Ricardo Carriço: “As pessoas do Norte são mais genuínas do que as daqui, do Sul”

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Comecemos pela tua vida antes da representação. Que potencialidades tiraste/aproveitaste do curso que fizeste em Design de Interiores de Equipamentos Gerais?

Acabei por nunca encontrar essa ligação entre uma e outra, pois ao terminar o curso iniciei-me na televisão. Mas, de repente, quando comecei a trabalhar com a «Confluência – Associação Cultural» um dos primeiros espaços que recuperei era um teatro; mais tarde, o presidente de então de Cascais, António Capucho, cedeu- nos uma antiga cavalariça que transformei num teatro com 140 lugares; e, depois, saímos dali e fomos para uma antiga discoteca. Também peguei nela, reestruturei, reinventei e reutilizei material e construímos mais um teatro para 140 pessoas. Portanto, quando eu achava que nada tinha a ver com nada, afinal tudo tinha a ver com tudo! E é engraçado como estes mundos e universos que se tocam, que julgavas que não tinham importância nenhuma, passam a fazer sentido e todos eles fazem conexão entre si.

Durante a tua fase de liceu viveste três anos nos Açores, onde te desafiaram para uma passagem de modelos e descobriste aí esse teu jeito… Isso foi decisivo e preponderante para a tua vida futura?

Quando no início vais fazer um desfile para os teus colegas que são finalistas, para ajudá-los a arranjar umas ‘massas’, vês que mais tarde acabam por surgir outras oportunidades. Lembro-me da Wanda Stuart me convidar: ela organizava alguns eventos. Mais tarde, apareceram desfiles de trajes tradicionais e depois passei a ser apresentador. Tudo isto começou a aparecer sem eu nunca dar conta. A determinada altura disseram-se: quando voltares ao continente vai à procura, vai a uma escola de manequins, porque tu tens jeito. Estavam a começar a acontecer uma série de trabalhos nessa altura. Quando voltei tirei um curso de modelo fotográfico, quando a maior parte tirava o curso de técnicas de passerelle. De algum modo, mais tarde, veio ajudar-me muito na representação, porque havia muitos exercícios comuns. Teve graça porque, mais uma vez, as coisas acabaram por se complementar.

E sendo tu de Cascais e tendo estado esse tempo fora, que proximidades e semelhanças encontraste – e mais gostaste – em Angra do Heroísmo, para além da ligação de ambas ao mar?

Cascais é a terra da minha família, onde tenho amigos de infância e conheço-a “de lés a lés”, como as palmas das minhas mãos. Em miúdos éramos pequenos vaga- bundos: íamos para todo o lado juntos, no meio das rochas e em casas abandonadas, nas nossas aventuras. Quando eu vou para os Açores tinha 14 anos e, de repente, vês que mudas tudo, para um sítio completamente diferente do teu. Sem conheceres ninguém, começas como se fosse do ponto zero. Isso é interessante porque criei aí amizades que duram até hoje, com pessoas com quem me dou muito bem. Lembro-me que Angra é uma cidade com grande património histórico e parte dela estava um pouco destruída, com a história dos terramotos. Eu fui logo a seguir a esse terramoto. Tudo isso, de algum modo, marcou-me! (…) Gostei imenso. Havia uma sensação incrível de liberdade.

Para além da tua vida de manequim, encontraste outra vocação e nela entraste: a música. Fundaste há, precisamente, 35 anos uma banda de que eras o vocalista, tendo apenas um álbum editado. Mantém-se essa tua veia artística? De que forma?

Essa banda era «Os Ibéria». É engraçado que há dias encontrei o realizador Tomás Duran e descobri que o pai dele era um dos elementos da banda. Rimo-nos à gargalhada com isso. Quando regressei ao continente e na transição de manequim para ator, estava a trabalhar no bar «Bairro Alto». Nessa altura, o Otávio Pimenta (hoje conhecido como Otávio Sousa) tocava lá e virou-se para mim e desafiou-me: queres concorrer ao Festival da Canção? Eu disse: quero! O Otávio continuou: sou eu, três rapazes e três raparigas – mas falta-me uma rapariga. Arranjei-a e assim fomos, no ano em que ganhou a Dulce Pontes. Ficámos em segundo lugar, o que é um honra perder para a Dulce Pontes. E assim ficou. Depois “adormeci” uns tempos. Quando estive na Confluência, havia algumas tertúlias em que se acabava a cantar e a dançar. E eu saltava para o palco e o ‘bichinho’ instalava-se. Até que um dia faço o meu aniversário lá, peço a uma data de amigos músicos que fossem lá tocar – era o meu presente – e todo o dinheiro da bilheteira revertia para a Associação. Era a prenda que eu queria. Foi engraçado que no final eu fui cantar dois temas e correu muito bem. Mais tarde, o Rogério convidou-me a cantar com ele. Fiz alguma estrada, até que um dia o produtor do tema «Um pouco mais» disse-me que queria gravar um disco comigo. Perguntei porquê. Ele respondeu-me: porque está feliz em cima do palco. E é um facto! Há cinco anos surgiu esse single e agora surgiu o meu novo CD, «O Meu Mundo». Está a ser muito giro, mas vários concertos que tinha este ano ficaram cancelados por causa da pandemia.

