Verão “horribilis” do Governo pode abalar-lhe a confiança?

1 – O mês de junho foi o mais quente em Portugal desde que existem registos meteorológicos. Ironicamente, ainda antes da chegada oficial do verão, o país político entrou duplamente em brasa. Primeiro com a tragédia dos incêndios de Pedrógão, e logo de seguida com o desaparecimento do arsenal de armas de guerra roubadas no campo militar de Tancos. Nos dois casos o Governo ficou debaixo de fogo cerrado quer da oposição política parlamentar, quer do aparelho mediático e dos seus principais atores.

Qualquer daqueles tristes episódios está longe de ser esquecido. O luto pelas vítimas dos incêndios vai prolongar-se por muitos anos, e até que os estragos emocionais e materiais sejam neutralizados a tragédia estará sempre presente na memória de milhares de portugueses. Quanto ao escândalo de Tancos – quaisquer que sejam as explicações e responsabilidades que venham a ser encontradas – a instituição militar carregará aquela cruz por longos anos, mesmo que se dissipem todas as consequências.

2 – No imediato e no futuro próximo, o que muitos analistas políticos procuram é resposta para as seguintes perguntas: vai o Governo pagar uma pesada fatura política por estes dois casos? Os portugueses penalizarão António Costa de forma significativa, em próximos atos eleitorais, em consequência daqueles terríveis acontecimentos? A boa imagem que o líder socialista construiu dentro e fora do país será irremediavelmente posta em causa por aquelas tragédias? Têm os media força bastante para manter o Governo debaixo de fogo?

Em bom rigor é ainda cedo para poder responder, com um satisfatório grau de certeza, a qualquer destas questões. Até porque tudo vai depender da eficácia das respostas que o Governo vier a conseguir dar no terreno a qualquer dos casos. Por que se para o escândalo de Tancos é relativamente fácil encontrar soluções credíveis para que semelhantes situações não se venham a repetir, já o mesmo não se poderá dizer da tragédia dos incêndios, com todo o rasto de dor e miséria que deixou para trás.

3 – A reconstrução imediata do tecido económico e social dos sobreviventes de Pedrógão será a pedra de toque que se há de converter em talismã ou amuleto de maldição para a imagem do Governo. Ninguém tenha dúvidas: o Natal daquelas famílias será sempre tão negro quanto a fuligem da terra queimada que se vai manter na região por longos meses. Mas se não for visível a muito curto prazo uma estrela de esperança para aquelas gentes, os portugueses não deixarão de apontar o dedo acusador a António Costa.

Ora, a principal marca que o primeiro-ministro conseguiu impor na maioria dos cidadãos é o seu instinto e habilidade política. É por isso expectável que António Costa não perca o foco na gestão daqueles “dossiers”. E se mantiver a sua atenção e argúcia aos níveis a que habituou o país terá todas as condições para converter aqueles ácidos limões em refrescantes limonadas. A seu favor tem os principais indicadores do desempenho da economia nacional, e, diga-se, o incrível descrédito do discurso dos partidos da oposição. Saiba António Costa cavalgar as ondas…