“Villa Urbana”: alguns rostos de um projeto com 17 anos

A “Villa Urbana” de Valbom foi formalmente inaugurada a 28 de novembro de 2003. Agora, 17 anos depois, o VivaCidade visitou esta unidade residencial da Associação do Porto de Paralisia Cerebral e foi verificar o que mudou, ou não, entre 2003 e 2020. Na altura o espaço foi inaugurado pelo então Primeiro-Ministro Durão Barroso. O presidente da Câmara de Gondomar era Valentim Loureiro… Mas há rostos e vidas que, 17 anos depois, ainda fazem da “Villa Urbana” o centro da sua vida. E é com os seus depoimentos – alguns dos muitos que fazem parte da vida da “Villa” – que se escrevem estas linhas…

Foi em finais de novembro de 2003 que a Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC) concretizou um dos seus principais sonhos: a criação de uma unidade residencial que tivesse outras valências e que se assumisse, ainda hoje, como um projeto pioneiro a nível nacional. O então responsável da APPC, Pinto Viana, dizia no dia da inauguração que era “a concretização de um sonho”. E foi em ambiente festivo que se abriram as portas de um espaço – desde sempre assumido como não exclusivamente destinado a pessoas com paralisia cerebral.

Inicialmente a “Villa” tinha em funcionamento a vertente residencial, o Centro Comunitário, as Atividades de Tempos Livres, o Centro de Atividades Ocupacionais e um serviço de apoio domiciliário. Depois o leque de ofertas foi-se alargando. Presentemente disponibilizam Creche e Jardim de Infância, piscina e ginásio ou desporto adaptado (boccia e tricicleta). Quando desafiados pelo Vivacidade para uma reportagem, da APPC recebeu-se resposta positiva. No entanto, deixe-me dizer-lhe, para contextualizar que não somos os ‘coitadinhos, ‘pobrezinhos’ e muito menos ‘infelizes’!”, disse convicto Abílio Cunha, atual presidente da Direção da instituição.

> Abílio Cunha

Em 2003 o então Primeiro-Ministro, Durão Barroso, classificou o espaço como “uma das mais notáveis obras do ponto de vista infra-estrutural e do melhor que já vi em termos de equipamento social… uma obra magnífica!”. Agora, 17 anos depois, impunha-se saber junto do atual presidente da APPC se ainda considera tal elogio como válido. Abílio Cunha destaca que “a ‘Villa urbana’ continua a ser uma referência a nível de estruturas de apoio integrado às pessoas com deficiência”, salientando o facto de, cada vez mais, o espaço “se assumir como uma unidade aberta à diversidade e à comunidade”, integrando pessoas com e sem deficiência.

“Em 2003 era o presidente Pinto Viana que defendia a necessidade de se possibilitar uma melhor qualidade de vida às pessoas com deficiência. Hoje, volvidos 17 anos, reforço esse propósito – mas lamento que atualmente a sociedade ainda tenha certas dificuldades em aceitar a diferença…”, disse Abílio Cunha. Uma casa sem muros e sem barreiras era o pretendido quando o projeto foi elaborado. E conseguiu-se? A resposta vem daqueles que lá habitam e que fazem da “Villa Urbana” a sua residência… E da Paralisia Cerebral condição de vida (mas não facto impeditivo de “viver”).

> Rui Reisinho

 

 

O DJ de serviço

Chama-se Rui Reisinho. Tem 43 anos e paralisia cerebral. É natural de Espinho e mora na “Villa Urbana” de Valbom. Profissionalmente é técnico de multimédia na “Ereserv, Urban Solutions” – empresa de Valbom onde no início deste ano conseguiu colocação profissional. Mas o Rui Reisinho não é “só” isso. Também tem uma atividade paralela, de ocupação de tempos livres… Daí que, por muitos, em vez de ser conhecido como Rui Reisinho é o DJ ET – pois costuma ser “disc jockey” em vários espaços de diversão noturna. É através de uma tabela de letras e números que comunica – contornando assim a impossibilidade de falar por ter paralisia cerebral. Mas a sua outra forma de “comunicar” é a música, que fez dele o DJ ET.

Bailarino, designer e desportista (de boccia), recusa-se a estar parado. “Tive uma vida cheia de luta e de projetos”, refere. Alguns atingiu-os; outros nem por isso. A sua mais recente “conquista” foi a empregabilidade. “Consegui colocação na ‘Ereserv’, em Valbom, onde presto o meu contributo a nível de edição gráfica e conteúdos digitais/multimédia”, diz com satisfação. Entretanto também foi “afetado” pela pandemia… E está, presentemente, em regime de teletrabalho mas não se cansa de elogiar a aposta que a empresa fez: “Estamos, na ‘Ereserv’, a desenvolver um projeto de parques infantis e desportivos para pessoas com deficiência. E é de realçar que, em Portugal, não é qualquer empresa que recruta e confia nas capacidades das pessoas com deficiência”, destaca.

Este confinamento “forçado” não é minimamente do seu agrado. “Não gosto de estar fechado nem de me sentir preso… Mas compreendo que a saúde pública – e a minha saúde – são coisas a ter em conta”, comenta. Eterno defensor da autonomia e da liberdade, Rui Reisinho é uma das mais constantes vozes na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. “Aquilo que defendo em relação ao trabalho, à sexualidade, as acessibilidades e à independência fazem com que algumas pessoas me considerem um contestatário. Que até o seu…”, diz.

