José Santos: “A Volta a Portugal preenche uma lacuna importante no desporto nacional”

José Santos, diretor desportivo de ciclismo do Boavista / Foto: Pedro Santos Ferreira

O gondomarense José Santos, diretor desportivo da equipa de ciclismo do Boavista, vai partir para a 80ª Volta a Portugal na qualidade de dirigente com o maior número de Voltas no curriculum. No total, passarão a ser 40, motivos mais do que suficientes para uma entrevista ao nosso jornal em que fala sobre a carreira, o ciclismo e Gondomar. 

Quando começou a sua ligação ao ciclismo?
O meu pai, Império dos Santos, foi um grande ciclista durante a década de 40. A partir daí, tive sempre uma grande ligação à modalidade, que se foi cimentando graças aos diversos cargos que ocupei. Comecei por cobrir seis Voltas a Portugal enquanto jornalista do “Comércio do Porto”. Antes, tinha feito duas Voltas enquanto ciclista. Agora vou entrar na minha 32ª Volta a Portugal, na qualidade de diretor desportivo do Boavista. Por isso, este ano será a minha 40ª Volta a Portugal.

Quando é que decide dedicar-se inteiramente à direção de uma equipa e a esta modalidade?
No momento em que fui convidado para substituir o meu pai no Boavista. Encarei o desafio com grande responsabilidade e julgo que me saí bem, porque dois anos depois fui nomeado selecionador nacional. Entretanto, estive sempre ligado ao Boavista e a esta modalidade apaixonante.

Considera-se treinador ou responsável técnico de uma equipa de ciclismo?
Considero-me algo mais do que um treinador. Ao fim ao cabo, eu sou responsável por gerir uma equipa de uma ponta à outra.

No entanto, o ciclismo não vive apenas da Volta a Portugal?
Pelo contrário, temos um calendário de provas muito alargado. Ao longo do ano conhecemos milhares de pessoas e percorremos muitas terras de Portugal. Posso dizer que conheço muita gente em diversas localidades.

Como é que se prepara uma época?
Uma equipa de ciclismo tem características diferentes das outras modalidades. Dado o volume de provas, os treinos também são diferentes. Normalmente, em fevereiro abrimos a época e a partir daí planificamos a temporada e distribuímos bicicletas pelos ciclistas. Depois seguimos para as provas.

Este [Volta a Portugal] continua a ser o maior evento desportivo em Portugal?
Julgo que sim. A Volta a Portugal preenche uma lacuna importante no desporto nacional. Mais no passado do que hoje, mas de qualquer das formas ainda é através da passagem dos ciclistas que um grande número de pessoas consegue ver ao vivo a passagem das camisolas do Porto, Sporting, Boavista, entre outras equipas nacionais. O futebol não chega a tantas terras como a Volta a Portugal, só através da televisão. O ciclismo tem essa virtude, aproxima as pessoas dos seus clubes.

O Boavista, equipa que dirige, quer melhorar a prestação obtida no ano passado?
Preferimos ter uma política de continuidade. Temos a consciência que não somos os melhores, mas também sabemos que não somos os piores. Há uma grande disparidade de orçamentos, mas também não é isso que garante a vitória.

Esta será a 80ª Volta a Portugal. Gostaria de escrever uma história bonita nesta edição?
Sem dúvida. Vamos procurar fazer isso mesmo. Estamos a fazer uma das melhores épocas até ao momento e somos a equipa mais vitoriosa até agora. A Volta é sempre diferente, mas queremos disputar os momentos mais decisivos, nomeadamente na Serra da Estrela e na Senhora da Graça.

As apostas do Porto e do Sporting vieram ajudar a modalidade a crescer?
O público continua a ser o mesmo. Chama mais a atenção dos media, fala-se mais na Volta, isso notamos que acontece. Contudo, importa realçar que esses dois clubes estão a patrocinar projetos de ciclismo. O Boavista está de corpo e alma e tem um projeto próprio de ciclismo. É bom que se faça essa distinção.

Gondomar tem recebido a Volta a Portugal nos últimos anos. Considera que a prova deixa marcas no concelho?
Deixa sempre uma marca positiva. Isso aconteceu em São Cosme e em Rio Tinto e fomos recebidos por uma multidão. Falta a Gondomar uma equipa de ciclismo que aposte forte na modalidade. Ainda não desistimos dessa ideia [Gondomar Cultural], mas sabemos que não é fácil conseguir.

O concelho tem as condições necessárias para a modalidade?
Existem, de facto, alguns clubes que apostam no ciclismo, mas não é dada continuidade aos atletas que produzem. Falta dar esse passo. Neste momento, o ciclismo está na moda e cresce cada vez mais.

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