho que fizeste para trás e tudo o que abdicaste, que valeu a pena, sensação de sentimento cumprido. Hoje em dia, já não consigo ter a mesma sensação, já sei que consigo fazer aquilo, enquanto que naquela altura não tinha bem a certeza. Por exemplo, quando ganhei ao Rui Silva fiquei surpreendido comigo mesmo, porque ele ficou em terceiro lugar nos jogos olímpicos e tinha oito vitórias consecutivas naquele corta-mato e eu nunca pensei ganhar-lhe. Hoje, sou quatro vezes campeão nacional e é muito bom, mas sinto mesmo que é fruto do meu trabalho, não é tanto como quando era miúdo, agora já penso em mais, já não fico satisfeito em ser campeão nacional porque sinto que já está ao meu alcance, o que eu quero agora é mais.

Como é que é representar Portugal além-fronteiras?

É sem dúvida uma grande responsabilidade, a primeira vez que representei Portugal foi logo no mundial, sentia-me especial, estar a representar o nosso país com aquelas cores que só se via na televisão. Hoje, continuando a vestir a camisola de Portugal, só me dá vontade de continuar a fazer o trabalho que tenho vindo a fazer e tentar todos os dias melhorar qualquer aspeto, para que no futuro possa ser melhor e vir a representar o nosso país da melhor maneira.

O que te distingue como atleta?

Sem dúvida que o que me distingue da maior parte dos atletas é perseverança, é nunca ficar satisfeito, ter sempre fome de mais, não me contentar com o que tenho. Obviamente que há muitos atletas como eu e obviamente que tenho figuras de atletas que são assim, o mais conhecido é mesmo o Cristiano Ronaldo, que ao meu ver é a figura maior no desporto porque transmite muito isso, que com trabalho é que consegues chegar lá. Para mim, perseverança, trabalho duro e, às vezes, não olhar à volta, porque nos dias de hoje, as pessoas optam por caminhos facilitados. Sempre tive noção que comigo não era assim, tinha de percorrer o caminho todo e mesmo durante esse caminho tinha que cair muitas vezes, duvidei das minhas capacidades, mas, lá está, é perseverança e nunca deixar de acreditar que o melhor está para vir. ■

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