Zulmiro de Carvalho: “A minha maior preocupação é adequar a construção das peças ao lugar onde elas habitam”

Entrevista Zulmiro de Carvalho - janeiro 2019

Zulmiro de Carvalho junto a uma das suas peça mais icónicas, instalada em Macau / Foto: Pedro Santos Ferreira

Aos 78 anos, Zulmiro de Carvalho, natural de Valbom, é considerado um escultor de referência a nível nacional e internacional. A sua obra, espalhada pelos quatro cantos do mundo, é marcada pela grandeza e simplicidade das suas peças, “sem abdicar de uma adaptação de cada uma delas ao local onde habitam”, como não deixa de frisar. Ao Vivacidade, Zulmiro, o escultor, recorda a infância, a formação académica e a obra de uma vida.

Nasceu em 1940, em Valbom. Certamente num concelho de Gondomar muito diferente daquele que vemos hoje. Que memórias guarda dessa infância?
Curiosamente, nasci no lugar da Aldeia Alegre, em Valbom, perto da marginal. Ainda hoje me lembro que a primeira vez que fui ao Porto com a minha avó fiz essa travessia de barco. Era, de facto, um Gondomar muito diferente daquele que temos hoje.
Quando em conversa com os meus netos recordo-lhes que tínhamos que vir ao Largo do Souto, em São Cosme, apanhar o elétrico para o Bolhão, soa-lhes muito estranho, mas era assim.

Cresce no seio de uma família ligada à ourivesaria. Que impacto é que isso tem em si?
O meu avô tinha uma oficina de ourivesaria, que depois o meu pai herdou e que passou para mim, mais tarde. Fui ourives até aos 19 anos, sobretudo depois de alguns infortúnios familiares. Tive, inclusivamente, que parar os estudos durante um ano para depois retomar, já em horário pós-laboral, na Soares dos Reis, no Porto.

Essa ligação familiar e afetiva à ourivesaria corresponde a um primeiro contacto com a expressão artística?
Não necessariamente, porque naquele tempo a ourivesaria não era uma produção criativa. Limitava-se a uma repetição de processos e modelos que já estavam definidos. No fundo, todos os produtos eram iguais.

Qual é, então, o momento que marca essa preferência pelas Artes?
O maior incentivo que recebi nesse sentido foi do professor Valentim Malheiro. Ele tinha um percurso pessoal semelhante ao meu e fez muita força para que eu continuasse a estudar, nomeadamente as Artes. É um homem que recordo sempre com grande entusiasmo.
Na altura não foi fácil, mas lá decidi continuar a minha formação académica. Hoje não me arrependo, mas isso só foi possível porque fui bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Caso contrário, não teria tido essa possibilidade.

Curiosamente, começa por cursar Gravura na Soares dos Reis, no Porto. O que o levou a optar por essa formação?
Fui impulsionado pelos meus familiares, após ter uma conversa com o professor Ferreira Mendes, que me aconselhou a seguir um curso industrial que me permitisse dar continuidade à atividade familiar. Assim, optei por cursar Gravura.
Mais tarde, após a morte do meu pai, tive que começar a estudar à noite e já trabalhava durante o dia. Toda essa exigência enfraqueceu-me o organismo e levou-me para o sanatório, chegando mesmo a interromper os estudos. Só depois de melhorar é que retomei e comecei a frequentar a Escola Preparatória de Belas Artes, isto em 1963.
Fiz o exame de admissão e consegui entrar para a Escola Superior de Belas Artes, onde estudei entre 1963 a 1968.

Que lição lhe deram as mortes do seu avô e do seu pai, a par dessa ida para o sanatório? Sentiu necessidade de crescer mais depressa?
Foi uma experiência humana muito forte.  Era um jovem entusiasmado com a vida e, de repente, fui confrontado com uma realidade totalmente desconhecida.
Além disso, quando saí do sanatório tinha outra forma de encarar a vida. Tornei-me mais adulto e assumi a grande responsabilidade que tinha em mãos, apoiar a minha mãe.

No final do primeiro ano em Belas Artes teve que tomar uma decisão…
Ou optava pela Pintura ou pela Escultura. Nunca tive problema nenhum com a Pintura, mas também nunca tive grandes dúvidas sobre essa decisão e optei pela Escultura.

E termina a licenciatura com 19 valores, em 1968.
Que era uma nota muito boa naquela altura. Esse ano foi fantástico porque casei com a minha mulher, que ainda trabalhava no hospital, em Barcelos. Concorri para lá, como professor, e fui colocado. Vivemos em Barcelos durante um ano. Foi um ano de pausa e tranquilidade.

