José Camilo Neves: “Gondomar tem um lugar especial no meu coração”

Entrevista José Camilo Neves - setembro 2016

Padre José Camilo Neves, ex-diretor da Obra ABC / Foto: Pedro Santos Ferreira

José Camilo Dias Neves, nasceu em Rebordosa (Paredes), em 1972. Aos 44 anos sai da Obra ABC para desempenhar o cargo de ecónomo provincial da Congregação dos Sacerdotes de Coração de Jesus, em Lisboa. Para trás ficam seis anos dedicados à instituição de acolhimento de menores privados de um ambiente familiar saudável, em Rio Tinto. Numa entrevista exclusiva ao Vivacidade, no dia em que completa 25 anos de vida religiosa (29 de setembro), o padre Camilo, como é conhecido, confessa que Gondomar tem um lugar especial no seu coração.

Quando surge o catolicismo na sua vida?
Sou oriundo de uma família católica e sou o mais velho de quatro irmãos. Posso dizer que tive uma infância normal, com as minhas traquinices de miúdo. Entretanto, na conclusão do 4.º ano escolar apareceram uns padres de uma congregação a convidar rapazes para integrarem o seminário e eu fui um dos que decidiu aceitar o convite.

O que o levou a aceitar esse convite?
Naquela altura os jovens gostavam de ler a revista “Audácia” [publicação missionária para adolescentes] e, além disso, também já tinha ouvido várias histórias que me levaram a querer entrar para o seminário. No início do 6.º ano entrei então para o Seminário Missionário Padre Dehon, em Rio Tinto, que pertence à Congregação dos Sacerdotes de Coração de Jesus, conhecidos em Portugal por dehonianos. O meu objetivo era ser missionário e viajar para países estrangeiros.

Essa é a sua primeira ligação a Gondomar…
Exatamente, e recordo-me que às vezes saímos do seminário e íamos conhecer os principais pontos turísticos do concelho. Lembro-me que uma vez fomos a pé desde o seminário até ao Monte Crasto e foi uma grande aventura para nós. Éramos mais de 100 jovens e era raro sairmos do seminário.

Como era a sua rotina no seminário?
Não era tão má como se faz crer. No seminário vamos descobrindo o nosso chamamento e a nossa vocação todos os dias. Contudo, por vezes também temos dúvidas ao longo do nosso percurso.

É em Rio Tinto que completa o 9.º ano de escolaridade…
Sim. Após o 9.º ano fui fazer o ensino secundário em Coimbra, no Instituto do Sagrado Coração. No 12.º ano fiz o pedido para entrar na congregação como postulante. O pedido foi aceite e tornei-me postulante em 1989. Em 1990, entrei no noviciado em Aveiro. Foi aí que completei o ano de noviciado, um ano inteiramente dedicado ao estudo da nossa Congregação. Em 1991, fiz os primeiros votos como religioso, na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus.

Estamos a falar de um jovem que toma a decisão de ser padre e seguir a vida católica. O que o levou a fazer essa escolha?
Posso dizer que sentimos um chamamento em nós, algo especial e difícil de explicar.

Mas já admitiu que chegou a duvidar dessa decisão…
Em todas as decisões que tomamos temos sempre dúvidas. Não acredito que alguém possa tomar uma decisão sem as ter. Há sempre o receio de estarmos a tomar uma decisão errada.

Sendo tão jovem tinha noção daquilo que estava a abdicar?
Em qualquer opção que façamos estamos imediatamente a abdicar de outra. Todos temos que tomar decisões diárias, o fundamental é sabermos fazer as nossas escolhas.

É licenciado em Teologia, curiosamente prefere números e ciências…
Sim, confesso que sou mais ligado às ciências e aos números, mas se queria ser padre não tinha grande hipótese, só podia licenciar-me em Teologia [risos].

O sonho de ser missionário é cumprido anos mais tarde, durante o estágio de vida religiosa. Porquê o Madagáscar?
Porque fiz o pedido para ir para lá. Parti em 1993, com 21 anos, e cheguei à capital de Madagáscar sem ninguém à minha espera. Fiquei sozinho, falava muito mal francês, mas lá consegui chegar onde queria. Nos primeiros seis meses dediquei-me a estudar a língua, com grandes dificuldades.

