Ricardo Couto: “Há uma tendência dos humoristas para chocar e não acho que isso seja bom”

Ricardo Couto é natural de Valbom / Foto: Pedro Santos Ferreira

Ricardo Couto, 25 anos, descobriu o talento para a comédia em 2016, após ter atuado no NOS Alive. Desde então, o percurso é longo e o humorista é, hoje, responsável pela apresentação diária dos programas da manhã da Rádio Nova Era, tem um programa exclusivo no RTP Play e contabiliza mais de 200 espetáculos ao vivo. Em Gondomar, concelho onde nasceu, ainda não atuou, mas espera concretizar essa desejo em breve.  

Ainda te confundem muito com o apresentador de televisão, Ricardo Couto?
Confere, já me aconteceu. Nos meus tempos de jornalismo, liguei a um senhor, disse que era o Ricardo Couto e notei grande entusiasmo na voz do lado de lá. Depois o senhor fez questão de me perguntar se eu era o Ricardo Couto do Porto Canal, eu disse que não e o entusiasmo desvaneceu-se logo ali [risos]. Foi a desolação completa.

Já passaste pelo jornalismo, tiveste uma experiência de sucesso no cinema [vencedor do Prémio Sophia Estudante] e agora estás mais empenhado na comédia. Há alguma data que marque a tua transição para este setor?
Eu gosto de estrear-me em sítios pequenos, então decidi começar no NOS Alive, em 2016. Costumo dizer que abri para Radiohead [risos].

Essa oportunidade surgiu graças a um concurso em que participei, incentivado pelos meus amigos. Fiz um vídeo que me deu a oportunidade de atuar no Palco Comédia do festival e esse dia mudou a minha forma de pensar. Deixei de sonhar com o dia em que faria stand-up e passei a pensar na próxima vez que faria stand-up. Quebrei o obstáculo mais difícil, que foi subir ao palco pela primeira vez.

Fui convidado para um espetáculo, dois meses depois, mas ainda estava numa fase experimental. A partir daí criei um texto e estreei-o no dia 1 de dezembro de 2016. Considero que foi nessa data que a minha vida passou a ser mais centrada no humor. O espetáculo foi no Maus Hábitos, no Porto. Felizmente foi um sucesso e hoje tenho cerca de 200 espetáculos realizados.

Como é que se passa de umas piadas com amigos para cima de um palco com um público à espera de rir?
Foi um desafio estimulante, mas para mim é sempre melhor tentar fazer rir pessoas que não conheço de lado nenhum. No entanto, não posso deixar de referir a minha formação em jornalismo e a experiência que tive no cinema. Penso muito no mundo como artista e como comediante. Expresso-me nesse olhar cómico e em piadas. Ter uma profissão ligada a isso é a cereja no topo do bolo.

É justo dizer que apostas muito na comédia de observação?
Sim, porque sou muito atento aos pequenos pormenores do quotidiano e aos hábitos das pessoas que me rodeiam. Acaba por ser justo dizer isso, mas faço esse tipo de comédia sempre numa ótica auto-depreciativa e irónica, porque olho sempre por uma perspetiva pessoal. Se eu brinco comigo mesmo, à partida posso brincar com quase tudo.

Tens muitos textos sobre ti e também fazes muitas piadas sobre Gondomar…
Sem dúvida. Acho que tudo tem um significado. Falo muitas vezes de Gondomar, porque sou daqui, mas as experiências que retrato não são exclusivas de Gondomar ou dos gondomarenses. Contudo, nunca vou poder apagar a minha vida, o meu passado, em Gondomar.

Tens limites no humor?
Eu gosto de todos os tipos de humor que tenham piada. Se houver um ponto de vista original sobre um tema, pode tornar-se engraçado, mas há uma tendência dos humoristas para chocar e não acho que isso seja bom.

Trabalhaste a tua formação humorística ou tudo o que sabes hoje é resultado da tua experiência em cima do palco?
Eu considero todos os workshops de escrita criativa banha da cobra. A comédia pode ser aprendida, mas eu optei por estudar na esfera da comunicação e, dentro disso, fiz experiências em relação à comédia. Ou seja, formei-me e depois adaptei-me a este estilo.

Passaram cerca de dois anos desde a tua data de estreia até hoje. Estás com mais de 200 espetáculos. Que experiências é que te marcaram mais?
No Porto temos uma vantagem, o circuito de stand-up comedy é muito mais intenso e temos a oportunidade de conhecer vários comediantes. Agora já sou cabeça de cartaz em vários sítios, mas quando se começa fazemos 10 minutos numa noite com dois ou três comediantes. É incrível porque começamos logo a lidar com os melhores comediantes nacionais. Isso dá-nos muita experiência.

