O 25 de Abril contado por quem o viveu

25 de Abril na Avenida dos Aliados, Porto - abril 2018

O 25 de Abril também foi festejado na Avenida dos Aliados, no Porto / Foto: Direitos Reservados

Está prestes a celebrar-se o 44.º aniversário de um dos dias mais marcantes da história recente de Portugal. A Revolução dos Cravos começou durante a madrugada de 25 de abril de 1974, após a ocupação de pontos estratégicos do regime, em Lisboa. Estava dado o primeiro passo para derrubar a ditadura do Estado Novo, implantado em 1933. O Vivacidade falou com quatro gondomarenses que viveram o Dia da Liberdade.

No dia 25 de Abril de 1974, Portugal escrevia uma das páginas mais belas da sua história recente. O Movimento das Forças Armadas (MFA) ocupou os estúdios do Rádio Clube Português e, através da rádio, anunciou à população que pretendia que o País fosse novamente uma democracia, com eleições e liberdades de toda a ordem.

No ar passavam músicas que o Estado Novo censurava, como “Grândola Vila Morena”, de José Afonso. Ao mesmo tempo, uma coluna militar com tanques, comandada por Salgueiro Maia, saía da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, rumo a Lisboa. A capital seria o foco de todas atenções, tendo começado aí o cerco a Marcelo Caetano, sucessor de Salazar à frente da ditadura.

No entanto, a vontade do MFA alastrou-se rapidamente ao resto do País, tendo chegado através das ondas hertzianas à maioria dos portugueses.

Para assinalar a efeméride, o Vivacidade descobriu quatro gondomarenses, de diferentes forças políticas, com estórias por contar.

Joaquim Espírito Santo - Foto PSF

Joaquim Espírito Santo tinha 17 anos em 1974 / Foto: Pedro Santos Ferreira


“A Guerra Colonial fazia-me muita confusão”
Joaquim Espírito Santo, 60 anos, lembra-se daquele dia “como se fosse hoje”. Tudo fazia crer que era só mais um dia, quando o aluno do Liceu Alexandre Herculano acordou cedo para ir de Fânzeres até ao Porto. No autocarro, tudo normal, sem deixar antever sinais maiores da revolução que ocorria em Lisboa. Só quando chegou ao liceu é que o gondomarense percebeu, através de um amigo que ouvia disfarçadamente a rádio, que algo estava a mudar.

“Quando cheguei à escola estava um amigo meu a ouvir a rádio em plena sala de aula. O cabelo tapava-lhe o aparelho, para a professora não ver, e lá me ia dizendo o que se passava. Acabei por não resistir e começamos os dois a ouvir os comunicados do MFA, que garantiam que estava tudo controlado. Foi aí que percebemos que estávamos perante uma revolução a sério”, afirma.

Antes, ainda de madrugada, escutou, sem saber, uma das senhas do MFA em direto. “Tinha por hábito ouvir o programa ‘Limite’, na Rádio Renascença, que dava entre a meia-noite e a uma da manhã. Nesse dia ouvi em direto a ‘Grândola, Vila Morena’ e gravei da rádio, sem me aperceber que era a senha para os militares”, recorda o gondomarense.

Durante a tarde, a escola dispensou os alunos, mas Joaquim Espírito Santo não regressou a casa, como lhe pediram. O jovem de 17 anos preferiu deslocar-se até à Avenida dos Aliados, no Porto, onde encontrou uma multidão em festa. “Falava-se em liberdade sem medo, pela primeira vez em muitos anos. Acabei por voltar a casa só ao final da tarde”, acrescenta.

A consciência política já tinha sido despertada dois anos antes, a 15 de abril de 1972, quando sem contar, participou numa manifestação contra a ditadura de Marcelo Caetano, episódio que recorda ao nosso jornal.

“Ainda frequentava o liceu D. Manuel II. Lembro-me que fui à casa de banho e vi um panfleto apelativo, que nos convidava a ir aos Aliados. Juntei um grupo de amigos e acabamos por ir, sem saber muito bem o que iríamos ver. Quando já lá estávamos a polícia começou a distribuir pancada e fui um dos que ficou em mau estado. Fugi e só parei no jardim da Cordoaria, todo ensanguentado. A partir desse dia, nunca mais tolerei o Estado Novo”, lembra o fanzerense.

Os dias que se seguiram foram vividos em pleno, com manifestações, cerco à PIDE do Porto, libertação de presos políticos e pessoas nas ruas. Acabava assim a ditadura, a censura, o medo e a Guerra Colonial.

“A Guerra Colonial fazia-me muita confusão. Eu pensava muito nessa possibilidade e tentava isolar-me, em desespero. Confesso que se tivesse que ir para a guerra, julgo que fugia do País. Felizmente, o primeiro comunicado do MFA trouxe-nos o anúncio do fim da guerra. Respirei de alívio. Ainda hoje emociono-me a pensar nesse momento de libertação”, refere Joaquim Espírito Santo.

