Onofre Varela: “Comecei a tropa com quatro dias de cadeia e acabei a receber três louvores”

Foto PSF

Onofre Varela, autor do livro “191-Memórias de UM Soldado em Angola”

Aos 72 anos, Onofre Varela, ilustrador e cartunista gondomarense, escreve as memórias de guerra no livro “191 – Memórias de um Soldado em Angola”. Ao Vivacidade, o autor confessa ter vivido “períodos muito duros”, contudo, encontra também momentos de humor, “porque nem todos os dias eram de guerra”.

Quem conhece o seu percurso notará que este livro representa uma mudança de estilo. Existe uma carga dramática muito vincada e pouco habitual nas suas obras…
É verdade. Sou um cartoonista e caricaturista, por isso sempre estive dedicado ao humor, que é o meu modo de estar na vida. No entanto, desta vez decidi contar a minha experiência na Guerra Colonial. Foram anos em que a juventude passou as passas do Algarve em terras africanas, mas também tivemos momentos de humor, porque nem todos os dias eram dias de guerra.
No meu livro conto alguns desses momentos.

Porquê a escolha do número “191” para o título do livro?
É o número do meu trauma, o meu número da tropa. Era soldado- condutor autorrodas.

Esteve três anos em Angola, partiu com 20 anos para África. O que esperava encontrar?
Fiz 20 anos em setembro de 1964 e, em fevereiro de 1965, assentei praça e fui para Angola. O recrutamento era obrigatório e ser militar não me seduzia porque estava cheio de projetos e sonhos. Queria ser pintor e a minha vontade era desenhar e pintar, nunca ser militar.
Contudo, havia uma guerra e eu fui para África por dever patriótico. Nesse período de três anos a minha vida estagnou. Fui como soldado-condutor, mas não estava com vontade de lidar com armas e acabei por apanhar quatro dias de cadeia à custa disso mesmo. Foi assim que comecei a minha estadia em África.

Como foram os primeiros meses em Angola?
Foram muito duros. Aquilo não era o meu modo de vida e a certa altura reparei que estava a violentar-me. Numa noite de ataque ao meu quartel tive que fazer a autópsia de um camarada que tinha feito a viagem de barco comigo, no meu camarote.
Era um camarada de Ermesinde, cheio de sonhos e projetos, mas a vida dele acabou ali. Foi o primeiro a morrer e isso mexeu muito comigo. Depois disso mudei a minha filosofia, fui ter com o sacerdote do meu batalhão e propus a criação de um grupo musical e de um jornal.

Qual era o objetivo?
O objetivo era fazer um jornal mensal, inédito, que contava as histórias do batalhão dos “Galos”, o nosso batalhão. O jornal chamou-se “Alvorada” e tinha o símbolo de um galo a cantar em frente ao sol. Curiosamente, mais tarde, viria a ser o símbolo da UNITA.

E do grupo musical…
O grupo acabou por ser formado por soldados das quatro companhias do nosso batalhão. Tínhamos um baterista, viola solo, viola ritmo, saxofonista e acordeonista. Entretanto, eu fazia stand up comedy, ilusionismo, pintava cenários e fazia teatro. Foi assim que ocupei os meus anos de serviço militar, com espetáculos no mato para todas as companhias.
Comecei a tropa com quatros dias de cadeia e acabei a receber três louvores.

Porque é que só agora resolveu relatar a sua experiência na Guerra Colonial?
Nos primeiros anos, após o regresso a Portugal, não quis mais ouvir falar da guerra. As experiências que vivi ficaram-me gravadas na memória e interrompiam-me o sono durante muitas noites. Curiosamente, em conversa com um amigo que esteve em Angola, cheguei à conclusão que não era o único a ter pesadelos.

O livro foi uma forma de combater esse trauma?
Acabou por ser. Não me posso queixar da minha vida militar, mas a guerra é sempre horrível. Porém, as experiências que vivi na tropa foram importantes para o meu futuro, sobretudo a disciplina militar. O exército foi um curso superior.

Porque é que demorou a ser editado?
O livro demorou quarenta anos até ser escrito e oito para ser editado. A ideia inicial começou por ser um romance vivido no período da Guerra Colonial, no entanto, quando comecei a escrever percebi que não sou romancista.
Voltei a arrumar essa ideia na prateleira do esquecimento e só mais tarde, quando fazia teatro no Sá da Bandeira, é que me desafiaram a escrever um livro com as minhas histórias vividas em Angola.

Curiosamente, nunca utiliza as palavras “Guerra do Ultramar” ou “terroristas”…
Exatamente. Escrevo sempre “Guerra Colonial” e “guerrilheiros”. No final da II Guerra Mundial a ONU aconselhou os seus países-membros que tinham colónias, como Portugal, França, Holanda, Inglaterra, a darem independência aos povos colonizados, mas a independência não se dá a ninguém. É preciso lutar por ela.
Nessa altura, Salazar disse que Portugal não tinha colónias, tinha províncias ultramarinas desde o Minho a Timor. Essa esperteza saloia fez eclodir os movimentos independentistas africanos, que tiveram que lutar contra os colonizadores.
A Guerra Colonial foi injusta, roubou muitos filhos a pais, muitos pais a filhos e trouxe muita morte.

Olhando para trás, a Guerra Colonial continua a não fazer sentido?
Essa e todas as outras guerras fazem cada vez menos sentido. Julgo que os responsáveis pelos destinos dos países, os líderes políticos, devem ter capacidade de diálogo para resolver conflitos e evitar a todo o custo a luta armada. Matar homens é medieval.

Nas apresentações do livro tem afirmado que existem poucas obras sobre a Guerra Colonial…
Sim, e tive logo resposta [risos]. Há um site que tem uma lista de autores de livros sobre a Guerra Colonial. Contabilizei mais de 900 títulos, mas a maioria deles não são editados por editoras, apenas pelos autores. São livros distribuídos localmente e que ficam, na maioria dos casos, para os amigos.

Vê interesse histórico no seu livro?
Obviamente que sim. Em contacto com a juventude fico a perceber que ninguém sabe o que foi a Guerra Colonial e isso preocupa-me muito. Se um português não quer saber da Guerra Colonial é porque não quer saber da sua história nem do seu país.

O livro está a ser apresentado em vários locais. Quando será apresentado aos gondomarenses?
Está apalavrada uma apresentação pública do livro no Clube Gondomarense. A data ainda não está definida mas julgo que será em janeiro ou fevereiro.

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