Ora, em meados/finais da década ’80, deste-te a conhecer mais ao público como apresentador dum programa televisivo na RTP2. Foi algo intuitivo, sem precisares de formação, ou não foi uma experiência que tivesses apreciado tanto?

Volta a ser engraçado porque a vida dá sempre volta. Já conhecia o Paulo Miguel Fortes, que foi o primeiro fotógrafo que me fotografou. Anos mais tarde volto a encontrá-lo, no avião, mantivemos contacto, falei-lhe da minha história da representação e ele pegou em mim, estando numa produção: convidou-me para apresentar o «Lusitânia Expresso». Essa foi uma altura intensa, com quatro gravações simultâneas de produções distintas, estando meia semana no Porto, meia em Lisboa e, de- pois, duas noites a gravar esse programa.

Consideras que isso ficou positivamente na memória das pessoas, sempre com a mesma felicidade em palco como quando cantas?

Essa é uma maneira muito própria de ser. Gosto muito de improvisar. Como tenho noção do espetáculo e de como se faz, não tenho só atenção ao público, mas em tudo o que está à minha volta. No fundo, dou segurança a quem organiza.

Por exemplo, tal aconteceu nas Galas de eleição da Miss Portuguesa, em 2018 e 2019, ambas no município gondomarense. O que achaste e como descreves tanto o Parque Urbano de Rio Tinto, como a Casa Branca de Gramido, locais onde se realizaram os certames?

Para já, qualquer sítio que tenha ao lado uma coisa que se chama ‘rio’ é lindo! O Parque achei-o interessante porque lembro-me de, antigamente, vê-lo quando ia ao Porto e aquela era uma zona um pouco ‘morta’. E de repente, vemos em Rio Tinto, uma recuperação urbana incrível, criando espaços para toda a gente. Isso é muito bom! O Porto deu um salto enorme e está uma cidade extraordinária: todos os arredores beneficiaram e conseguiram ganhar muito com isso.

Para além dos lugares – e dado que privaste pelo menos por duas ocasiões com pessoas locais, como defines e comentas o carácter e forma de ser/estar das gentes de Gondomar?

Costumo dizer que as pessoas do Norte são mais genuínas do que as daqui, do Sul. Daí a expressão: “é a malta do Norte, carago!”, por serem mesmo francas e verdadeiras. Falam com o coração na garganta, como costumo dizer. Eu comecei a ir ao Porto com 18 anos e, ainda hoje, tenho grandes e bons amigos daí. E adoro! Não é que em Lisboa não haja pessoas boas, mas é a história de estarmos na capital e há defesas normais que as pessoas têm… Mas de modo geral, também mais a sul e no interior, somos muito acolhedores. É tipicamente português.

Mas ainda verificas muita daquela rivalidade do passado entre Porto e Lisboa, que não só em termos futebolísticos e políticos, ou já não?

Eu acho que a diferença aqui é que em Lisboa as pessoas andam todas viradas de costas umas para as outras, enquanto no Porto estão viradas de frente. Isso nota-se no meio cultural. No Porto, a Cultura mexe muito, é muito ativa e os agentes culturais falam muito uns com os outros. Esta é a sensação que tenho. Em Lisboa, não se fala tanto. São uns géneros, é quase como se fossem clubes.

Voltando então atrás – ligado ao teu presente –, logo no início dos anos ’90 começaste a representar em séries televisivas, telenovelas e teatro. Podemos dizer que aí descobriste a tua maior paixão?

Eu já como manequim tinha descoberto uma ligação muito forte ao público. Hoje vemos manequins a andarem para a frente e para trás sem olhar para o público. No meu tempo éramos ‘obrigados’: pediam-nos para olharmos para o público. Tínhamos de estar bem, de lhe sorrir e comunicar. Com os desfiles tornou-se mais simples e mais fácil, para mim, o ser ator.

Assim me exprimi, como se finalmente te tivesses sentido mais “como peixe na água” ao seres ator, tendo em conta que– atualmente e nestas três décadas completas – contas com trabalhos em 44 produções televisivas e integras o elenco em 12 filmes…

Sim, representar é, certamente, a minha paixão.

Parece-te muito ou é, ainda, pouco para o que ambicionas e olhando para a excelência do decano dos atores portugueses, o querido Ruy de Carvalho, ainda em ação?

O Ruy de Carvalho é daquelas pessoas extraordinárias. É um excelente ator e é uma jóia de ser humano. É, de facto, o avô de todos os portugueses. É engraçado que a minha formação foi com os atores todos da geração do Ruy de Carvalho. Aprendi com eles aquilo que é a grande humildade do ator. Por isso arrepio-me um bocadinho quando vejo algumas pessoas “todas arrebitadas”. E olho para um senhor, como o Ruy de Carvalho, com aquela grandeza e aquela generosidade, como tantos outros que ainda temos o gosto e prazer de os ver fazer televisão.

