“O Futebol Feminino é o futebol de hoje, não é o futebol de amanhã”

Fundado em 2017, a Academia SC Rio Tinto de Futebol Feminino, é a primeira instituição completamente constituída por raparigas em Gondomar que em dois anos consegui conquistar a divisão de Elite nos sub 13. O Vivacidade esteve à conversa com Laurinda Lopes, Vogal da Direção do clube e Rui Costa, vice-presidente do Clube, para conhecer a história da academia.

Como é que surgiu a academia de futebol feminino?

Laurinda Lopes (LS): No início de 2017, o treinador André recebeu uma ou duas meninas a perguntar se podiam se inscrever na academia. Na altura, inclui-as no escalão apropriado para a idade delas, mas na equipa masculina, e depois chegou outra e depois outra. Em 2017 fizemos o nosso primeiro evento, que foi um Open Day. Neste ano o objetivo do treinador André com as 4/5 meninas que tinha na altura, era de organizar uma só equipa feminina e logo no primeiro encontro conseguiram conquistar o seu objetivo, que era marcar um golo. A partir desse momento o sonho foi-se tornando realidade com a chegada de várias atletas. No ano de 2018 já tínhamos um número bom de atletas e decidimos então optar por fazer a divisão de escalões. Em competição tínhamos as atletas de sub-13, com idades até aos 12 anos, sendo que a maior parte das meninas tinham 10 anos na altura e competiam com rapazes de sub-13. Depois umas puxam as outras, o projeto começou a ser reconhecido, também fomos a torneios que nos deram alguma visibilidade e as atletas foram chegando, outras fomos conquistando. Normalmente, quando uma menina chega cá, dificilmente vai embora, porque as atletas que estão conseguem aceitá-las bem, quer seja boa ou não todas elas aceitam quem vem com muita garra porque sabem que o nosso crescimento depende disso. Neste momento temos 41 meninas (desde os 6 anos até aos 16 anos), em 2017 tínhamos apenas 4 ou 5.

Criaram a academia porque sentiam a necessidade de uma assim no concelho?

Rui Costa (RC): Sim, isto foi um projeto embrionário entre mim e o professor André Queirós que é o coordenador técnico da instituição, ele é o principal responsável. Juntamente com ele, começamos a pensar que havia uma falta no futebol feminino de 11. Pensamos que o futebol feminino estava espalhado pelos vários escalões
masculinos. Os clubes não apostam em criar equipas femininas de escalões mais baixos, só a partir dos sub-15 ou sub-17 é que apostam mesmo no campeonato feminino.

Têm concorrentes femininas?

LS: Não, não temos ainda, somos um projeto único no concelho de Gondomar. Somos o único clube que tem futebol feminino de formação. Já há clubes que começaram este ano com futebol feminino de seniores, no entanto nós somos únicos em Gondomar.

Que barreiras ou obstáculos é que uma equipa feminina enfrenta no mundo do futebol?

LS: Tendo como base a experiência que tenho neste meio, em todos os escalões femininos que temos as atletas têm que competir com os rapazes. É difícil porque os meninos nesta idade são fisicamente superiores, não quer dizer que sejam melhores, porque elas conseguem dar conta do recado. O maior desafio, a maior barreira, é o que ouvimos das bancadas. Os pais dos meninos não gostam que os filhos percam com meninas, dizem-lhes, por exemplo, para as “apalpar”. No campo tentamos ignorar estas situações. No entanto, tenho de frisar esta questão porque os pais são uma ponte muito importante entre as meninas e os responsáveis. Os pais das nossas atletas, têm um comportamento exemplar, claro que há situações que passam os limites, não vamos estar aqui a florear as coisas, mas, por norma, eles conseguem afastar-se do problema, conseguem gerir porque sabem que o interesse maior está dentro do campo, mas é cruel. Se há pessoas que elogiam, há pessoas que são muito más. Por outro lado, no escalão de sub-15 que são as mais velhas, a maior dificuldade é que as meninas começam a treinar muito tarde, em relação aos rapazes. Os meninos com apenas 4 ou 5 anos já jogam futebol, enquanto que uma menina, muito dificilmente, começa a jogar com essa idade. Então, quando nós chegamos ao escalão de sub-15 temos essa dificuldade, em ter que lhes explicar movimentos técnicos que já tinham de ser intrínsecas, há pessoas que nascem com essa naturalidade, com esse dom dentro do corpo, outras têm de ser ensinadas. Pode parecer mais fácil, e é, em
questões de maturidade, mas ensinar a técnica, o jogo em si, é difícil, por isso nós temos sempre esta barreira. Depois temos a dificuldade que um clube pequeno enfrenta, quando digo pequeno é comparado a quem tem a mesma formação que nós em academia de futebol feminino, há clubes que já têm uma estrutura pronta para isso, porque já têm um projeto com anos, e têm campos, disponibilidade, materiais, etc. Nós também temos, o que nos falta é um campo onde, por exemplo, não tenham de ser as meninas a ir buscar as balizas para poderem jogar, o facto de elas terem que buscar as balizas para poderem treinar, são 10 minutos de treino perdidos que fazem a diferença. Nós treinamos duas vezes por semana, o que é outra barreira, visto que nesta idade já deviam treinar três vezes por semana. Se forem ver escalões de iniciados, os rapazes treinam o dobro delas por semana.