O Rui Xará é um dos principais impulsionadores do stand-up comedy nacional e acabou por estar envolvido na tua carreira. Como tem sido essa relação?
O Rui foca-se muito no circuito do norte do país, mas é a pessoa que procura promover o maior número de comediantes a nível nacional. O Xará trabalha sobretudo no circuito “underground”, mas já me permitiu atuar com vários humoristas conhecidos: Fernando Rocha, Hugo Sousa, João Seabra, Eduardo Madeira, Miguel 7 Estacas, entre outros. Só lhe posso agradecer por me ter dado essa oportunidade.

Entretanto, respondeste a um anúncio de locução e acabaste por te tornar apresentador das manhãs da rádio Nova Era…
Estava a trabalhar numa produtora e estava à procura de alternativas de emprego, porque queria fazer mais coisas. Vi um anúncio de locução, algo que sempre me interessou, e respondi, achando na altura que seria para publicidade, até porque o anúncio não era muito explícito.

Enviei o meu curriculum, pediram-me um teste para as manhãs, fui lá, gravei um texto e fiz um teste com a Sílvia Braga, que hoje faz comigo as manhãs da Nova Era. Depositaram grande confiança em mim e isso foi excelente. 

Apresentar as manhãs de uma rádio é também uma grande responsabilidade. Como é que encaraste esse novo desafio?
É, de facto, uma grande responsabilidade, mas costumo dizer que prefiro surgir na vida das pessoas quando elas ainda não estão cansadas, porque eu digo muita parvoíce.

A rádio é um meio espetacular e tem-me trazido grande reconhecimento. Já cheguei a receber mensagens de Angola e isso dá-me muita pica, porque sinto que o meu trabalho está a ser ouvido em todo o lado. Além disso, acaba por dar muita liberdade para experimentar piadas novas, por exemplo.

Tens também um novo programa [“Diário de um miserável”] na Antena 1. Como é que surgiu essa oportunidade?
A RTP tem uma consulta de conteúdos aberta para televisão e para rádio. Apresentei esta ideia, inicialmente, na Academia RTP e brevemente vou estrear também uma série online, que será um exclusivo RTP Play. O que ouvimos no “Diário de um miserável”, na RTP Play, é uma espécie de prelúdio do que aí vem.

Eu e o Fábio Pascoal fizemos duas propostas para rádio e foi-nos dada a oportunidade de melhorar uma delas, que é uma ideia entre stand-up e crónica diária.

Preferimos não optar pela crónica de atualidade e procuramos fazer algo diferente, ligado ao humor. Felizmente tem corrido muito bem, apesar de ser um programa exclusivo de uma plataforma da RTP. Para nossa surpresa somos hoje o melhor podcast exclusivo da RTP e somos o 26.º programa mais ouvido da RDP (Antena 1, 2 e 3).

Quais são as tuas referências nacionais e internacionais?
A nível nacional, o Ricardo Araújo Pereira e o Bruno Nogueira são referências para mim, mas o rei disto tudo – podes escrever mesmo assim – é o Herman. Já tantos lhe fizeram o funeral e ele é sempre capaz de reinventar-se. Incrível! A nível internacional, os Monty Python, que me esqueço sempre de referir, o Louis CK e o Bill Burr.

Quais são os teus próximos espetáculos?
Em outubro, vou estar envolvido na organização internacional do Festival Stand-up Together que vai realizar-se nos dias 3 e 4 de outubro, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. O Rafinha Bastos, por exemplo, é um dos convidados.

O teu sonho passa por ter um espetáculo em nome próprio?
Acho que já não lhe devo chamar um sonho, deve ser um objetivo como comediante. Espero fazer o que mais gosto para quem gosta de me ouvir. Se conseguir encher um Sá da Bandeira, um Coliseu ou uma Casa da Música, melhor.

Sempre tiveste uma ambição de criar algo novo em Gondomar. Qual é a tua ideia?
Gostava muito de dar o meu contributo ao concelho onde nasci. A minha ideia passa por organizar um conjunto de noites de comédia ou até um festival. Trabalho muito no Porto e arredores e sinto que Gondomar pode estar preparado para receber este tipo de iniciativas. Encaro a comédia como uma arte popular que vai além do entretenimento, por isso julgo que era um reforço da oferta cultural em Gondomar e isso era positivo, sobretudo para os mais jovens.

Já atuaste em Gondomar?
Atuei em Valbom num evento privado e em Gondomar (São Cosme) num evento solidário. Gostava de atuar novamente em Gondomar e se possível num espetáculo com maior dimensão.

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