A Unicer e o país, o péssimo e o exemplar

Pires de Lima era ainda CEO da Unicer e, numa das linhas de produção da fábrica de Leça do Balio, 3 trabalhadores estavam há um ano com contratos mensais e sem um dia de férias. Pires de Lima foi para o governo e os três trabalhadores continuaram a assinar contratos mensais durante mais um ano, sem nunca gozarem férias. São 23 contratos de trabalho em dois anos e dois anos a trabalhar sem gozar um único dia de férias. Numa das empresas mais conhecidas do país e a casa do Ministro da Economia.
Os 3 trabalhadores foram dispensados, que é a palavra que se usa para o despedimento de trabalhadores sem vínculo, a 20 de Julho. O seu pecado talvez tenha sido fazerem perguntas. Mas os contratos ao dia, ao mês, os falsos temporários e recibos verdes, continuam. Só em Leça do Balio, estarão mais de 50 trabalhadores nas linhas de produção da Unicer em situações destas. Aumentam também os estagiários, principalmente nas tarefas administrativas. Vários métodos, uma regra: precariedade máxima, salários mínimos.
Os trabalhadores com vínculo da empresa são alvos a abater. E de facto, quase 1000 já rescindiram contrato. Chamam-lhes “rescisões amigáveis”, escondendo as intimidações sobre trabalhadores com 20, 30 e mais anos de trabalho. E quando não há rescisão, não desistem. Um dos trabalhadores foi despedido com a declaração de extinção do seu posto de trabalho, feita de forma ilegal e para logo o entregar a um outsourcing especializado no abuso laboral.
Na Unicer, como no país, está em curso um ataque violento aos direitos de quem trabalha. Substituem-se trabalhadores com vínculo por trabalhadores precários, abusando de uns e de outros. E se este é o péssimo cenário do país, há também algo de exemplar a ocorrer.
Os trabalhadores da Unicer de Leça do Balio pararam por completo a produção em greves sucessivas pela reintegração do trabalhador despedido ilegalmente. Todos a lutar pelos direitos de um. Todos a lutar pelos direitos de todos. Todos recusando baixar a cabeça e fazer auto-estrada ao abuso. Todos a serem resistência. Todos a construírem dignidade.

, ,