Slimmy: “Gostava que as pessoas ouvissem este disco sem preconceitos”

Entrevista Slimmy - abril 2019

Slimmy apresentou o novo disco no Hard Rock Café Porto / Foto: Pedro Santos Ferreira

Paulo Fernandes, 40 anos, mais conhecido por Slimmy, está de volta aos palcos. Após um período conturbado, tendo superado uma espiral depressiva, o músico natural de Rio Tinto regressa com o disco “I’m not crazy, i’m in love”, o seu quarto trabalho de estúdio. Ao Vivacidade, Slimmy confessa que este trabalho foi uma verdadeira “catarse”.

Não há forma de não começarmos esta entrevista pelo título do disco. “I’m not crazy, i’m in love” é uma afirmação daquilo que queres provar ao público?
Este título é recente e durante a gravação do disco, visto que comecei a gravar em 2016, achei que “Half a saint, half a bitch” – que é o título de uma das músicas – era um bom título, porque retratava o tempo que passei na recuperação de problemas pessoais. Contudo, à medida que ia superando essa fase menos conseguida, surgiu esta ideia e percebi que não estava assim tão maluco, apenas apaixonado.

O título deste disco tinha de ser uma frase que espelhasse a montanha russa que foi gravar este álbum, portanto eu acho que acabou por ser um bom título.

É uma resposta a algumas dúvidas sobre a tua carreira?
Sim, é. Durante algum tempo perdi o interesse que tinha na música e tornou-se tudo muito desgastante porque as coisas não andavam para a frente. Afundei-me em drogas e álcool, mas a partir do momento que comecei a fazer terapia voltei a gostar novamente de música e, mais importante que isso, aprendi a produzir as minhas próprias músicas. Esse foi um importante ponto de viragem.

A música chegou a ser perigosa para mim, mas comecei a mudar as rotinas, a ter aulas online, a tocar piano… isto tudo à medida que ia ficando bem psicologicamente.

Mas consideras que houve aqui algum tipo de “clique” que te salvou da depressão?
Sim, a minha mulher foi decisiva. Nunca tive ninguém que me apoiasse tanto.

Ela sempre teve o bichinho da música e neste momento também toca, canta e está comigo na banda. Ela foi-me dando sempre força, mesmo quando as músicas que eu produzia não eram as melhores. Apoiava-me e dizia-me sempre que eram as minhas melhores músicas. A parte do título “I’m in love” deve-se ao respeito, amor e carinho que tenho por ela.

O que é que sentias nessa fase menos conseguida da tua vida?
Sentia que me estava a afastar do essencial. Tive um casamento falhado e dispensava mais tempo para o trabalho da minha ex-mulher. Fazíamos festas de segunda a domingo, estragava a minha cabeça, voz e as relações que tinha com certas pessoas. Andava com o ego muito lá em cima.

Em 2019, luto diariamente para ser relevante para as pessoas. A minha principal missão é ir atrás do tempo perdido, tenho consciência disso. Existem várias diferenças neste disco, tem piano, electro, rock e mais canções em português, qualquer rádio pode pegar em cada música. Além disso, uma das principais mudanças do meu processo de terapia foi fazer exatamente o contrário do que fazia, passei a escrever quando estou bem e as músicas não são tão negativas. Por isso o disco é bastante alegre e vibrante e é esse o futuro que espero que a minha música siga.

O disco começa com a música “Alive”, um tema que já existe desde 2016.  Que significado tem este tema para ti?
É uma música que fala de dificuldades. A verdade é que a minha carreira foi uma verdadeira prova de fogo. A “Alive” fala nisso, na sobrevivência perante as dificuldades. É quase como a constante adaptação ao dia a dia para não se cair no esquecimento. É estar vivo.

Tens músicas portuguesas e inglesas. O que te levou a tomar esta opção?
O inglês é a verdadeira força motora deste disco e da minha carreira, mas o objetivo é passar uma imagem real daquilo que eu penso, e eu penso em português.

Como foi o processo de seleção das músicas para este álbum?
Todos os dias em que eu não ia gravar ficava em casa a melhorar coisas ou a criar algo novo. Depois enviava ao Rodolfo [produtor] as ideias e maior parte das vezes ele dizia-me que eram muito boas. Nas últimas semanas de gravação tivemos de parar porque já tínhamos decidido que eram estas quinze músicas que iam para o disco.No entanto, neste período de seis anos de interregno de trabalhos de estúdio criamos mais de 60 músicas que ficaram de fora deste disco.

Se tivesses que escolher uma palavra para definir este disco, qual queria?
É uma catarse. Os problemas de ordem psicológica e mental, afetaram-me muito fisicamente, principalmente os meus falsetes, e passei alguns momentos maus porque não conseguia reproduzi-los. Felizmente agora já estão de volta.

Gostava que as pessoas ouvissem este disco sem preconceitos e que não ligassem a estilos. É um disco de persistência e de resiliência.

Este disco tem uma grande dimensão pessoal para ti?
Pensei várias vezes que este disco ficaria a meio, mas agora acredito que tenho algum jeito e talento. A música é passarmos bons bocados, é partilha e durante muito tempo ninguém partilhou nada meu. Agora, recentemente, já sinto que existe mais partilha e isso ajuda-me a recuperar esse gosto, vejo as coisas com muito mais otimismo e torna-se tudo mais fácil.

Estás agora a promover este trabalho com vários concertos de apresentação. Por onde vais passar?
Vou à Queima das Fitas de Mirandela (2 de maio), Santa Maria da Feira (7 de junho) e Gerês Rock (26 de julho). Além disso, já temos concertos para agosto e estamos a receber novas marcações. Para a apresentação oficial do disco escolhi o Hard Rock Café Porto porque este é um ambiente muito familiar. Venho aqui muitas vezes.

És natural de Rio Tinto, ainda passas algum tempo em Gondomar?
Sim, sem dúvida. A minha avó mora lá. De resto, quando lancei este disco fiz questão de o apresentar à Câmara de Gondomar e à Junta de Freguesia de Rio Tinto. Teria todo o gosto em atuar para os gondomarenses.

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