E sentes falta daquela tua adrenalina como outrora? Pois, atualmente, porventura não abundam tantos trabalhos ao mesmo tempo…

Essa adrenalina voltou a acontecer este mês, com as gravações para a nova telenovela de que faço parte e que estreará em setembro.

Sei que, ultimamente, falaste nos Media sobre o Pedro Lima, por tu conhecê-lo há 35 anos e teres sido o seu ‘padrinho’ na representação, além de teu vizinho. E agora substitui-lo nas gravações dessa nova telenovela. Depois de tanto teres pensado nisto, de ter mexido contigo e com todos os que o conhecíamos, ainda te surgem – no teu âmago – quaisquer questões e dúvidas?

Há uma coisa que se chama «profissionalismo» e que te obriga, mesmo com alguma frieza, a criar um distanciamento para contigo e para com toda a equipa. A uma dada altura, tu guardas as tuas memórias e recordações e a vida continua. Não podes estar permanentemente agarrado a algo do teu passado. Por isso, digo que a melhor forma de homenageá-lo é substituí-lo, com todo o gosto, querendo fazer um excelente trabalho em homenagem ao Pedro. Agora, a vida segue.

 

Falando nós de um problema tão grave como a depressão, em que o nosso SNS não tem dado a devida atenção, investi- mento ao combate e preocupação, e não se tratando de atribuir aqui culpas a este ou aquele, como achas possível que afinal – por detrás daquela exterior disposição boa e sorridente – a pessoa esteja num abismal caco interior e ninguém dá conta…

A depressão é silenciosa. E ela pode evoluir para vários lados. A consciência que tenho e faço desta tua questão é: importa que estejamos atentos aos sinais dos outros. Para podermos perceber o que se passa nas suas vidas. Se calhar este confinamento obriga-nos a olhar um pouco mais pelos outros, em vez de estarmos de costas e de pensarmos nas nossas «megalomanias». Está na altura de nos olharmos de frente e percebermos os sinais que os outros nos passam.

Se me permites perguntar, com um intuito pedagógico e até para servir de conselho e mensagem de ânimo/coragem aos que enfrentam a mesma situação ou similar, como conseguiste superar há uns anos o vício da droga, que não apenas nos momentos em que te defrontaste com ela?

Tens de ter consciência das coisas. Ou tens consciência que queres sair ou então não tens. A primeira vez que falei disto foi há muitos anos, numa entrevista ao Daniel no «Alta Definição». De repente, quando faço o lançamento do meu livro, há dois anos, volta mais uma vez esta explosão mediática em torno disto. Nunca ninguém consegue ver qual o lado positivo da coisa. Eu não sou o «super-homem», mas todos nós temos momentos bons e maus. Agora, ou temos a capacidade de os identificar e partilhá-los, ou não temos e enterramo-nos. Eu tive essa capacidade de partilhá-los, porque achei que o devia fazer com quem estava, por ter sido uma verdade da minha vida. O que é genial nisto tudo, para mim, é descobrir que tantos outros que não o faziam passaram a partilhar, por alguém ter aberto portas. Para mim foi significante, e gratificante ao mesmo tempo, quando soube que praticamente consegui ajudá-las, orientá-las e “a partir cascalho” – como costumo dizer. O falar sobre isso com elas é no sentido de ultrapassar a situação, de criar regras e hábitos em outras coisas que não nos desviem a atenção ou nos deixem sem ela.

Falámos sobre o teu passado e o teu presente. Falemos, agora, do futuro. Não propriamente o teu, mas olhando à atualidade e de modo geral. Como irá tudo encarrilar?…

Considero isto um grande desafio. Não quero ser pessimista, mas será uma questão de sobrevivência. As empresas terão de sobreviver. Como? Não sei! Ou sobrevivem ou morrem. É preciso ultrapassar perante o sistema económico, que está todo ele abalado. Os espetáculos não acontecem. Ou, se acontecem, é com muito menos público, porque há regras para cumprir! O futuro, neste momento, a Deus pertence. Completamente! Vamos ter fé, força e fazer com que a nossa cabeça não entre em depressão. É um desafio, para mim, em viver assim todos os dias e um dia de cada vez.

Abordaste aqui dois termos que realço: «Deus» e «fé». São o teu porto de abrigo, a força que precisas? Assumes-te como pessoa crente, com espiritualidade, ou não?

Assumo-me como pessoa crente. Tenho a minha fé. Não sou assim tão praticante, como outras pessoas, mas alimento esta espiritualidade. Acredito que há algo mais acima de nós, que me dá essa força. Contudo, a fé só existe verdadeiramente se lutares por ela. Não podemos dizer que temos fé e ficarmos sentados à sombra da bananeira, à espera que as coisas aconteçam. A fé existe e exige que tenhas vontade de triunfar e de seguir em frente. E assim resulta!

Queres deixar alguma mensagem final de incentivo?

Peço-vos que tenham coragem, força e não desistam. Aproveitem para estarem mais próximos daqueles que nos são próximos, para entendermos o que vai na cabeça deles. Tentemos melhorar o nosso dia-a-dia. ▪

 
 
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