Editorial – dezembro 2018

Caros leitores,

A infelicidade bateu à porta de quatro pessoas que perderam a vida nas serras de Valongo na queda de um helicóptero do INEM.

Para lá de se perceber o que aconteceu e porque, apesar de haver quatro avisos sérios e concretos demorou-se quase duas horas a iniciar a busca e tentativa de salvação, há que ver também as causas do acidente. Aparentemente são duas.

A primeira é a decisão de levantar voo em condições adversas. Porque foi tomada essa decisão? E foram ponderados todos os riscos? Dada a experiência e conhecimento da equipa parece que sim. Mas não haverá que perceber porque não informaram a sua intenção de voar, tendo, pelo contrário, dado indicação que iriam ficar pelo Porto?

A segunda é o voo aparentemente baixo. Tão baixo que aparentemente não se cumpria a regra de distância mínima de 20 metros do solo. Num dia de nevoeiro, vento e alguma chuva, faz sentido alargar as medidas de proteção habituais. Porque não foi isso que aparentemente aconteceu? E no seguimento deste raciocínio, também se poderia perguntar porque os postes que existem na serra não estão bem assinalados? Tantas luzes de ventoinhas e quase nada nos postes? De quem é essa responsabilidade?

Independentemente das razões verdadeiras, o que, organizacionalmente, mais impressiona é que, aparentemente, o INEM e as autoridades que coordenam todas as operações de socorro de Portugal não sabem por onde andam nem o que andam a fazer as suas equipas, e, pelos vistos, estas podem comunicar uma coisa e fazer outra a seguir sem qualquer problema. Ou seja, voltamos ao mesmo, o sistema de gestão e de monitorização da emergência médica e do socorro em Portugal continua com imensas falhas. E estas falhas são de gestão. Não são dos operacionais que apenas tem que fazer aquilo que organizacionalmente estiver definido. Se não está definida a obrigatoriedade de se comunicar antes de levantar voo (ou de sair com uma ambulância de um hospital depois de um serviço) não são os operacionais que vão agora inventar comunicações que a organização não exige.

É um assunto terrível para terminar o 2018. Mas só se pensarmos no que corre mal podemos melhorar e fazer melhor.

Votos a todos os leitores de muito Boas Festas.

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