Ainda o Charlie Hebdo

Os ataques em Paris que vitimaram membros da redação do jornal satírico “Charlie Hebdo”, oficiais de segurança e os frequentadores do supermercado “kosher”, levantaram a questão da liberdade de expressão, dos seus limites e da convivência em sociedade. Tratando-se de elementos tão fundamentais de uma sociedade aberta, como a nossa, vale a pena refletir atentamente.
O direito à expressão livre é incontestado numa sociedade ocidental. É por isso legítimo, ainda que contestável, que à esquerda se queira colar, como fez Ana Gomes, os ataques a resultados do “austerismo”. Mas é estranho, porque poucos dias depois, e após a publicação de nova edição do jornal, a mesma eurodeputada do Partido Socialista, criticava a capa por representar Maomé (o profeta, como escreveu) por isso representar uma ofensa ao povo muçulmano. Portanto, em certas cabeças, os atentados são explicados por um misto entre políticas austeritárias e de ofensas por se desenhar Maomé numa capa de jornal.
Creio que é em momentos destes que devemos estar unidos numa condenação inequívoca deste tipo de atos. O terrorismo não deve ser desculpado. O raciocínio de que uma capa de jornal é provocadora e por isso deve ser evitado pode ser usado noutras áreas. No Sudão são apedrejadas mulheres por serem mães solteiras ou por casarem com “infiéis”. Também se lhes aplica o raciocínio de que provocaram as autoridades locais?
Quem pega em armas para invadir um jornal e matar cartunistas por desenharem Maomé não o faz por provocação ou por discordar de políticas europeias. Fá-lo essencialmente por não saber viver numa sociedade livre – e nem toda a gente sabe, como é bom de ver – onde os conflitos se resolvem sem o recurso a armas de grande calibre. Nesse contexto são importantes as palavras do imã de Lisboa que dos terroristas disse à Renascença: “Se não estão satisfeitos em viver num país liberal, podem emigrar e deixem-nos em paz”. Porque de facto para quem age desta forma não há muitas mais respostas. E isso leva-nos naturalmente a questionar que tipo de ideologias convivem no meio da Europa com os nossos valores fundamentais da liberdade.
A resposta da sociedade tem de ser a da intolerância com a intolerância. Lutaram outros por nós para que pudéssemos viver em liberdade, façamos honrar essa herança.

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