Pedro Sequeira: “É o sonho de todos os bons filhos regressar em definitivo à terra mãe”

Gondomarenses lá fora - abril 2018

Pedro Miguel Sequeira com a sua atual companheira em Cracóvia, na Polónia / Foto: Direitos Reservados

Pedro Miguel Sequeira, gestor gondomarense de 27 anos, aventurou-se pela Estónia há cinco anos, embora trabalhe, agora, na Polónia. Ao Vivacidade revela, entre tantas outras coisas, que estar realizado e ambicionar sempre mais podem ocupar um lugar comum.

O que te levou a ir trabalhar para fora de Portugal?
Eu tinha acabado a minha licenciatura em Gestão e Economia, sendo que comecei a mandar currículos e a única entrevista de trabalho que consegui foi para desempenhar funções comerciais numa empresa de medicina, higiene e segurança no trabalho. Não me sentia realizado como vendedor e almejava algo mais. Já durante a minha licenciatura tinha feito um semestre fora de Portugal ao abrigo do programa ERASMUS. Foi uma experiência fantástica a nível académico e pessoal. Tendo eu dificuldades para trabalhar na minha área em Portugal, comecei a procurar oportunidades lá fora. Inscrevi-me no programa AIESEC, uma plataforma internacional que possibilita programas de estágio em diversos países do mundo. Depois de alguns meses consegui uma proposta para fazer um estágio de marketing na Estónia e decidi arriscar.

Após um ano na Estónia, resolveste dar um passo atrás para depois dares dois à frente?
Posso dizer que sim. Um amigo meu polaco falou-me de uma empresa em Cracóvia que estava a recrutar profissionais que dominassem a língua portuguesa para uma empresa de “call center”. Era um trabalho que não me interessava muito, mas decidi aceitar porque profissionalmente já não estava a aprender nada na Estónia e porque o meu amigo me tinha dito que mesmo no caso de não gostar do trabalho, muitas multinacionais estavam a abrir escritórios na Polónia, e esta oportunidade poderia abrir-me muitas portas. E tinha toda a razão, 10 meses depois mudei de empresa e comecei a trabalhar como analista de tecnologias de informação. Desempenhei essa função durante dois anos e meio em duas empresas diferentes, sendo que este ano comecei a trabalhar como gestor de incidentes na Cisco. Dei mesmo um passo atrás para mais tarde poder dar dois à frente.

Apesar da distância, continuas atento ao que se passa em Portugal?
Tento sempre estar mais ou menos informado, até porque continuo a ter família e amigos a viver em Portugal e preocupo-me bastante com eles.

E no nosso concelho em particular?
Não só em Gondomar, mas também no distrito do Porto em geral. Hoje em dia, o melhor meio para se manter informado é o Facebook. Tenho vários amigos que vão publicando notícias sobre o que se vai passando no Norte do país e é sobretudo por aí que me mantenho informado.

Sentiste muito o impacto cultural nos diferentes países em já trabalhaste?
Na verdade, não senti muito. Talvez por já ter estado nesta zona da Europa antes. Claro que existem pequenas diferenças, uma vez que aqui as pessoas são mais fechadas, mais frias. Por exemplo, eu se for duas ou três vezes ao mesmo café em Portugal, eu e o proprietário já somos os melhores amigos. Aqui posso ir durante cinco anos, todos os dias, à mesma loja e eu e o proprietário continuamos só a dizer “Olá” e “Obrigado” um ao outro. Também aqui as pessoas iniciam tudo mais cedo. Começam a trabalhar mais cedo e comem mais cedo. Aqui as horas de ponta são as 7h e as 16h, é difícil encontrar um restaurante que sirva almoço depois das 14h e jantar depois das 21h. Recentemente fiz também uma viagem ao Nepal e descobri que lá as mulheresmenstruadas ficam forade casae sãoobrigadas a dormir em abrigos de vacas, sendoque nesse mesmo país as pessoas bebem a urina da vaca, dado que consideram que a mesma é sagrada. Isso sim é um choque cultural.

E qual a parte menos boa de estares empregado a milhares de quilómetros de distância do teu “Porto” de abrigo?
Estar longe da família e dos poucos bons amigos que deixei para trás. Sem dúvida. A comida e a temperatura nesta zona da Europa também não ajudam a enganar a saudade.

Há cerca de quatro meses, voltaste a Cracóvia para trabalhar na Cisco como gestor de incidentes. Sentes-te realizado ou ambicionas mais?
Ambicionamos sempre mais na vida. Mas um passo de cada vez. Olhando para o meu percurso profissional posso dizer que quase sempre fui evoluindo, tanto no aspeto profissional como no aspeto salarial. Posso dizer que estou contente com isso. No entanto, mesmo que no futuro me sinta realizado vou sempre ambicionar mais.

Deves, seguramente, ter colecionado algumas peripécias durante estes cinco anos fora de Portugal. Podes contar-nos uma delas?
Na Estónia é normal esticar o polegar na berma da estrada para pedir boleia a estranhos. Estava a viver em Tartu e precisava de ir para Tallinn. Então fui eu e um colega para a estrada, esticamos o polegar e, passados cinco minutos, um carro parou para nos levar. Dentro do automóvel estava uma senhora com a sua filha pequena. O meu colega e a senhora começaram a falar no idioma local, quando de repente ouço o meu colega a dizer a palavra “Portugali”. Assumi que a senhora lhe tinha perguntado de onde é que eu era. De repente a senhora e a filha começaram a falar português comigo. Pelos vistos, a senhora tinha estado a viver em Portugal e a filha tinha nascido lá.

Tem sido uma experiência muito enriquecedora?
Sim, tem sido uma experiência enriquecedora a muitos níveis. Primeiro porque lidar e trabalhar todos os dias com pessoas de nacionalidades diferentes enriquece-nos a nível pessoal. Ir para um novo país e começar do zero nesse local é importante também para desenvolver a nossa independência e autonomia. Tenho, igualmente, feito amizades para a vida com pessoas de nacionalidades diferentes da minha, algo que contribui muito para alargar os nossos horizontes e ter uma perspetiva distinta e mais abrangente do mundo.

Faz parte dos teus planos regressar em definitivo a Portugal?
Sim, claro. É o sonho de todos os bons filhos regressar em definitivo à terra mãe. Mas neste momento sinto que não tenho condições a nível profissional para regressar. Não acredito que em Portugal possa desempenhar estas funções com as mesmas condições salariais. Hoje em dia, as pessoas que saem de Portugal estabelecem-se no país que os recolhe. Eu, neste momento, tenho uma namorada e umcão aqui, o que também dificulta muito o meu regresso a curto prazo.

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