Tiago Costa: “Adoro o trabalho de esmiuçar ao pormenor um adversário e de procurar saber tudo sobre ele”

Entrevista Tiago Costa - maio 2017

Tiago Costa, 22 anos, é observador do Braga SC / Foto: Direitos Reservados


Tiago Costa, 22 anos, observador e analista do Sporting de Braga, é um orgulhoso gondomarense e revela ao Vivacidade o quão fascinante é um simples jogo de futebol. Das analogias com o xadrez e do trajeto universitário de excelência até ao profissionalismo e à paixão que o colocaram num nível conceituado ainda com tenra idade.

Sei que a tua formação como atleta foi no futsal. Sentes que essa vertente foi importante para aquilo que és hoje no futebol?
É um paradoxo. Tanto foi importante ter jogado como ter deixado de jogar. Jogado porque a prática de uma modalidade desportiva coletiva fez-me aprender certos valores e princípios como a cooperação, a resiliência, o respeito, entre outros. A partir de uma certa idade, também comecei a absorver informação e conhecimento com os diversos treinadores que tive que depois me foram úteis quando foi a minha vez de estar no papel de treinador. Foi também importante ter deixado de jogar porque percebi, bem cedo no meu início de carreira, que não tinha lá muita qualidade e face ao facto de já estar no ensino superior e a trabalhar no futebol, decidi investir a totalidade do meu tempo na minha formação académica e na minha carreira profissional. E até agora tem sido um investimento que tem dado frutos.
Gosto muito do Futsal mas sou apaixonado pelo futebol. Atualmente, vivo-o 24 sobre 24h, 365 dias por ano. Mesmo nas folgas, paragens do campeonato e até nas férias. O Futebol está sempre presente. Nem que seja através de um livro.

O que representa para ti trabalhar no Sporting Clube de Braga?
Representa um sentimento de orgulho, prazer e responsabilidade. Sinto-me bem neste clube pois identifico-me muito com a sua cultura e identidade, com os seus princípios e valores. O Sporting Clube de Braga é um dos grandes do futebol português que providência todos os recursos aos seus atletas e aos seus funcionários para realizarem um trabalho de qualidade. A mim, deu-me a oportunidade de trabalhar no contexto de futebol profissional e de ser profissional numa área onde é muito difícil alguém vindo do universo académico e com a minha idade ter uma oportunidade a este nível. Além disso, trabalhar no Gabinete de Observação e Análise com colegas de trabalho com diferentes experiências, em relação direta com as diferentes equipas técnicas e os diversos departamentos e gabinetes do clube, tem-me feito amadurecer e evoluir a cada dia, num contexto de alto rendimento, de exigência e de transcendência máxima.

Como foi trabalhar diretamente com Abel Ferreira, atual técnico da equipa principal dos bracarenses?
Foram dois anos fantásticos, de muita aprendizagem. O Abel é um treinador com qualidade, que sabe muito bem o que quer e que está a traçar um percurso com muita inteligência. Além disso, está rodeado por uma equipa técnica multidisciplinar muito competente. Ao nível do trabalho da análise de jogo, ele atribui muita importância aos momentos de observação, análise e de reflexão/interpretação. Não só da própria equipa e do adversário (como é vulgar), mas também de outras equipas, nomeadamente as melhores equipas ou as equipas que apresentam o futebol mais excitante da europa, que nos últimos dois anos têm sido: o Nápoles do Maurizio Sarri, o Bayern do Guardiola, o Tottenham do Maurício Pochettino, o Chelsea do António Conte, o Mónaco do Leonardo Jardim, o Dortmund do Thomas Tuchel, entre outras. Não se trata apenas de ver as equipas mas sim de esmiuçar e tentar perceber ao pormenor o que fazem estas equipas de tão especial que os torna “os melhores”. E isto reflete um pouco o que é o Abel e a sua equipa técnica. Estão sempre a procura de evoluir e aprender. Nesta parte final da época, tenho trabalhado com o João Aroso e tem sido igualmente fantástico. Não era fácil substituir o Abel como pessoa e treinador, mas o SC Braga fez uma boa escolha a esses dois níveis.

