Óscar Branco: “Andei durante muito tempo a bater com a cabeça nas paredes até descobrir a porta”

Entrevista Óscar Branco - abril 2018

Óscar Branco completa 40 anos de carreira em 2019 / Foto: Pedro Santos Ferreira

Nasceu a 2 de setembro de 1954, em Montalegre, mas veio muito novo estudar para o Porto. Óscar Branco, humorista, argumentista e ator, vive hoje em Jovim, Gondomar, onde encontrou a tranquilidade que procurava. Ao Vivacidade, recorda os altos e baixos de uma carreira que fará 40 anos em 2019.  

Óscar Branco, o humorista ou o ator?
Julgo que tenho os dois lados sempre comigo. São pessoas bastante diferentes, mas isso acaba por ser engraçado porque complementam-se uma à outra. No entanto, artisticamente são diferentes, apesar de haver comediantes que têm essa curiosidade de tentar o teatro. O contrário só acontece em desespero.

Vamos às origens. Como é que uma criança de Montalegre chega e faz vida no Porto?
Não foi difícil, o meu pai que pagou o bilhete até cá [risos].

Foi um bocado culpa dos meus irmãos mais velhos, que acabaram o sétimo ano da altura e tiveram que continuar os estudos no Porto. Na altura, Montalegre era uma vila humilde e quem quisesse seguir vida académica tinha, obrigatoriamente, que vir para o Porto.

Que recordações tem de Montalegre?
Recordo sobretudo a liberdade. Levantava-me e corria pelos campos, andava de burro e tenho grandes memórias da escola, período em que desgracei a minha vida [risos].

No inverno havia sempre gelo no caminho para a escola. No verão jogávamos ao botão e eu tirava os botões todos das roupas de casa. Depois cheguei ao inverno e não conseguia apertar os casacos porque não tinha botões. Foi bom, ensinou-me a não ter o vício do jogo.

Na altura, já era uma criança animada e bem-disposta?
Já era muito social e lembro-me bem da régua da professora. Quando vim estudar para o Porto a régua foi uma desilusão. Em Montalegre dizíamos que íamos levar bolos, até lhe chamávamos a Santa Luzia dos cinco olhinhos, porque era uma “arma” mais trabalhada.

Chego ao Porto com oito anos e vou para a escola pública. Os meus irmãos andavam na privada, por isso acabei por servir de cobaia. Estive na Escola da Sé e convivi logo com crianças que mais tarde se tornaram grandes criminosos e delinquentes. Foi bom, desde cedo aprendi a negociar o meu lanche.

E a matemática já era um fascínio?
Era! Acabei o ensino preparatório e o meu pai deixou-me escolher o que queria estudar. Olhei para a lista e achei que podia ganhar dinheiro através da engenharia. Lá acabei por escolher eletrotecnia, que na altura estava a dar os primeiros passos em Portugal. Acabei por seguir engenharia e ainda hoje gosto muito dessa área.

O que recorda se juntarmos as palavras: Leça da Palmeira, Paulo de Carvalho e 1983?
Um momento marcante na minha vida. Em 1983, fui com o Carlos Tê assistir a um concerto do Paulo de Carvalho, em Leça da Palmeira. O concerto estava atrasado e o dono do espaço, que sabia que eu era ator, pediu-me para desenrascar um número improvisado para entreter a plateia. Quando dei por mim, estava em cima do palco, vestido de cozinheiro e a contar a história de um funeral.

Foi o seu primeiro espetáculo de stand-up comedy?
Acabou por ser. Eu já fazia teatro, mas nunca tinha experimentado aquele registo. Entretanto integrei o grupo “Os Comediantes”.

Era um grupo diferente, que nunca teve apoios, mas percorríamos Portugal e Espanha com um grande número de espetáculos. São boas memórias da minha carreira.

É aí que a comédia se torna uma profissão?
É, quando reparei que já era tarde demais para voltar atrás [risos].

Acabei por me envolver naquilo e é evidente que há paixão no meio disto tudo. Tornou-se uma profissão relativamente cedo e em casa começou a pôr-se a hipótese de eu seguir esta carreira. Acabei por entrar numa companhia de teatro e estava iniciado o meu caminho no mundo do espetáculo.

Envereda então pelo humor, sem esquecer a capacidade de representar. Quando surge a sua primeira aventura na televisão?
Começo na RTP. O ponto de partida foi consequência do primeiro sketch que fiz naquele bar, em Leça da Palmeira. Ainda não existia o conceito de stand-up comedy em Portugal, mas despertou um certo interesse. Ao início todos acharam estranho, mas o público acabou por aderir. No final, o Paulo de Carvalho, que acabou por chegar e ficou a assistir, convidou-me para a apresentação de um disco na Aula Magna. Entrei a meio do concerto e fiz o meu espetáculo de improviso. Depois fui à RTP, fiz o meu primeiro sketch e comecei a fazer os primeiros programas da manhã. Foi tudo muito rápido.

Mais tarde torna-se comediante residente no programa “SIC 10 Horas”…
Sim, já vivia em Lisboa. Foram tempos fantásticos, passados com a Fátima Lopes, com quem tinha grande empatia. Desenvolvemos um género que mais tarde traria ao público comediantes como César Mourão, por exemplo.

