Mónica Ferro: “Confio na capacidade humana de fazer o bem e de aprender com os seus erros e com as boas práticas dos outros”

Monica Ferro, Director of UNFPA Geneva at a press conference during presentation report of the State of World Population in 2018. 17 october 2018. UN Photo / Jean-Marc Ferré

Quanto diretora do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), em Genebra?

Enquanto representante do Fundo das Nações Unidas para a População em Genebra, o meu dia a dia traduz-se em garantir que em todos os processos relativos à saúde global, direitos humanos e questões humanitárias, têm as mulheres e a saúde sexual e reprodutiva como questões fundamentais. Dito de outra forma, que a igualdade de género e o empoderamento das mulheres são vistos como alicerces de um mundo mais igual, mais justo e mais digno para todas as pessoas.

Qual o principal papel e principais prioridades do UNFPA atualmente?

As principais prioridades do UNFPA são construir um mundo em que haja zero mortes maternas preveníveis (todos os dias morrem cerca de 810  mulheres e raparigas de causas preveníveis ligadas à gravidez, parto e pós-parto), que não haja necessidade de planeamento familiar por realizar e que não haja violência com base no género e práticas tradicionais nefastas (como a mutilação genital feminina e os casamentos infantis, precoces e forçados). É este o papel do UNFPA – um mundo de escolhas e  direitos para todas as pessoas.

Ao nível que lhe compete agir e intervencionar, a situação do mundo é mais grave do que há uma década atrás, por exemplo? Porquê?

O mundo é profundamente desigual. E essa desigualdade assenta nas assimetrias económicas, mas também na desigualdade de género e no acesso à saúde sexual e reprodutiva. Um mundo em que algumas pessoas podem escolher o seu futuro e outras, por não terem acesso à saúde sexual e reprodutiva, não podem escolher frequentar a escola, terminar a escola e ter empregos produtivos. Nem um lugar no espaço público, seja ele de decisão política ou de participação cívica, porque não podem escolher se querem constituir família, quantos filhos querem ter e qual o espaçamento entre as gravidezes. Esta é a chave para um futuro mais digno: a liberdade e o poder de escolha.

Se nos tempos correntes temos mais meios, recursos, tecnologias, ideias, etc., como é possível o estado social de certas populações piorarem e se degradarem por completo?

Por um lado faltam-nos os dados, as métricas de desenvolvimento. Sabemos hoje, como nunca, o que devemos fazer, coletivamente e em parceria, para construir uma sociedade mais justa. No caso do UNFPA dizemos sempre que sabemos hoje como reduzir a mortalidade materna prevenível, sabemos o quanto custa e o que é preciso ser feito. Sabemos o que é preciso fazer para garantir que os 68 milhões de meninas e mulheres em risco de Mutilação Genital Feminina sejam protegidas, para que os 220 milhões de mulheres em idade reprodutiva no mundo em desenvolvimento possam ter acesso a métodos modernos de planeamento familiar. Sabemos o que é preciso para dar poder e autonomia aos milhões de jovens que querem uma vida melhor, e que o bem mais escasso é mesmo a vontade política e as parcerias que possam gerar um ambiente de paz e justiça e de desenvolvimento sustentável. Sabemos, sobretudo, que o momento para fazer as mudanças e gerar as sinergias necessárias é agora e que estes milhões de pessoas não nos perdoarão se não tomarmos as medidas necessárias.

Neste âmbito, no caso do nosso país, que leitura faz? Ainda se notam, e de que modo, muitas dissimetrias entre nós: norte vs. sul, litoral vs. interior, Portugal continental vs. insular?

Portugal é um país desenvolvido em que os ganhos de saúde materna e infantil – muito produto do trabalho de instituições como o UNFPA – são a prova de que a vontade política aliada aos investimentos estratégicos e com apoio internacional são uma fórmula de sucesso. Por certo que temos desafios importantes ao nível da realização da igualdade de género e do desenvolvimento sustentável. O envelhecimento da nossa população deve ser celebrado como um sucesso dos investimentos do passado e como uma oportunidade, mas não nos deve deixar de preocupar o facto de muitos indivíduos e casais relatarem que têm menos filhos do que aqueles que gostavam de ter – é uma questão de direitos reprodutivos por realizar. A desigualdade de género e a violência de género – verdadeiras pandemias globais – não devem também deixar de preocupar todas as pessoas envolvidas na tomada de decisão política.

Mudando de assunto e olhando a Gondomar, foi notícia este mês, um cordão humano feito sobretudo por sampedrenses exigindo ao Governo a remoção de toneladas de resíduos industriais perigosos/tóxicos. Que comentário e breve análise faz a esta situação grave para o ambiente e para a saúde pública, ainda por resolver?

Acho que o que há a destacar e a celebrar é a tomada de consciência pelos nossos jovens de que são o presente. Longe estão os tempos em que se dizia que os jovens são o futuro… e eles dizem alto e bom som que nada que os afecte pode ser decidido sem o seu contributo. E tomam as rédeas do processo nas suas mãos. Acho que isso é de celebrar.

O que é que, no seu entender, é preciso realmente fazer – e como fazer – para se cumprir as promessas que erradiquem a discriminação e que afastem os discursos de ódio?

Acho que é preciso conhecer, ouvir e agir preventivamente com uma forte aposta na educação. Apenas uma educação inclusiva pode garantir que os direitos humanos de todas as pessoas sejam garantidos.

Para si, a que se deve o facto de as populações andarem menos felizes/satisfeitas, daí estarem mais stressadas e gerarem mais violências a vários níveis?

Estes níveis de insatisfação devem-se, acredito, muito ao acesso a um leque variado de opções e uma incapacidade de se escolher, ponderadamente, o que é melhor em cada momento. A falta de liberdade de escolha gera muita incompreensão e insatisfação.

Para terminar, que mensagem deixa quanto à considerada utopia da Paz e Amor plenos no mundo vir a ser um sonho tornado realidade? Como e quando?

Eu acredito que vale a pena lutar para construir um mundo mais digno para todas as pessoas. Um mundo em que o meu direito à felicidade não esteja dependente da sorte de ter nascido numa determinada latitude ou num determinado regime político. Confio na capacidade humana de fazer o bem e de aprender com os seus erros e com as boas práticas dos outros. Acho também que, sabendo o que sabemos, tendo os recursos que temos, não podemos falhar aos milhões de pessoas a quem prometemos mais liberdade. ■

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