 

> António Magalhães

“Pensador” e insatisfeito

António Magalhães – ou apenas “Tó”, como prefere que o chamem… – também mora na “Villa Urbana” de Valbom. Desde 2005 que faz deste local o centro do seu universo. Mas, esclarece, “o meu universo é bem maior que isto… é a freguesia, o município e o mundo!”.

Aos 60 anos António Magalhães tem já outra maneira de “analisar” a sociedade. “Ainda não somos uma sociedade verdadeiramente inclusiva e que respeita a diferença”, diz com tristeza. Mas, admite, algo tem vindo a mudar nestes anos mais recentes.

Não tendo atividade profissional, António Magalhães faz da “sua” paralisia cerebral o mote para sensibilizar os outros para tal realidade. Daí que, enquanto voluntário, colabora a nível de aulas de Cidadania em vários estabelecimentos de ensino (enquanto convidado). “Curiosamente, ou nem por isso, é junto das crianças e dos jovens que encontro uma maior abertura para a diversidade”, esclarece.

Pensador e ocasional criador de conteúdos, faz da palavra escrita uma das suas ocupações. “Se tenho opinião? Sim, claro! E sempre a pensar nas pessoas com deficiências e numa sociedade que, em muitos casos, ainda opta por nos ostracizar…”, conclui.

> João Lomar

Desportista temporariamente “preso”

João Coelho Lomar tem 46 anos e é natural de Barcelos. “Assinalei no dia 22 de novembro 14 anos de vida na ‘Villa Urbana’ de Valbom”, faz questão de referir.

Também ele tem paralisia cerebral. E também ele, como muitos mais, tem vivido os mais recentes meses num confinamento muito específico… “Viver aqui deu-me muita independência de vida, coisa que até então nunca tive”, diz com satisfação. Porquê? Porque “sinto-me livre e sinto que tenho a minha casa”.

Mas os últimos meses foram diferentes para João Lomar. “Durante estes meses de confinamento não me foi possível manter os treinos daquela que é a minha paixão: a Tricicleta”, lamenta-se… Já com vários títulos nacionais e internacionais de Tricicleta, João Lomar conseguiu encontrar alternativas ao confinamento: “Encontrei duas soluções! Aulas por vídeo-chamada e, depois, treinos diários de 45 minutos nas várias rampas que a ‘Villa Urbana’ tem”. Desde 2015 a tricicleta tem sido fundamental no seu plano de vida. “No dia em que tudo voltar à normalidade quero regressar aos treinos semanais de Tricicleta (em pista) e terminar um sonho que ia ser realizado no Verão de 2020” – que era fazer um Mergulho Adaptado em alto mar, perto da cidade de Vigo.

Quanto ao futuro espera que possa acontecer na “Villa Urbana” – espaço para o qual até sugere melhorias, nomeadamente a nível de espaços exteriores cobertos.

> Companhia era uma vez teatro

Teatro “confinado” mas em atividade

Dos vários projetos existentes na APPC a companhia “Era uma vez… Teatro” será talvez dos mais curiosos. Assumindo-se como um projeto inclusivo que pretende sensibilizar a sociedade para as capacidades artísticas das pessoas com deficiência, desde 1997 que este grupo dá a conhecer, anualmente, uma média de duas produções. Juntam pessoas com e sem paralisia cerebral. Apostam na qualidade e num trabalho que implica muita preparação, discussão e ensaios. Mónica Cunha, encenadora da companhia, comenta com algum desalento as limitações “impostas” nestes últimos meses por uma inesperada pandemia. “Mas mesmo assim, com elementos do grupo em confinamento (ou em casa, por decisão pessoal), não deixamos de trabalhar enquanto grupo”, diz a encenadora. Além do teatro, em setembro de 2020 a Companhia produziu e realizou a sua primeira curta-metragem (intitulada “Raiz”). E “mesmo amadores, fazemos do profissionalismo dos trabalhos que se apresentam algo de imperativo”, assumindo-se como um espaço de partilha que facilita o intercâmbio com outras instituições e artistas emergentes.

História da APPC e da “Villa”

A Associação do Porto de Paralisia Cerebral é uma Instituição Privada de Solidariedade Social, com mais de quatro décadas de vida, situada no Porto e Gondomar.
No total de serviços a Associação do Porto de Paralisia Cerebral conta com cerca de 2.600 clientes (com e sem deficiência), 23.000 atendimentos/ano, mais de duas centenas de funcionários e uma vasta equipa de voluntários [dados referentes a 2019].

A “Villa Urbana” de Valbom acolhe, em regime de habitação permanente, em apartamentos individuais (tipo- logias T1, T2 e T3), 32 pessoas com Paralisia Cerebral. A unidade residencial é constituída por 14 casas independentes, repartidas por dois pisos, construídas de raiz a pensar nas necessidades de uma pessoa com paralisia cerebral.

As habitações foram projetadas para resolver questões essenciais da rotina diária de cada indivíduo, nomeadamente a nível de mobilidade, alimentação e higiene pessoal. E é na “Villa” que se confrontam com as habituais barreiras (de acessibilidades, de comunicação, de emprego, dos preconceitos e da cidadania). Esta valência funciona 24 horas por dias durante os 365 dias do ano. 366, neste ano de 2020…

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