Hoje, o gondomarense faz parte do Bloco de Esquerda, partido que o conquistou desde a fundação, em 1999. Antes tinha pertencido a outros movimentos de esquerda.

Passados 44 anos, não abdica de assinalar a data, “porque recorda-nos que é sempre possível mudar, por mais desfavorável que seja a situação”. No peito carrega uma certeza, que “a mudança depende de todos e começa sempre em cada um de nós”.

Maria Rosa - PSF

Teresa Jesus e Maria Rosa celebram, anualmente, a Revolução dos Cravos / Foto: Pedro Santos Ferreira

“As pessoas passaram a comentar, a falar livremente e deixaram de andar oprimidas”
Conhecida em Gondomar por “Rosinha Socialista”, Maria Rosa, 77 anos, natural de Covelo, tinha 33 anos no dia 25 de abril de 1974. Na altura, a socialista – como a alcunha não deixa esconder – foi protagonista de um gesto que recorda todos os anos, com a amiga Teresa Jesus.

“Já trabalhava nos SMAS Gondomar. Eu e outras funcionárias tínhamos o hábito de lanchar e todos os dias uma de nós ia comprar pão a correr, que acompanhávamos com uma caneca de café…”, diz Maria Rosa, antes de ser interrompida pela amiga Teresa – a acompanhar a conversa com o nosso jornal -, que completa a história. “Estávamos a ouvir as notícias na rádio e falava-se de uma revolução. Foi aí que a Maria Rosa se revoltou e disse que se viesse aí uma revolução, ninguém ia beber o café dela. E atirou a caneca ao chão, que se partiu em bocados. Desde aí, ligo-lhe todos os anos, no dia 25 de abril, a perguntar se já partiu a caneca”, revela a amiga, bem-humorada.

Maria Rosa era filha única. O seu pai ministrou-lhe uma educação marcada pelo rigor e austeridade, situação que a impediu muitas vezes de “viver a infância”. No entanto, a política não lhe passava ao lado desde que o seu pai foi preso pela PIDE.

“Estava sozinha em casa quando a PIDE me ligou a informar que o meu pai tinha sido preso. Foi uma chamada muito fria, sem explicações. Fiquei muito aflita e não sabia o que dizer à minha mãe, que estava a trabalhar. O meu primeiro pensamento foi reunir os livros proibidos que o meu pai tinha e escondê-los em casa de uma vizinha idosa, de que ninguém suspeitava”, recorda.

O episódio não teve consequências graves, mas “marcou e mudou” o pai de Maria Rosa, que ao sair da prisão “parecia outro”, embora nunca tenha contado o que lá se passou.  Tudo por causa de uma tentativa de angariação de dinheiro para distribuir pelas famílias que tinham presos políticos. “Mal ele sabia que também ia ser preso”, desabafa.

Após a revolução, lembra, “as pessoas passaram a comentar, a falar livremente e deixaram de andar oprimidas”.

Atualmente, Maria Rosa integra a Assembleia Municipal de Gondomar, eleita pelo Partido Socialista, de que faz parte há 39 anos. A gondomarense admite “nunca esquecer o dia em que tudo mudou”.

Manuel Macedo - PSF

Manuel Macedo só credita no comunismo e não deixa de ler o “Avante” / Foto: Pedro Santos Ferreira

“Antes de acontecer, era o sonho que todos tínhamos”
Com 72 anos, Manuel Macedo, considera-se riotintense, apesar de ter nascido em Viana do Castelo. Nos dias que correm, a Revolução dos Cravos “o sonho que todos tinham, antes de acontecer”. Contudo, é pelo início que nos começa a contar a estória de quem viveu a história.

“Posso dizer que o meu primeiro contacto com a política, embora sem ter noção, foi nas eleições presidenciais de 1958. Em período de campanha, o meu pai chegou a casa com cartazes do Arlindo Vicente, na altura candidato do PCP, que viria abdicar a favor de Humberto Delgado. Lembro-me que aquilo suscitou a minha curiosidade, mas só mais tarde percebi o que se tinha passado”, conta-nos o riotintense.

Já em Rio Tinto, onde a família passou a morar, viria a contactar com jornal “Avante”, que ainda hoje compra semanalmente. O primeiro encontro foi no café Copacabana, quando decidiu levar para casa um exemplar da publicação comunista. Em casa, o jornal não durou um minuto, tendo sido imediatamente escondido pelos pais, com medo que se soubesse.

“Em São Caetano, não havia televisão. O nosso entretenimento era a associação local, que tinha uma pequena biblioteca. Lá, a atualidade era discutida à socapa, porque naquela zona existiam muitos agentes da PIDE. Mais tarde, surge a ideia de criar uma cooperativa em Rio Tinto e há frente desse projeto estava gente democrática e republicana. Para arrancar com a cooperativa foi necessário entregar uma lista de 20 nomes à PIDE, mas não tivemos medo de avançar”, relembra Manuel Macedo.