Um ano depois surge o convite para ser professor assistente de Escultura na Escola Superior de Belas Artes. Regressa a Gondomar, mas já tinha outro destino em mente…
Que era Londres, em 1971, novamente graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Fui apoiado pelo Alberto Carneiro, que me ajudou a fazer a inscrição na St. Martin’s School of Fine Arts. Quis fazer esse “Erasmus” daquela época porque considerei que era uma oportunidade única. Felizmente levei comigo a minha mulher e a minha primeira filha.
Fui à procura desse contacto com o Philip King e o William Ducker, gente boa da Escultura que, semanalmente, iam à escola privar connosco.
Era em Londres que a Escultura estava a evoluir e foi para lá que quis ir.Fiquei em Londres até 1973.
Foi lá que comecei a notar que os estrangeiros questionavam muito o nosso regime. Felizmente só voltei em setembro e tive que esperar apenas uns meses para o 25 de Abril de 1974.

Falando da sua obra, ela tem estado sempre associada à grandeza e à simplicidade das suas peças. Gosta que lhe atribuam estas características?
Simpatizo com essas descrições, mas tenho, naturalmente, peças minhas que gosto mais do que de outras. Na verdade, a minha maior preocupação é adequar a construção das peças ao lugar onde elas habitam, ou seja, à sua envolvente arquitetónica.
A peça de Macau, por exemplo, resultou muito bem, porque já estava criado um jardim onde se encaixou na perfeição, além da estrutura envolvente.

Começando precisamente pelo nosso concelho, o Pórtico de Gondomar ainda é uma das suas obras mais carismáticas?
Sem dúvida. É uma peça curiosa e única no processo de construção. Foi uma encomenda da Câmara de Gondomar, no início dos anos 90. O Município fez-me saber que queria uma peça minha para instalar na Praça Camões, em São Cosme, que na altura estava a ser remodelada.
A minha ideia foi construída com base no meu imaginário do Monte Crasto. Na minha infância, o Monte Crasto teve um papel central e acabei por construir um certo conceito místico em volta daquele local.
O Pórtico acaba por funcionar como uma entrada para o Monte Crasto. Mais tarde mudou de local, mas ainda hoje é uma das peças que mais me diz. 

Se tivesse que escolher mais duas peças com importância para si, quais é que escolheria?
A peça que está instalada em Macau, que foi um grande desafio enquanto escultor. Foi uma peça construída na China e na altura envolveu uma grande equipa e uma grande estrutura. Foi inaugurada a 10 de junho de 1996.
A peça do 150.º aniversário do cemitério do Prado Repouso também é única, porque é uma obra que integra o mundo em que vivemos. É um semicírculo que emerge da terra, mas está partido. Algures no meio dos dois elementos há uma fenda de luz, que simboliza a esperança.

Hoje em dia, acha que tem tido o devido reconhecimento?
Julgo que sim, mas não me preocupo muito com isso. Tenho sido reconhecido, sobretudo aqui, em Gondomar.

Um dos maiores privilégios que teve foi o de ter privado inúmeras vezes com o mestre Júlio Resende. Ainda se recorda do primeiro contacto com o pintor?
Curiosamente, nunca fui aluno do mestre Resende, mas era colega da filha dele em Belas Artes. Conheci-o numa conversa entre colegas, quando o mestre começou a queixar-se que queria mudar-se de Grijó para um local mais calmo. Foi aí que encontramos aquele local em Valbom [Lugar do Desenho], na década de 60.
A partir daí começamos uma grande amizade, que se manteve até aos últimos dias.

Qual foi a maior lição do mestre Resende?
Viajei muito com ele. Eram experiências e aprendizagens únicas. Em 1979, por exemplo, percorremos Espanha durante mais de 20 dias. No regresso, ele convidou as faculdades por onde tínhamos passado e todas corresponderam a esse desafio. Era um embaixador da arte portuguesa.

É por isso que hoje participa ativamente na Fundação Júlio Resende?
É também por isso. Sinto que tenho essa obrigação de proteger e divulgar o legado e a obra do mestre Resende.

Estamos a gravar esta entrevista precisamente na Sala Júlio Resende [Auditório Municipal de Gondomar], onde estão expostas algumas das suas obras. Qual é a mais-valia desta exposição?
Isso não posso dizer, mas é, sobretudo, uma teimosia minha em dizer que a Escultura é para o exterior e não para o interior. Ou seja, tentei trazer para dentro desta galeria aquilo que está no exterior. Espero que as pessoas possam vir aqui conhecer algumas das minhas obras.

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