Ai de quem aponte o dedo aos “donos” da política…

1 – Numa recente entrevista à “RTP Informação” Rui Rio criou um novo conceito na nomenclatura da política (à) portuguesa – o principado. Sinteticamente, Rio definiu o principado como aquele pequeno universo de algumas centenas de pessoas que, aconchegadas num microcosmos acantonado na capital, se assumem como os genuínos intérpretes e decisores da vida nacional. Estes príncipes saracoteiam-se nos corredores da política, no mundo dos negócios, nos palcos da cultura, na roda da alta finança, e, claro está, debitam sapiência nos jornais, nas revistas, nas rádios e nas televisões.

Dizia RR que para o principado as fronteiras do país terminam nos limites do ângulo de visão dos seus príncipes. E concluía Rui Rio que, para o principado, ser nacional é pertencer a este microcosmos, onde todos os dias se renovam e purificam as mais cristalinas águas da inspiração divina. Logo, todos os que estejam fora daquelas fronteiras não merecem mais que um carimbo de políticos regionais, empresários locais, opinadores de sacristia, intelectuais de café, artistas de romaria, ou investidores de feira…

2 – Na referida entrevista Rio invadiu sem licença o território sagrado onde residem os “legítimos proprietários” da política nacional; criou o alvoroço nas guaritas do principado; rasgou os mandamentos do politicamente correto; perturbou o sossego dos confessionários da política; espicaçou os neurónios dos cientistas da arte; amedrontou os comensais da mesa do orçamento; e, crime dos crimes, ousou desnudar os especialistas desta ciência oculta que dá pelo nome de análise política, onde pontificam os protagonistas do politicamente correto…

Para quem conhece por dentro o universo mediático, as reações à entrevista de Rui Rio estão muito longe de constituírem surpresa. Ou seja, o principado, reagiu como era previsível. Já o espectador anónimo, esse percebeu muito bem as diferenças de linguagem entre o mundo do real e o da ficção. É que entre o pensamento da opinião pública, ou seja o verdadeiro juízo do povo, e a opinião publicada, ou seja o discurso mimético dos opinadores, existe um fosso cada vez maior; um fosso do tamanho da indispensável hipocrisia do mediaticamente correto.

3 – É por tudo isto que, em política, a curiosa expressão “ter boa imprensa” não é sinónimo de bem interpretar o sentido do dever, do bem comum, ou do interesse público. É antes fazer o jogo do politicamente correto, dos poderes fáticos, dos jogos de conveniência, do taticismo político, da intriga e do rodriguinho partidário, dos interesses instalados, do amiguismo corporativo, enfim, da vacuidade acéfala, e da simpatia mediática. Tudo o que Rui Rio não sabe fazer nem quer aprender.

Toda a gente sabe que na personalidade de Rui Rio o que releva é o instinto político, a frontalidade e a força das convicções, o pensamento independente e livre, e o visceral desprezo por todas as formas de oportunismo. Porque só fala quando lhe apetece e não quando lhe pagam para o fazer. Porque RR bem sabe, como dizia Aristóteles, que “a credibilidade, os factos e a emoção constituem os três pilares básicos da persuasão”.

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