Magda Santos: “Portugal está bem mais à frente do que a França no que toca à nutrição”

Magda Santos - dezembro 2018

A nutricionista gondomarense tem o seu consultório em Paris / Foto: Direitos Reservados

Magda Santos, nutricionista gondomarense, tem 28 anos e recusa fazer grandes projetos a longo prazo. Pretende abraçar as oportunidades que possam surgir e deixa um alerta a Portugal quanto à necessidade urgente de se investir mais em profissionais na área da nutrição. 

Como foi o percurso profissional até chegares ao ponto de teres o teu próprio consultório de nutrição, em Paris?
Em Portugal, realizei um estágio no Hospital Geral de Santo António, na área oncológica. Sempre tive um carinho especial pela nutrição clínica, portanto dei o meu máximo e apesar de ter conseguido terminar o estágio com uma nota de 19 valores de nada me serviu. Não tendo encontrado nada mais que estágios voluntários fiz as malas e fui para Grenoble (Capital dos Alpes Franceses) à procura de uma oportunidade. Quando senti que já dominava a língua abri o meu primeiro consultório e exerci a atividade numa policlínica.

Criaste tu a tal oportunidade…
Sim, digamos que fui um bocadinho forçada a criar o meu posto de trabalho, uma vez que não ia tendo respostas ao meu currículo pelo facto de ser estrangeira. Ao fim de algum tempo consegui, também, um part-time num ginásio. Há cerca de um ano e meio, e na sequência de uma proposta de trabalho recebida pelo meu marido, mudamos para Paris e recomecei do zero. Hoje em dia, tenho o meu consultório no centro de Paris e estou muito contente com a mudança.

E o que te cativou a trabalhar nesta área?
Desde miúda que tinha a ambição de trabalhar na área da saúde e à medida que fui crescendo o interesse pela nutrição foi-se tornando mais forte. Sempre gostei do contacto com as pessoas e, sobretudo, de conseguir deixar a minha marca na vida delas. Mudar hábitos alimentares não é tarefa fácil, mas o impacto causado na saúde física e mental de cada um dos meus clientes é, sem dúvida, a melhor recompensa que existe.

Qual será o papel dos nutricionistas no futuro?
Creio que os nutricionistas estão a conseguir marcar a diferença. Em Portugal, a criação da Ordem dos Nutricionistas veio dar voz à profissão. Pelo facto de ser uma profissão recente vai levar algum tempo até ser devidamente valorizada. Mas ninguém pode negar a epidemia de doenças crónicas que estão a surgir em idades cada vez mais precoces devido a uma má alimentação. E, por isso, acho inevitável que a profissão seja cada vez mais valorizada e que os restantes profissionais de saúde aprendam a cooperar e a trabalhar em equipa, reencaminhado os doentes com necessidades de acompanhamento nutricional.

Mas sentes que, hoje em dia, demasiada informação prejudica o trabalho dos verdadeiros profissionais da área?
Sem qualquer dúvida. A quantidade de informação que está por aí espalhada sem qualquer base científica torna o nosso trabalho mais difícil. Há, por vezes, alguma resistência por parte dos clientes a aceitarem as nossas recomendações, porque a colega de trabalho ou a vizinha tinha um plano alimentar diferente, ou porque viram o contrário num blogue.

Notas avanços no que toca à nutrição em terras gaulesas comparativamente com Portugal?
Não, os avanços aqui são muito fracos. Portugal está bem mais à frente do que a França no que toca à nutrição. Ainda não existe Ordem Profissional, a formação aqui é de curta duração, dois anos, e não prepara convenientemente. Em França, ainda existe muita gente que não conhece sequer a profissão.

Mas não adquiriste conhecimentos específicos nos quais aqui ainda não estamos tão desenvolvidos?
Eu sou licenciada pelo Instituto Superior de Ciências de Saúde-Norte, uma instituição de excelência na área da saúde, e tive o privilégio de aprender com dois dos melhores nutricionistas do país no Hospital Santo António. Sinceramente, não houve nada de novo que tenha aprendido aqui. Julgo que a maior aprendizagem é feita diariamente com o contacto com os meus clientes. Pelo facto de viverem aqui pessoas de todo o mundo, tenho de me adaptar aos hábitos culturais e religiosos de todos eles, algo que me leva a fazer planos alimentares completamente diferentes daquilo que estava habituada em Portugal. Mas é um desafio que me agrada bastante.

E queres falar-nos dos planos futuros para a tua carreira profissional?
No meio de tantas reviravoltas tenho dificuldade em fazer planos a longo prazo. Espero investir um bocadinho mais em formação e especializações. E ir abraçando as oportunidades que surgem.

Que conselhos darias a quem equaciona sair do país em busca de uma melhor situação profissional?
Não é algo que eu aconselhe a toda a gente, façam-no com o máximo de segurança possível. Pesquisem convenientemente sobre o sítio para onde tencionam ir, o custo de vida na cidade em questão e os documentos necessários para o exercício da vossa profissão. Tentem, também, contactar alguém que esteja numa situação semelhante à vossa e tenham sempre um plano B na manga, porque não é um caminho fácil.

Tendo como base o teu exemplo, o que poderia fazer o nosso país, ou até mesmo a Câmara em específico, no sentido de reter mais o seu talento?
Apostar na prevenção. Muitas das patologias ou condições de saúde podem ser melhoradas ou combatidas com um bom acompanhamento nutricional. A percentagem de diabéticos e doentes cardiovasculares em Portugal é assustadora e a grande maioria nunca viram um nutricionista na vida. Poderiam sofrer bem menos com as complicações da doença, bem como verem a conta da farmácia descer com um plano alimentar adaptado. Contratar mais nutricionistas para os hospitais e centros de saúde seria, na verdade, uma forma de reduzir os custos com a saúde. Porém, os interesses e o poder da indústria farmacêutica continuam a estar por cima de tudo isso.

Para terminar, o que te faria voltar em definitivo a Portugal?
Uma melhoria da economia e das condições de trabalho na área da saúde.

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