Sentem que existe um preconceito perante o futebol feminino?

RC: O futebol feminino a nível nacional e internacional está a tomar proporções muito grandes. A associação de futebol do Porto cresceu em termos de atletas e esse crescimento baseou-se no futebol feminino. LS: Nós temos atletas, que me confessaram que era impensável para os pais elas treinarem a modalidade, porque existe o estereótipo que as meninas vão para o ballet e os meninos para o futebol. A nossa própria cabeça já está programada para pensar assim, e às vezes é difícil para os pais admitirem a esta realidade. RC: Isto é uma aposta muito grande da federação portuguesa de futebol, que está a apostar no futebol feminino, a própria UEFA está a fazer pressão para que o FCP tenha futebol feminino.

Acreditam que de certa forma conseguem moldar a personalidade destas atletas?

RC: Nós achamos que só a prática do desporto beneficia qualquer um. Tivemos já várias palestras sobre isso, acreditamos que qualquer prática desportiva é importante. O futebol é um desporto que elas gostam, que elas amam. É muito mais fácil dar um treino a uma atleta do que a um rapaz. Elas passam a estar muito mais concentra
das, quer no futebol quer na escola, nós temos uma preocupação escolar, pedimos as notas a todas as nossas atletas. LS: Todas elas são boas alunas. Queremos que a escola acompanhe o futebol. Nós conseguimos moldá-las, e transmitir-lhes valores, por exemplo, no ano passado apanhamos uma equipa com apenas 6 jogadores (nós jogamos com 7) e elas foram as primeiras a dizer que deveriam tirar uma para ficarem também com 6 jogadores. Todos os valores que lhes passamos moldam-nas. O facto de todas aceitarem as diferenças umas das outras, é um trabalho que é feito, porque todas têm personalidades diferentes e nós, como responsáveis, temos de saber como as levar. Acima de tudo, chegam aqui só com o gosto pelo futebol, mas saem daqui com uma autoestima mais alta e isso transforma-as, sabem que conseguem fazer tudo, basta é trabalhar.

Conquistaram agora a divisão de elite de sub-13, como se sentem?

RC: É um orgulho enorme para nós, vermos que as nossas atletas estão a crescer e estão cada vez mais fortes e isso é a base da sustentabilidade para o futuro, é aquilo que nós pretendemos, e o nosso objetivo é ir crescendo gradualmente para termos uma equipa sénior competitiva num futuro próximo.

Sentem o apoio das instituições (junta, câmara)?

RC: Para a academia de futebol feminino temos muitas dificuldades. Montamos um projeto na base de mostrar aos pais o que podemos fazer, mas não temos campo para isso, elas treinam aqui na relva, mas os jogos oficiais são na Ferraria, num campo pelado. Vai nascer mais tarde ou mais cedo o sintético aqui ao lado, o projeto para o novo campo já está encaminhado, já existe empreiteiro, já existe contrato. No início da época tivemos uma luta muito grande, primeiro, com a Câmara Municipal, que é aquela que nos poderia ajudar a arranjar um campo sintético para elas jogarem, mas só existe campo sintético em Valbom, mas esse não tem as marcações nem balizas de futebol de sete, quem nos ajudou foi o Grupo Desportivo da Pasteleira, estamos a jogar os jogos oficiais dos nossos escalões femininos na Pasteleira, que é um concelho vizinho. Não temos transportes, são os pais das atletas que ajudam. ■