Raquel Cascarejo: “Depois de emigrar senti-me muito mais ligada às minhas raízes”

Raquel Cascarejo - fevereiro 2018

A gondomarense é assistente de bordo na Emirates / Foto: Direitos Reservados

Raquel Cascarejo, orgulhosa gondomarense de 26 anos, decidiu arriscar no recrutamento da Emirates e foi feliz, tornando-se assistente de bordo. Mudou as malas para o Dubai, embora vá dividindo a sua vida por todo o mundo, enquanto as saudades a relembram do paraíso português. 

Como surgiu a oportunidade de ires trabalhar para a Emirates?
Esta oportunidade surgiu um bocadinho por sorte, confesso. Sempre tive o bichinho de pelo menos tentar enveredar por este caminho e ser assistente de bordo, mas mais como plano B caso não conseguisse algo satisfatório na minha área: jornalismo e relações públicas. No entanto, esta opção surgiu mais cedo do que previa e decidi tirar uns dias para arriscar no recrutamento da Emirates. Para grande surpresa minha, acabei por ir passando todas as fases e a coisa foi ganhando forma e ficando cada vez mais séria. Depois achei que era uma oportunidade única e que não podia deixar escapar: os benefícios e ajudas, o salário bastante apelativo e todo o crescimento pessoal que o facto de ter de viver fora da minha zona de conforto me proporcionaria. Quando liguei aos meus pais a dizer que tinha entrado e que ia viver para o Dubai, eles nem queriam acreditar e pessoalmente só tive o “clique” quando tudo já estava a acontecer e me vi dentro do avião com um bilhete só de ida.

Mas sempre foi um sonho teu conciliar a vida profissional com a possibilidade de conheceres o mundo inteiro a viajar?
Sinceramente, nunca tinha pensado em aliar as viagens à minha vida profissional. Mas gosto de desafios novos e como desde sempre viajei muito em lazer, a vantagem de conciliar as duas coisas foi mais um extra do que propriamente o objetivo principal desta aventura. Contudo, adoro o facto de muitas vezes sentir que não preciso de tirar férias do meu trabalho.

Apesar da distância, continuas atenta ao que se passa em Portugal?
Sim, claro! E acho que muito mais agora do que antes. Pode parecer um bocadinho cliché, mas depois de emigrar senti-me muito mais ligada às minhas raízes e aprendi a valorizar muito mais o meu país. Vibrei muito quando ganhamos o Europeu, na final de Paris, e também com a vitória no Festival Eurovisão da Canção pela voz de Salvador Sobral.

E no nosso concelho em particular?
Também. O ano passado não deixei de votar nas autárquicas, por exemplo. O orgulho em Gondomar é gigante, ou não tivéssemos sido eleitos a Cidade Europeia do Desporto em 2017 e recentemente reconhecidos uma vez mais através do craque Ricardinho, outra vez eleito o melhor jogador do mundo de futsal. Tento sempre consumir um número significativo de notícias e estar a par de tudo o que se passa no nosso concelho.

Qual a parte menos boa de estares a trabalhar longe de casa?
Tudo se resume a esse sentimento muito nosso que não se traduz noutra língua: a saudade. O estar longe da minha outra casa e dos meus animais de estimação, o sentir muitas vezes que vivo duas vidas diferentes e que me divido entre dois países, as “minhas pessoas” que deixei para trás, a nossa comida, o clima, a simplicidade da gente do Norte comparada com o show off e a “artificialidade” do Dubai, a falta de colo dos pais principalmente quando se está doente… Não é fácil viver fora, porém, vou praticamente todos os meses a Portugal, até porque o meu namorado está aí.

Ainda assim, foste bem recebida no Dubai?
Fui muito bem acolhida no Dubai. Os primeiros meses são os mais difíceis mas com tanta adaptação e treino para aprender nem há tempo quase para respirar e sentir saudades. Há toda uma cultura para absorver, pessoas para conhecer, uma cidade para explorar e uma bíblia para estudar com um treino intensivo de 3 meses associado.

Deves, certamente, ter colecionado algumas peripécias durante as centenas de voos que realizaste. Podes contar-nos uma delas?
Agora assim de repente estou-me a lembrar de um dos meus primeiros voos para um destino algures na Arábia Saudita. Como sabes, Portugal esteve durante muitos anos sob influência árabe com a invasão muçulmana da Península Ibérica e, pelos vistos, Portugal em árabe lê-se “bortuqal” e significa também “laranja”, o fruto. Sendo que aprendi isso da pior maneira. Ora eis que estava a passar com o meu carrinho quando pergunto a um passageiro o que gostaria de beber e ele olha para mim e diz “bortuqal”. Eu, que andava a voar há escassos meses e ainda não sabia nenhuma palavra em árabe, fiquei logo toda contente e apontei para a nossa bandeira no meu colete e disse toda orgulhosa “yes, yes, I am from Portugal!”. Escusado será dizer que o senhor ficou a olhar para mim e decidiu apontar para o sumo de laranja e repetir “bortuqal. Juice! Juice!”. E eu a pensar que era a primeira vez que reconheciam a bandeira sem associar logo ao Cristiano Ronaldo [risos]. Fiquei logo do tamanho de uma ervilha.

Viver na Ásia assume-se como uma experiência muito diferente comparando com o nosso país?
Habituei-me a um estilo de vida muito diferente. Aqui as portas abrem-se todas sozinhas, literalmente. Em todo o lado há “vallet parking”, pelo que não nos temos de preocupar em estacionar o carro, por exemplo. É normal ver um Ferrari ou um Rolls-Royce. No entanto, é muito visível a diferença de classes e isso é algo que irá sempre fazer-me um bocadinho de confusão. De resto, em termos culturais e religiosos, existem algumas semanas por ano em que a diferença se acentua bastante devido ao Ramadão.

Consegues eleger o sítio que mais gostaste de conhecer durante esta longa aventura?
Não consigo mesmo. Até porque depois de praticamente 3 anos continuo a somar novos destinos à minha bucket list. Ainda assim, existem alguns sítios que me surpreenderam muito pela positiva e aos quais adoro sempre regressar. Singapura e Cidade do Cabo são dois exemplos.

Faz parte dos teus planos regressar em definitivo a Portugal?
Sim, apesar de agora me aperceber da mentalidade um bocadinho fechada que o nosso país ainda tem comparando com alguns países. Para já, ainda não me fartei desta vida de andar sempre de mala atrás e com isto aprendemos que o significado de “casa” não é necessariamente um lugar, mas sim uma ou várias pessoas ou até o mundo todo. Enquanto as coisas boas continuarem a compensar as menos boas é nos Emirados que ficarei. Porque é um objetivo meu conseguir juntar o suficiente para, depois disto, abrandar um pouco o ritmo e aí sim considerar assentar. Um dia, quero muito voltar em definitivo para o nosso cantinho à beira mar plantado, até porque também ele é “casa” para mim.

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