A escolha é entre a austeridade e a democracia

Quase no fim do memorando da troika, todas as metas prometidas falharam. Meio milhão de postos de trabalho destruídos, salários e pensões 30% mais baixos, emigração maior que nos anos 60 (a austeridade esvazia o país como uma guerra), rutura em serviços públicos. E uma dívida pública que sempre a crescer; está em 130% do PIB e será maior em 2014.
Perante este cenário, multiplicam-se as vozes que nos dão conta do óbvio: a dívida terá de ser renegociada. Em todos os períodos da história, nos mais variados cantos do mundo, quando a dívida se torna insuportável – e portanto impagável – a renegociação é inevitável.
Hoje em Portugal o problema não é saber se a dívida será renegociada. É saber quando. Se continuamos a adiar o inevitável, chegaremos à renegociação com salários ainda mais miseráveis e num país espartilhado pelos grandes grupos económicos. Cortaram em salários e pensões de 1500€ em 2012, depois de 1000 em 2013, de 600 em 2014. Governo, FMI e Comissão Europeia dizem que 2015 e 2016 terão ainda mais austeridade. Ao mesmo tempo desmantelam o Estado Social e privatizam as funções do Estado que podem ser lucrativas. Sempre reconhecendo que afinal ainda não é desta que a dívida pública deixa de aumentar.
A saída para a crise precisa pois de coragem e responsabilidade. Iniciar um processo de negociação com credores oficiais e privados que permita reduzir a dívida pública para montantes que sejam sustentáveis. Trocar os atuais títulos de dívida por obrigações do tesouro a 30 anos e com carência de juros até 2020, para que o país possa ter folga para criar emprego e riqueza. Indexar os juros às exportações, para que os credores apostem no crescimento da nossa economia e não no esbulho de salários e pensões. Reduzir a zero os juros a pagar à troika, porque também eles se financiam a juros zero e quem era suposto ajudar não pode lucrar à custa da nossa miséria. E renegociar protegendo os pequenos aforradores, que detêm pouco mais de 5% da nossa dívida pública e não têm responsabilidade na crise financeira internacional que nos trouxe aqui.
Renegociar a dívida é um caminho duro, cheio de dificuldades. Mas é um caminho que percorreremos inevitavelmente. A escolha é fazê-lo quanto antes, e num processo dirigido pelo Estado português e em nome das pessoas, ou fazê-lo quando estivermos bem piores, num processo dirigido pelos credores em nome da finança. Querem consensos? Vamos então aos que importam e são a saída para a crise: renegociar a dívida.

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