A democracia

Comemoramos mais um aniversário desse fundamental acontecimento que libertou a Nação portuguesa de tão anacrónico jugo que, durante quarenta e oito anos, a impediu, designadamente pela força, de caminhar livremente o percurso da sua natureza intrínseca enquanto comunidade, isto é, uma indomável apetência para quotidianamente se fazer avançar na modernidade, sempre eivada desses imprescindíveis parâmetros da democracia e liberdade.

Quarenta e oito anos de uma ditadura paternalista, obtusa e sem qualquer sentido, enredou o país numa constância terceiro mundista, inadaptada a qualquer laivo de desenvolvimento e de colaboração com os seus pares europeus, cravando na mente dos seus cidadãos um sentimento envergonhado de pequenez, uma psicologia objetivamente servil relativamente a tudo o que vinha “de fora”, como se aos portugueses estivesse apenas destinado o elogio da sua história, porque incapazes de poderem sequer ousar pensar, quase por razões da sua própria natureza, em se aproximar dos contornos de qualidade de vida dos seus vizinhos europeus. Foram claramente tempos bafientos, porque serviram unicamente para obliterar a legítima vocação de elevação dos índices de modernidade da nação portuguesa, implicando, cada ano que ia passando, a ampliação do atraso relativo e a frustração daqueles que muitos, se mostravam inconformados com a estagnação que o país vivia.

O Estado era securitário e castrador de qualquer veleidade, viesse de onde viesse, razão porque alguma ação transformadora desse “status” seria duramente reprimida.

Por todos saberem que era assim, nunca é demais realçar a coragem dos militares da revolução que, largando a sua “zona de conforto” arriscaram as próprias vidas no derrube de um regime ditador e irracional, logrando libertar todo um povo das garras acintosas de quem não lhe dava o mínimo respeito.

A verdade é que a revolução permitiu que um país atrasado e sem rumo, se fosse paulatinamente organizando e transformando e modernizando, ganhando o seu lugar no seio das democracias mais avançadas e o respeito da comunidade internacional. Obviamente que os portugueses continuam a aprender a viver em democracia mantendo um atraso, sempre menos substancial contudo, para com os seus parceiros europeus. No entanto e apesar de alguns “equívocos” no percurso, o esforço de aproximação tem sido notável, começando a ver reconhecida a excelência de tantas valências sobressaídas da actividade de diferentes sectores, demonstrando ser protagonista de um vasto know howem importantes manifestações do saber. Não é, consequentemente, por acaso, que o maior grau de exercício de uma verdadeira e sustentada qualidade de vida, acontece nas democracias mais avançadas.

Tal constatação dever-nos-á a todos nós portugueses, fazer perceber a importância que o ano de 1974 teve, não apenas na inequívoca melhoria da qualidade de vida da Nação mas, acima de tudo, na imprescindível capacidade que todos temos de podermos expressar as nossas ideias, genuína e livremente.

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