A propósito da Praia da Memória

Desprezo o óbvio, quase tanto quanto desprezo a mediocridade, a hipocrisia, a deslealdade, a ausência de valores, a falta de coerência e a covardia.
Neste final prolongado de um Verão que se anunciou frio e, contrariando as previsões, se manifestou particularmente quente, fugirei à evidência dos temas da atualidade e escreverei sobre a minha janela preferida sobre o mundo, nestes dias de estio – a Praia da Memória.
Ao atravessar o passadiço dunar a visão da Praia mostra-se soberba. Os ventos fazem-na menos frequentada e o areal imenso de ar rude e ainda pouco domesticado dá-lhe um aspeto selvagem, indomado. Nas dunas, inteligentemente preservadas, ergue-se, majestoso e invencível, o obelisco de granito evocativo do desembarque de D. Pedro IV, acompanhado pelo “Exército Libertador”.
Foi daí e não do Mindelo, onde estava previsto desembarcar, que D. Pedro seguiu, acompanhado de 7.500 bravos homens, para o Porto. Onde resistiu durante um ano, naquele que ficou conhecido pelo famoso “Cerco do Porto”, e combateu o seu irmão, D. Miguel, pondo fim ao absolutismo.
D. Pedro IV acabou por sucumbir à tuberculose pouco depois da vitória. Contudo, teve tempo de acautelar que o seu coração fosse doado à cidade do Porto e ficou para sempre como uma referência, aquém e além-fronteiras, da defesa dos ideais liberais.
Foi sentada neste areal que, no ano passado, li a biografia de D. Pedro V, seu neto, e é curioso ver como, no pouco tempo que a sua curta vida lhe permitiu reinar e sendo demasiado jovem para tão exigente desempenho, se revelou um visionário ao lançar as bases de um Portugal moderno. Esse Portugal que o seu avô teria, seguramente, aspirado vislumbrar.
Aqui, neste recanto onde a terra se confronta com o mar, há momentos em que ao fecharmos os olhos se sente uma atmosfera única e verdadeiramente inspiradora.
Aqui, debruçada na minha janela sobre o mundo, sentindo a brisa marítima no rosto, questiono-me sobre o que pensaria D. Pedro IV, lá do alto da história, se lhe fosse dado olhar para nós, neste Portugal a fenecer na mão do poder absoluto dos mercados, sem ambição e sem a força necessária para um golpe de asa libertador.
Sim, o que pensaria D. Pedro IV, lá do alto da história, se lhe fosse dado olhar para este Portugal tomado de cima a baixo, nas mais diversas instâncias da vida política, por miguelistas empedernidos, disfarçados de grandes democratas, protagonistas serôdios de papéis para os quais lhes falta o saber, a arte e a coragem.
O que pensaria D. Pedro IV, lá do alto da história, se lhe fosse dado olhar para este Portugal a ficar putrefacto por inação de alguns que se esquecem de ser…
Nestes momentos, imagino que olharia para o espectro daqueles que o acompanharam no campo de batalha e voltaria a proclamar “Soldados , aquelas praias são as do malfadado Portugal. Ali vossos pais, mães, filhos, esposas, parentes e amigos suspiram pela vossa vinda e confiam nos vossos sentimentos, valor e generosidade(…)”

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