Mário Silva: “Viajei por todo o mundo e não encontrei comida tão boa e variada como a nossa”

Com 29 anos, Mário Silva, natural de Jovim começou desde cedo a procurar soluções fora de Portugal face à escassa oferta no mercado de trabalho no nosso país. Após uma passagem por Inglaterra, reside atualmente no Dubai como comissário de bordo, naquela que é uma “profissão de risco” que pode chegar às 20 horas por turno, mas que ao momento tempo o permite conhecer vários pontos do Mundo.

Mário Silva em Machu Pichu

 

Que formação académica tiveste Portugal?

Ingressei no Ensino Superior na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, mas infelizmente não terminei o curso, ficando com o meu progresso académico pelo Ensino Secundário.

O que te levou a emigrar?

Foram vários motivos que me levaram a emigrar, mas dada a situação sócio-económica em Portugal na altura, com a falta de ajudas a estudantes e a escassa oferta no mercado de trabalho, comecei a procurar outras soluções fora de Portugal. Inicialmente emigrei para a Inglaterra e depois para os Emirados Árabes Unidos.

Como é que foi a adaptação a um país novo?

A adaptação a um país novo é sempre complicada. Diferentes culturas, pessoas, ruas. Tive a sorte de emigrar para Inglaterra com outros portugueses que eu já conhecia, o que tornou tudo mais fácil. Tinha amigos também nos Emirados Árabes o que também me ajudou imenso na adaptação. Penso que também varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que sentem mais saudades de casa e dos amigos e familiares que deixaram, há outras que até gostam de estar distantes e conseguem superar este desafio mais facilmente.

Consegues falar um pouco mais sobre o teu trabalho? Como é que é o dia a dia de um hospedeiro de bordo? 

O meu trabalho é considerado uma profissão de risco, mas também bastante gratificante. Estamos sempre com horários diferentes, a trocar as noites pelos dias, a trabalhar turnos longuíssimos, que podem chegar às 20 horas por turno, com jet lag à mistura, falta de sono e refeições todas trocadas. É um ofício que requer muito do corpo e é preciso ter uma atenção especial à nossa saúde e alimentação. Operamos equipamentos gigantescos como o Airbus A380 onde cabem cerca de 600 pessoas e voamos para mais de 160 destinos. Há certas rotas que não gostamos de fazer e há todo um processo de segurança pessoal e do avião que temos que cumprir à regra, mesmo estando esgotadíssimos fisicamente, mas no final tudo vale a pena. Tenho a possibilidade de viajar pelo mundo a trabalho e consigo viajar nas férias a custo reduzido, possibilitando-me ir a lugares que nunca pensei conseguir visitar e isso é bastante gratificante. Porém, o desgaste que o corpo sofre com a constante pressurização/despressurização, levantamento de contentores e carros pesados, dormir em camas com diferentes tipos de colchões e as escalas (horários) bastante preenchidas contribui para um desgaste rápido, fazendo deste emprego algo temporário e que geralmente não excede os 10 anos de carreira, dependendo obviamente da companhia aérea e respetivas autoridades de aviação, no que pode variar o número de horas de voo permitidas por ano.

Mário Silva nos estúdios do Hobbit – Senhor dos Anéis

Como é que passaste de medicina dentária para hospedeiro? Que tipo de estudos/formações é que tiveste de fazer?

Tudo começou na festa de aniversário de uma amiga minha que estava a trabalhar como hospedeira de bordo há pouco tempo e falou-me de como tudo funcionava. Sem esperar muito, e como tinha o contrato de trabalho atual a terminar e sabendo que onde estava a trabalhar não estavam a passar pessoas a contrato efetivo, concorri e entrei. Há uma formação bastante complexa e intensa, que dura pouco mais que um mês, em que aprendemos tudo sobre os equipamentos que vamos operar (aviões), todos os procedimentos de emergência e segurança, uso de equipamentos de emergência a bordo como extintores, garrafas de oxigénio e kits de emergência médica, curso sobre emergências médicas como enfartes, AVCs, tromboses venais, ataques de pânico e até parto de bebés. Temos também um mini-curso de sobrevivência em lugares remotos como deserto, oceano, polo ou florestas, curso sobre técnicas anti-terroristas, equipamentos explosivos e como preparar o avião nestes casos, curso sobre gestão de conflitos a bordo com passageiros que desrespeitam as regras impostas pela companhia aérea, que se tornam violentos e/ou embriagados e que possam colocar em risco o avião ou as pessoas nele. Temos também duas semanas de treino sobre serviço a bordo no caso da Emirates, em que temos acesso a todos os detalhes do fine-dining que a Emirates disponibiliza nos seus voos, sendo a referência de fine-dining em todo o mundo.

Continuas a seguir as notícias em Portugal? O que achas que o nosso país podia aprender com os Emirados Árabes Unidos?

Acompanho muito por alto, pelo o que me contam ou pelo que vejo na internet. Tenho acesso à RTP Internacional, mas raramente sintonizo a televisão. Na minha opinião, Portugal tem um problema de migração no geral, mas mais propriamente imigração. Há várias pessoas a entrar no país, a conseguir passaportes e vistos de residência com uma enorme facilidade, sem nunca aprender a Língua Portuguesa nem a história de Portugal, e muitos recebendo ajudas do Estado. Ao mesmo tempo, temos jovens que terminaram estudos universitários e vêem-se forçados a submeterem-se a trabalho precário em Portugal ou emigrar, sem ter qualquer tipo de apoio pelo Estado. Nos Emirados Árabes Unidos não há passaporte dado a quem não nasceu lá e para viver no país é necessário ter um visto de trabalho. Se ficar desempregado, tem que sair do país. Portugal poderia repensar nos benefícios fiscais dados a estrangeiros e valorizar mais o cidadão português.

Tencionas um dia voltar de vez para Portugal? Se sim, quando?

Estando a morar no Médio Oriente, torna-se mais fácil viajar para este lado do mundo e não há nenhum país como Portugal. Definitivamente quero voltar, mas neste momento é impensável, a minha situação económica atualmente é bastante superior à da maioria dos portugueses e atingi objetivos que nunca poderia ter atingido se ainda estivesse em Portugal. Quero voltar, mas ainda não é já.

Tens saudades de Portugal? Do que é que sentes mais falta?

Sim claro. Portugal é um país fantástico, apesar de pequenino tem bastante para oferecer. Os espaços verdes que temos, as florestas, as ruas cheias de vida, a facilidade na deslocação, a cultura, as paisagens lindíssimas especialmente nas ilhas… Isto tudo torna Portugal um dos países mais ricos com imenso para oferecer. Sinto falta de poder sair e sentar-me numa esplanada à beira-mar numa tarde de Verão e beber uma cerveja! Aqui nos Emirados Árabes, para além de ser ilegal consumir álcool em público exceto hotéis, chega aos 50 graus no Verão, por isso esplanada está fora de questão! Mas confesso que o que mais sinto falta é a gastronomia portuguesa. Viajei por todo o mundo e não encontrei comida tão boa e variada como a nossa!

,