Tiago Torcato: “A adaptação acaba por depender de ti e da forma como lidas com os desafios”

Gondomarenses lá fora - abril 2019

Tiago Torcato é o treinador de guarda-redes do Grupo Desportivo Interclube / Foto: Direitos Reservados

Natural de Gondomar, Tiago Torcato, 29 anos, mudou-se, em fevereiro, de malas e bagagens para Luanda, Angola, onde é responsável por treinar os guarda-redes do Grupo Desportivo Interclube, atualmente 6.º classificado do Girabola. Ao Vivacidade, Torcato admite que a saudade existe e que a melhor forma de lidar com ela é manter contacto diário com familiares e amigos.

A meio do mês de fevereiro a tua vida mudou. Que convite foi esse que te levou para o Grupo Desportivo Interclube, em Angola?
Foi tudo muito rápido. Estava a acabar um jogo dos juniores do Pedras Rubras e de um momento para o outro recebi uma proposta irrecusável pelo facto de ir disputar uma liga profissional e ser uma equipa da primeira divisão, que historicamente luta pelo título e pela vitória na taça; o facto de também ir treinar atletas de elite, neste caso os dois guarda-redes, um deles titular da seleção nacional de Angola – que conseguiu o apuramento para a maior competição africana, a CAN – e outro que é habitualmente convocado e titular nos sub-23 da seleção de Angola e, logicamente, a parte financeira também é importante, mas o crescimento e o reconhecimento que podia ter na minha carreira pesaram na minha decisão.

O convite surgiu pelo treinador Bruno Ribeiro, que tive o prazer de acompanhar no Salgueiros. O Bruno falou-me deste projeto, das ideias, e mostrou tremenda confiança nas minhas capacidades. Dessa forma tive que aceitar o convite para este projeto, mais concretamente o Grupo Desportivo Interclube.

Que avaliação fazes destes primeiros meses em Angola?
Estou em Luanda há dois meses e a avaliação que faço é que existem muitas diferenças, comparativamente a Portugal, desde logo destaco os aspetos sociais, desde a organização enquanto território, estruturas existentes ou falta delas, situações de pobreza, mas sobretudo aquilo que nós damos como adquirido, desde as coisas mais simples como ter água potável, luz, internet , saneamento, acessos a uma simples ida ao supermercado.

Relativamente à parte desportiva, a avaliação é francamente positiva, desde logo pela organização que encontrei no clube, desde as suas infraestruturas usadas pelo futebol, basquetebol, atletismo e andebol.

Encontraste dificuldades de adaptação ou tem sido um percurso fácil nesse sentido?
Confesso que numa fase inicial a adaptação não é fácil, pois perdes a tua zona de conforto e tens que encontrar rapidamente uma forma de te adaptares.

A maior dificuldade foi o calor, sem dúvida. Treinar com temperaturas acima de 33/35 graus, isto por volta das 8h30, exigiu uma adaptação física e mental. Outra dificuldade que encontrei foi o trânsito, que é de facto uma loucura completa. Não existem regras, não existem semáforos, ninguém para nas passadeiras… aqui na estrada tens que estar constantemente atento.

No entanto, de modo geral a adaptação acaba por depender de ti e da forma como lidas com os desafios. Angola é um país lindíssimo com contrastes difíceis de explicar.

Em Angola já te aconteceu algum episódio caricato/engraçado que nos queiras contar?
Em véspera de jogo vamos para estágio, que é dentro do complexo do clube, e naturalmente tenho um quarto só para mim. Boa cama, televisão por cabo, boas condições… estou a deitar-me e olho para o teto, o que tinha? Duas osgas do tamanho da minha mão. Depois de chamar um funcionário disseram que faz parte existirem, pois ajudam a manter os quartos limpos de outros insetos. Imagina a minha cara ao ver aquilo.

És formado em Psicologia pelo ISMAI mas desde então canalizaste a tua formação para o desporto, mais concretamente para o treino especializado dos guarda-redes? O que te levou a tomar esta opção?
Sim, sou licenciado em Psicologia. No entanto, em 2017 decidi apostar no treino desportivo no Instituto Politécnico da Maia, que irá posteriormente dar-me o nível dois de treinador.

Esta decisão, acaba por ser tardia, pois desde os meus 10 anos que estou ligado ao desporto, mais concretamente ao futebol, onde passei por todos os escalões de formação como guarda-redes, daí o meu foco ser neste momento centrado no treino específico de guarda-redes. Foi uma opção pela paixão que tenho por esta posição e que começou desde os meus 19 anos no Gondomar SC, onde treinei todos os escalões de guarda-redes. Desde esse tempo até agora já passei por vários clubes, desde a Escola Benfica de Matosinhos, Leça do Balio e, por último, Pedras Rubras. No entanto, também já passei por várias equipas seniores, desde o São Pedro da Cova, Sousense, Ermesinde, Salgueiros e agora Interclube.

Quais as principais diferenças que encontras no jogo jogado de Portugal para o principal campeonato angolano?
As diferenças são significativas, desde logo a influência que o clima tem naquilo que é o jogo jogado. Acaba por ser muito difícil manter um nível alto de intensidade de jogo porque a grande maioria dos jogos começam às 15h ou 16h, o que coincide muitas vezes com o pico máximo de calor, que varia sempre entre 30 e 37 graus.

Outra diferença que afeta diretamente o jogo é o estado de alguns campos de clubes das províncias, que fazem igualmente parte da 1ª divisão de Angola, mas que estão em muito mau estado, seja pelo calor que queima a relva ou pelas chuvas que deixam o campo praticamente impossível de jogar.

Ao nível tático existem bastantes diferenças. Os jogos partem facilmente, o que provoca uma anarquia total em termos de organização. Por exemplo, aqui ainda usam o líbero, que no futebol europeu já não faz sentido. Em termos técnicos é onde existe maior diferença e deve-se sobretudo ao processo de formação que existe em Portugal, pois valoriza-se muito a competente técnica.

És natural de Gondomar e deixaste para trás a tua casa, família e amigos. Como se lida com a saudade?
Tal como referi, não foi uma decisão fácil ter que deixar família, amigos e o trabalho, sobretudo pela rapidez com que as coisas aconteceram. Na altura ainda tive dificuldade em assimilar tudo. Não é fácil lidar com as saudades e sobretudo com ausência física daqueles que fazem parte do teu dia a dia.

A melhor forma de lidar com as saudades é manter contacto diário com Portugal, através das redes sociais, embora nem sempre seja possível falar muito tempo.

Tens um prazo para regressar?
Sim, se tudo correr bem e como planeamos, isto é, tentar chegar á final da Taça de Angola e vencer, volto a Portugal no dia 30 de maio. No entanto, se tivermos a infelicidade de sermos eliminados, dia 15 de maio provavelmente estarei em Portugal, pois o campeonato de Angola acaba no dia 11 de maio.

Tinhas aqui o teu projeto – uma academia em nome próprio -, como ficou?
A minha academia de guarda-redes Tiago Torcato teve que parar, pois não tinha forma de manter os atletas com treino de alto rendimento. Neste momento antes da minha partida, era o único elemento do projeto, por opção.

Não foi fácil, pois estava a acompanhar vários atletas, cerca de 10, desde a formação até seniores, e tive que deixar a meio o processo. Para meu orgulho, tenho neste momento três atletas que vão atingir o patamar de elite na próxima época, e isso deixa-me satisfeito e tranquilo sobre o futuro.

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