A morte de António Oliveira de Salazar, em 1970, também não é esquecida. Recordado como um “dia feliz”, o comunista lembra, contudo, que Marcelo Caetano já estava no poder há algum tempo, “não tendo sido capaz de trazer a mudança necessária”. “Trouxe-nos alguma expectativa, mas era preciso que a situação mudasse e que houvesse alguma abertura, coisa que não se veio a confirmar”, afirma.

No entanto, o golpe militar de 25 de abril de 1974 não lhe causou surpresa, a avaliar pelos sinais que ia recebendo. “Há o lançamento do livro de Spínola, “Portugal e o Futuro”, depois acontece o Golpe das Caldas… já se ia percebendo que as coisas estavam a mudar. Por isso, todos os dias tinha o hábito de dormir com o rádio ligado. Naquela madrugada a minha mulher acordou-me e ficamos a ouvir a revolução. A partir desse momento a febre do 25 de Abril tomou conta do país”, lembra Manuel Macedo.

Daí até à filiação no PCP foi um pequeno passo, por acreditar que o comunismo “tem capacidades ideológicas inesgotáveis que mais nenhuma ideologia possui”.

Fez parte da Comissão Política do PCP Gondomar, foi funcionário do partido até 2000. Hoje a atividade política abrandou, mas nem por isso esquece que “as conquistas de Abril devem estar sempre presentes”. “O importante é não ter que repetir a revolução. Importa construir e fazer melhor para que não se volte a esses tempos”, finaliza.

João Neves Pinto - PSF

João Neves Pinto fez parte dos retornados das ex-colónias portuguesas / Foto: Pedro Santos Ferreira

“Deixei em Moçambique um património avaliado em mais de 40 milhões de escudos”
João Neves Pinto, 76 anos, nasceu em 1941, em Quelimane, capital e maior cidade da província da Zambézia, em Moçambique. Fez parte de uma terceira geração de portugueses em África, sendo descendente de uma família que deixou Felgueiras para estabelecer-se em Moçambique após a 1ª Guerra Mundial.

“A minha família estabeleceu-se, comprou uma herdade e criou três espaços comerciais. Em Moçambique, a política das pessoas era o trabalho, até porque havia sempre algo para fazer. Criamos lá uma bonita organização com sete lojas distribuídas pela Zambézia, pequenas propriedades, gado e cultivo de café”, começa por revelar.

Em Moçambique, chegou a ser administrador de posto e integrou um projeto do Estado Novo que via a colónia como parte integrante da Nação Portuguesa.

A 27 de junho de 1974 demitiu-se, “assim que soube que Portugal iria entregar a independência de Moçambique ao partido comunista da FRELIMO, sem eleições democráticas”. “Soube que isso iria acontecer antes do 25 de Abril, porque recebi ordens para mandar evacuar as tropas portuguesas das fronteiras. A partir desse momento deixei de me rever como representante de Portugal em Moçambique”, afirma João Neves Pinto.

No dia da revolução, “a informação chegou mas as pessoas não ligaram e continuaram a trabalhar”. “Todos tínhamos a ideia que a independência iria acontecer, mais cedo ou mais tarde, mas que seria através de um processo democrático. Da forma como ocorreu, obrigou os portugueses a sair à pressa, com medo do que se poderia passar a seguir. “A minha família deixou em Moçambique um património avaliado em 41 milhões de euros”, lamenta.

O regresso de João Neves Pinto a Portugal deu-se em 1980. Antes, em 1976, tinham regressado os seus pais, que prepararam o caminho para o filho. A chegada, “foi um processo traumatizante”. Uma das suas primeiras medidas foi a filiação no CDS-PP, descontente com o que a esquerda lhe tinha “roubado”.

“Encontrei um país em libertinagem. Já tinha estado a estudar no Porto e regressei depois a Moçambique, mas desta vez foi diferente. Os retornados eram considerados os bodes expiatórios de todos os males. A nossa maior mágoa foi que o governo português não quis saber de nós. Não nos indemnizou um cêntimo que fosse e as pessoas tiveram que reiniciar as suas vidas.

Desde então nunca mais regressou ao país que o viu nascer por medo do que poderia encontrar. No entanto, não deixa de festejar as conquistas de Abril “porque trouxe a liberdade”, mas admite que nunca perdoará o Partido Socialista e Mário Soares. “Nunca mais voltei a Moçambique. Tenho lá enterrados o meu irmão e os meus avós maternos, mas não ia gostar de ver o que ficou para trás”, conclui.

João Neves Pinto integra as fileiras do CDS-PP, faz parte da Comissão Concelhia do partido em Gondomar e já integrou o executivo da União das Freguesias de Gondomar (São Cosme), Valbom e Jovim.

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