Qual era a sua missão?
Fui trabalhar junto dos padres da nossa congregação no Madagáscar, mas confesso que aprendi mais do que aquilo que ensinei.
À nossa responsabilidade tínhamos mais de 110 locais de culto com escolas que eram ajudadas pela nossa missão. Nas aldeias éramos recebidos como reis e a melhor palhota da aldeia era sempre para os missionários. Na bagagem levávamos remédios para as pessoas e o nosso objetivo era ajudar a combater doenças como as lombrigas ou o malária.

Acabou por ficar no Madagáscar mais tempo do que o previsto…
Acabei por ficar três anos e regressei mais cedo por questões de saúde. Apanhei malária e confesso que passei um mau bocado.

Que experiência retira dessa missão?
O que mais guardo na memória é o sorriso das pessoas e o acolhimento fraterno e disponível que tinham para os missionários.

Regressa a Portugal e é colocado no Colégio Infante D. Henrique, na Madeira…
Regressei do Madagáscar e conclui os estudos em Lisboa. Em 1999, fiz os meus votos perpétuos na Congregação e nesse ano fui ordenado diácono, na diocese do Porto, pelo bispo D. Armindo Lopes Coelho. Um ano depois terminei o curso e, em agosto, fui enviado para a Madeira, para trabalhar no Colégio Infante D. Henrique, no Funchal. Fui diretor dos serviços escolares dessa instituição até 2007, ano em que regressei a Lisboa para ser ecónomo provincial, função que hoje volto a desempenhar.

Quando surge a Obra ABC na sua vida?
Em 2010, quando iniciei funções como diretor da instituição. Desempenhei esse cargo até agosto de 2016.

Que objetivos trouxe consigo?
Nenhum [risos]. Não levo objetivos para nenhum lado porque não conheço as realidades. Inicialmente procurei saber o que se passava na Obra ABC e posso dizer que encontrei uma realidade dura, complicada e que desconhecia. Vivi momentos de grandes dificuldades, chocantes até, mas também momentos de grande alegria que gosto de recordar. Lamento que os problemas destes rapazes sejam muitas vezes ignorados pela sociedade.

Qual é a missão desta instituição?
A missão da Obra ABC é o acolhimento de rapazes que são retirados às famílias por diversas circunstâncias. O meu objetivo foi abrir este espaço à comunidade. Não digo que esse trabalho tenha sido só meu, mas procurei dar-lhe o meu cunho pessoal. Hoje, a instituição está mais aberta à comunidade e isso é fundamental, porque necessitamos da ajuda e colaboração exterior. Se não nos dermos a conhecer, ninguém nos consegue ajudar. Costumo dizer que muitos nos veem mas poucos nos conhecem, porque a nossa torre é vista de muito longe mas depois não sabem quem somos.

Há alguma luta pessoal que queria recordar?
Os meus antecessores na Obra ABC não conseguiram obter a licença de utilização para a instituição e julgo que essa conquista foi muito importante porque todas as Instituições Particulares de Solidariedade Social têm que a ter.
Há também dois casos que me marcaram muito. Um deles envolve um rapaz que foi integrado numa família. Não temos o objetivo de promover a adoção destes rapazes mas houve uma família disposta a acolher um dos nossos meninos e isso foi marcante.
Outro caso é de um rapaz que também passou por aqui. No início olhava para mim como um dirigente mas na hora da minha despedida veio agradecer-me como se fosse pai dele.

Entretanto assumiu novamente funções como ecónomo provincial em Lisboa. É um adeus ou um até já à Obra ABC?
Deixei de ser responsável direto pela Obra ABC mas não deixo de estar envolvido com esta causa. Vou estar sempre disponível para ajudar a Obra ABC e como ecónomo provincial até posso vir a dar um apoio maior à instituição, porque sou sensível ao trabalho que aqui é desenvolvido. No entanto, não tenho dúvidas que o trabalho vai continuar a ser realizado com qualidade. O padre Rosário, atual diretor da Obra ABC, era o meu braço direito, conhece a realidade e está à altura do desafio.

Apesar da distância leva Gondomar consigo?
Por onde passo faço sempre muitas amizades e crio sempre laços. Infelizmente não consegui despedir-me de todos, mas fiquei marcado pelos gondomarenses e sempre que seja possível tenciono regressar. Gondomar tem um lugar especial no meu coração.

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