Como surgiu o teu interesse pela análise do próprio jogo? Sempre te fascinou esta parte organizacional e estratégica?
Sim, é algo que me fascina. Eu associo o futebol ao jogo milenar que muitos consideram o gold standard da estratégia: o Xadrez. Para mim, o Futebol e o Xadrez são muito similares na sua vertente estratégica. Em ambos, o ponto de partida é o mesmo: não podemos ter mais peças que o adversário e ocupar 2 espaços ao mesmo tempo. A partir do inicio do jogo, o objetivo é tentamos superiorizar-nos ao adversário através de novas posições (estáticas) e movimentos (dinâmicos). E é na interação entre as peças que está a complexidade que os melhores tornam muito simples. Adoro o trabalho de esmiuçar ao pormenor um adversário e de procurar saber tudo sobre ele. Simultaneamente, temos de conhecer muito bem a nossa própria equipa para saber o que, estrategicamente, devemos ver na equipa adversária. É uma tarefa que exige muita concentração e muitas horas em frente a um ecrã 30×20. Mas, para mim, é um desafio estimulante.

É preciso entender que hoje o conhecimento está bastante divulgado, as equipas conhecem-se muito bem umas às outras, utilizando para isso vários instrumentos: vídeos, estatísticas, observação direta. Ainda assim, onde é que se pode fazer a diferença?
Na estratégia. Isto é, na forma como a informação é interpretada pelo treinador, como é passada aos jogadores e como é transferida e aplicada no treino. De que vale eu dar a informação se depois o treinador não tiver capacidade para a interpretar, passar e usar?

Dentro da tua licenciatura na FADEUP, alcançaste a nota máxima com o conceituado professor Júlio Garganta. Talento da tua parte, mas ainda mais trabalho? 
Foi somente trabalho e reconhecimento por parte do Professor. O Professor Júlio, também ele um Gondomarense, é uma referência quer ao nível profissional, como Professor e Observador, quer ao nível humano, como uma pessoa de princípios e valores. Tenho tido o privilégio de ser acompanhado por ele em vários momentos do meu percurso académico, quer na Licenciatura quer no Mestrado. O facto de obter notas máximas atribuídas por alguém que eu próprio admiro e que é uma referência mundial na profissão que eu exerço é um reconhecimento fantástico.

Qual é o teu maior sonho no mundo do futebol?
Essa é uma boa pergunta… Os objetivos que tenho vindo a traçar desde que comecei esta caminhada há alguns anos atrás, tenho conseguido alcança-los. E neste momento estou onde quero estar, no Sporting Clube de Braga ‘B’, focado naquilo que eu controlo para melhorar enquanto observador a cada dia. Como qualquer profissional, ambiciono participar, nem que seja apenas uma vez, na Champions League e experienciar outras culturas desportivas, principalmente a cultura Inglesa.

Quais as tuas maiores referências?
Os meus pais são, em tudo, o meu maior exemplo. Na esfera do futebol, admiro os treinadores e os jogadores que pensam o jogo de futebol “outside the box”. Admiro também determinados treinadores que marcaram uma mudança de paradigma, que deixaram um legado enorme pela forma como revolucionaram o futebol e que são os grandes mentores de muitos dos melhores treinadores de futebol atual. São exemplo o Marcelo Bielsa, cujo regresso está para breve, e o Rinus Michels e o Johan Cruyff que já não estão entre nós.

Já tiveste formação ou algum trabalho no concelho de Gondomar?
Sim. Estudei em Gondomar até ao 9º ano de escolaridade, altura em que me quis por a prova e quis ir estudar para o centro do Porto. A nível do Futebol, estive um ano no Gondomar SC como observador da equipa sénior, trabalhando diretamente com o Professor José Alberto, e, simultaneamente, treinava os iniciados do Gondomar SC no Campeonato Nacional, onde trabalhei com vários treinadores. É um clube trabalhador com pessoas competentes. Espero que o facto de Gondomar ser a Cidade Europeia do Desporto em 2017 ajude a desenvolver e a aumentar a prática desportiva no concelho.

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