Isto sem esquecer o “Levanta-te e Ri”, que foi um dos pontos mais altos da sua carreira.
Sem dúvida. O programa foi muito maltratado pela crítica. Inicialmente era um projeto prometido ao falecido Camacho Costa, que seria realizado com atores de revista e baseado em textos que vinham de Espanha.

No primeiro programa convidaram os atores dos “Malucos do Riso”, o Marco Horácio e o Fernando Rocha. Estes dois eram apenas convidados e não iam ficar no elenco.

No entanto, o Marco Horácio acabou por substituir o Camacho Costa, que já estava muito debilitado, e o Fernando Rocha, que se tornou um sucesso, também ficou como humorista residente. Entretanto, eu começo a ir ao “Levanta-te e Ri”, aparece o Nilton, o Aldo Lima e aquilo começa a mudar e a criar algum entusiasmo. Depois aparecem Bruno Nogueira, Ricardo Araújo Pereira, entre outros, e de repente há uma nova geração de humoristas.

Mas as críticas continuavam. Como lidavam com essa pressão semanal?
Havia o reconhecimento do público e as audiências não deixavam que isso fosse uma mentira. Os críticos sempre tentaram colar o programa a uma faixa suburbana, mas eu acho que foi uma das melhores experiências que se fez na televisão portuguesa. Depois tentaram repetir o formato, mas já não conseguiram.

O que ditou o fim do programa?
A SIC decidiu contratar um iluminado, um visionário vindo dos EUA, chamado Francisco Penim. Alterou tudo. Eu e o César Mourão chegamos a ser dispensados do “SIC 10 Horas” e ficou só o José Freixo e o pato Donaltim. O próprio programa mudou de nome e passou a chamar-se “Fátima”, tornando-se uma imitação da “Oprah”. De tarde passamos a ter o “Às 2 por 3” e o “Contacto”. As audiências desceram a pique.

Além disso, resolveu acabar com o “Levanta-te e Ri”. O mais desagradável foi o deelay de meia hora que a transmissão do último programa teve, porque tinham medo que algum dos humoristas desabafasse. Saímos todos revoltados.

Apesar desse final atribulado, o stand-up comedy continuou…
Porque decidimos formar um grupo, chamado “Clube de Comédia”, e partimos para outras experiências e novos espetáculos. Felizmente ficaram boas amizades e ainda nos vamos encontrando semanalmente, pelo país fora.

Sentem que marcaram uma geração que cresceu com vocês?
Sentimos isso e ainda hoje vemos isso nos nossos espetáculos. Sempre fomos muito diferentes entre nós, cada um tinha o seu registo e esse foi o segredo para o sucesso.

O Óscar ficou conhecido pelo humor de observação, baseado no quotidiano e pequenos gestos…
Sim, esse foi sempre o meu registo. Sou muito atento aos pequenos hábitos dos portugueses e isso torna mais fácil a identificação do público com os meus espetáculos.

Depois ainda fez parte do programa “Maré Alta”, novamente com o Fernando Rocha…
É verdade, mas já num formato diferente. Aparecem aqueles guionistas todos, alguns das Produções Fictícias… não gostava nada daquilo. Eu e o Fernando Rocha mudávamos aquilo tudo e ninguém se apercebia [risos].

Já disse várias vezes que devia ter saído mais cedo do “SIC 10 Horas”. Mantém essa opinião?
Mantenho, porque depois tornou-se difícil seguir um caminho próprio, mas nada contra a televisão. Aliás, até há pouco tempo estive em negociações para fazer um programa diário no Porto Canal, mas acabou por não se concretizar.

Agora estou a morar em Gondomar, porque a minha companheira é daqui, e é tudo mais calmo.

Tem projetos para Gondomar?
Neste momento tenho estabelecido um protocolo com a União das Freguesias de Gondomar (São Cosme), Valbom e Jovim. Eles cedem-me um espaço para guardar as minhas coisas e eu faço espetáculos para a Universidade Sénior de Gondomar.

Já tentei desenvolver um projeto com a Câmara Municipal de Gondomar, mas não notei grande vontade e a ideia ficou-se por aí.

Julgo que era necessária uma ideia que aproximasse os mais novos deste concelho. A tentação de fugir para o Porto ainda é muito grande e os jovens casais não se fixam em Gondomar, que tem uma das populações mais envelhecidas do distrito do Porto.

Voltando ao humor, hoje em dia quem é que o faz rir?
Em Portugal não há, atualmente, nenhum humorista de referência. Antigamente tínhamos o António Silva, o Raúl Solnado, o Herman… hoje não vejo ninguém assim. Somos todos sobreviventes.

Ao longo da sua carreira escreveu sempre os seus textos. Essa é uma vantagem para um humorista?
Acabou por ser. No início da carreira vivia numa solidão artísticas no Porto. Fui dos primeiros a ir para Lisboa, mas durante a fase inicial não tinha ligação a outros atores ou comediantes. Andei durante muito tempo a bater com a cabeça nas paredes até descobrir a porta.

Em 2019, vai assinalar os 40 anos de carreira. Tem algum espetáculo em mente?
Tenho sempre ideias novas, mas ando a precisar de um espaço para ensaiar. Gostava de apresentar um espetáculo no Porto no próximo ano, para celebrar o 40.º aniversário da minha carreira.

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